O documentário A Vizinha Perfeita (The Perfect Neighbor), lançado na Netflix em 17 de outubro, mergulha profundamente em um caso de true crime estarrecedor que atingiu a cidade de Ocala, na Flórida, e reacendeu debates fervorosos sobre raça, violência e a polêmica lei de legítima defesa dos EUA, conhecida como “Stand Your Ground”.
A produção, dirigida pela cineasta Geeta Gandbhir, diferencia-se por utilizar quase que exclusivamente imagens de câmeras corporais da polícia, gravações de segurança e chamadas ao 911, apresentando os eventos de forma crua e sem narração tradicional.
A tragédia real centra-se no confronto mortal que pôs fim à vida de Ajike “AJ” Owens, uma mulher negra de 35 anos e mãe de quatro filhos, baleada por sua vizinha, Susan Lorincz, de 58 anos (na época).
A Vizinha Perfeita: qual a história real por trás do documentário da Netflix?
O que culminou em fatalidade foi uma disputa de vizinhança que se arrastou por mais de dois anos, em Ocala, Condado de Marion. Desde janeiro de 2021, as autoridades do Condado de Marion responderam a pelo menos seis chamadas sobre o desentendimento contínuo entre Lorincz e Owens.
A raiz da tensão eram os quatro filhos de Owens brincando perto do gramado de Lorincz. Lorincz, que morava no condomínio Quail Run, frequentemente ligava para a polícia, queixando-se das crianças que, segundo ela, eram barulhentas, estavam invadindo sua propriedade e a ameaçavam de morte. Em uma gravação, ela chegou a dizer à polícia: “Eu sou tipo a vizinha perfeita”.
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Onde a tensão começou: crianças, patins e acusações raciais
O documentário revela que a hostilidade de Susan Lorincz era amplamente percebida na comunidade. Segundo uma vizinha, Lorincz estava constantemente irritada com as crianças de Owens brincando fora e lhes dirigia “coisas desagradáveis”. Relatos indicam que Lorincz frequentemente gritava com os jovens e fazia denúncias falsas às autoridades.
Os filhos de Owens, que a apelidaram de “Karen” (gíria para mulheres brancas de meia-idade iradas que podem ser racistas em suas reclamações), disseram que ela os assediava, chamava-os de insultos raciais e até balançava um guarda-chuva ou uma arma na direção deles. Embora Lorincz mais tarde tenha negado o uso de calúnias raciais, um detetive afirmou em um depoimento pós-prisão que ela admitiu ter usado termos pejorativos contra os filhos de Owens, que são negros.
A disputa atingiu o pico quando Lorincz supostamente atirou um patins contra uma das crianças, atingindo seu pé, e balançou um guarda-chuva em outro. Lorincz alegou que estava apenas devolvendo um par de patins deixado em seu gramado.
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O dia fatal: confronto e o disparo pela porta trancada
O conflito final ocorreu em 2 de junho de 2023. Após seus filhos contarem o incidente do patins e do guarda-chuva, Ajike Owens, desarmada, foi até a porta de Lorincz para confrontá-la. Ela estava acompanhada por seu filho de 10 anos.
Lorincz, que já havia ligado para o 911 alegando invasão de propriedade, estava dentro de casa. Ela afirmou que Owens começou a bater ruidosamente em sua porta e gritou que a mataria, fazendo com que ela sentisse medo. Nesse momento, Lorincz pegou uma pistola calibre .380 e atirou em Owens através de sua porta trancada, ferindo-a fatalmente.
Deputados, que já estavam a caminho devido à primeira chamada de Lorincz sobre invasão de propriedade, encontraram Owens caída na grama, baleada. Ela foi levada ao hospital, onde foi declarada morta. O filho de Owens estava presente e foi ouvido gritando: “Eles atiraram na minha mamãe, eles atiraram na minha mamãe”.

Justiça para Ajike Owens
Lorincz foi presa cinco dias após o tiroteio, acusada de homicídio culposo com arma de fogo, negligência culposa, agressão e duas acusações de assalto.
Como a lei ‘Stand Your Ground’ influenciou a prisão de Susan Lorincz?
O caso ganhou atenção nacional e impulsionou o debate em torno das leis “Stand Your Ground” (Defenda Seu Ponto), que permitem o uso de força letal em autodefesa sob certas condições na Flórida. Lorincz tentou usar a lei como defesa, alegando que agiu por medo de ser morta e que tinha histórico de doença mental, incluindo Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Apesar da alegação de autodefesa, o xerife do Condado de Marion, Billy Woods, afirmou que a situação era um exemplo de quando a lei não era justificada, caracterizando o ato como “simplesmente um assassinato”. A demora inicial na prisão de Lorincz provocou protestos e pedidos de justiça pela família de Owens.
O veredito: a sentença de Susan Lorincz
Em agosto de 2024, um júri composto por seis pessoas a considerou culpada de homicídio culposo.
Em novembro de 2024, Susan Lorincz foi sentenciada a 25 anos de prisão. O juiz Robert Hodges, que supervisionou o caso, determinou que o tiro foi “completamente desnecessário”, pois Lorincz não estava sob ameaça iminente e já havia chamado a polícia. O juiz notou que ela poderia ter permanecido em sua sala, com uma porta trancada entre ela e Owens, mas optou por atirar através da porta.
Lorincz está atualmente encarcerada na Instituição Correcional Homestead, na Flórida, com data prevista de soltura para 8 de abril de 2048. Ela se desculpou pela morte de Owens, mas manteve que agiu por medo e que suas ações eram justificadas, inclusive alegando que Owens a ameaçou.
A mãe de Owens, Pamela Dias, que desempenhou um papel fundamental para que as imagens da polícia fossem divulgadas através da Lei de Liberdade de Informação (FOIA), permitindo a criação do documentário, disse que o mundo precisa saber o que aconteceu com sua filha. Em uma busca por justiça e legado, a família de Owens abriu um processo por morte injusta contra Lorincz em julho de 2025 e criou o fundo Standing In The Gap para apoiar famílias afetadas por violência racial.















