Falar sobre tragédias recentes é sempre caminhar em um campo minado, e com Caju, Meu Amigo (2026), a sensação não é diferente. O telefilme, que ganhou os holofotes ao estrear dentro da casa do Big Brother Brasil 26, logo depois na Tela Quente e, em seguida, disponibilizado no Globoplay, tenta tocar em uma ferida ainda aberta: a enchente histórica que devastou o Rio Grande do Sul em 2024.
Mas, ao contrário dos filmes-catástrofe que focam na adrenalina da destruição, aqui a aposta é no silêncio do “dia seguinte” — ou melhor, de um ano depois. A produção certamente vai dividir opiniões: para uns, um abraço delicado; para outros, um retrato que escancara privilégios de forma desconfortável.
Sinopse
A trama se passa em Porto Alegre, cerca de um ano após as águas baixarem. Conhecemos Rafaela (Vitória Strada), uma jovem que, em meio ao caos da reconstrução da cidade, resgata um cachorro vira-lata e o batiza de Pingo. A conexão é instantânea e o cão vira seu suporte emocional. Porém, a calmaria acaba quando Rafaela descobre que o animal, na verdade, se chama Caju e pertence a Nice (Liane Venturella).
A diferença entre as duas é brutal: enquanto Rafaela tenta seguir a vida com suas perdas mais “brandas”, Nice perdeu tudo — a casa, a mãe e o próprio Caju durante o resgate. O conflito se intensifica quando o cachorro foge novamente, obrigando essas duas mulheres de realidades opostas a se unirem em uma busca pelas ruas marcadas pela lama e pela memória.
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Crítica do filme Caju, Meu Amigo
O “depois” como protagonista
O maior acerto do filme é fugir do óbvio. Ao invés de usar efeitos especiais para recriar a enchente, o roteiro foca no rastro que ela deixou. A cidade de Porto Alegre aparece como um cenário estranho, meio silencioso, onde a vida tenta recomeçar em “câmera lenta”.
É interessante ver como o filme aborda que nem todas as feridas se fecham. A ambientação, um ano após o desastre, permite explorar o luto não como um evento, mas como um estado de convivência. Para quem é do Sul, ver locais como o Sarandi e as ilhas na tela traz uma camada extra de emoção e reconhecimento geográfico da dor.

A polêmica da empatia (ou a falta dela)
Aqui a coisa fica complexa. O filme tenta ser sensível, mas escorrega feio em alguns diálogos pesadas. Existe uma cena que é um verdadeiro soco no estômago — e não necessariamente de um jeito bom. Rafaela, a personagem de classe média que “apenas” perdeu o emprego e a rotina, questiona Nice, a mulher que perdeu a casa e a mãe: “Por que a senhora não pegou o Caju?”.
Se por um lado isso pode soar como um elitismo emocional cruel, uma desconexão total da realidade de quem teve que escolher entre a própria vida e a do animal. Por outro lado, dá para interpretar isso como uma exposição honesta de como a tragédia foi vivida de formas desiguais: quem estava no seco julga quem estava na água, sem entender a complexidade do trauma. Rafaela não é uma heroína perfeita; ela é falha, e talvez o filme queira justamente mostrar que a empatia precisa ser construída, pois ela não vem de fábrica.
Atuações contidas e o cachorro que rouba a cena
Se você espera grandes choros e gritos, vai se decepcionar. O tom do filme é a contenção, não é apelativo, o que é surpreendentemente positivo. As atrizes Vitória Strada e Liane Venturella apostam em olhares e silêncios, funcionando muito bem para uma história que quer ser intimista.
Mas quem manda no filme mesmo é o cachorro Tofu (que interpreta Caju). Ele não é apenas um bichinho fofo; ele funciona como um “espelho emocional”. Quando as humanas travam, ele age. Ele representa a continuidade da vida e aquele amor incondicional que não julga se você perdeu a casa ou não.
Um final agridoce sobre partilhar
O desfecho foge do clichê de “quem ganha a guarda”. Ao encontrarem Caju com uma criança que também foi traumatizada pela enchente, as protagonistas tomam uma decisão madura. O final não é sobre posse, é sobre rede de apoio.
A solução de uma “guarda compartilhada” entre as três famílias pode parecer utópica para os mais céticos, mas reforça a mensagem central da obra: a reconstrução não se faz sozinho e, às vezes, o amor precisa ser expandido para caber todo mundo. Caju não morre, o que é um alívio, mas ele deixa de ser propriedade para virar um símbolo de união.
Conclusão
Caju, Meu Amigo é um filme necessário, mas imperfeito. Ele acerta ao documentar a memória coletiva de um Rio Grande do Sul ferido e ao valorizar a relação humano-animal como forma de cura. No entanto, ele tropeça ao tentar equilibrar as diferentes realidades sociais atingidas pela enchente, por vezes soando insensível através de sua protagonista.
No fim das contas, vale a pena assistir? Sim. Seja pela delicadeza da fotografia e a atuação canina impecável, ou para debater os limites da empatia em tempos de crise. É uma obra que entende que, depois que a água baixa, o que sobra é a lama, a memória e a necessidade de aprender a caminhar junto de novo.
Onde assistir ao filme Caju, Meu Amigo?
Trailer de Caju, Meu Amigo (2026)
Elenco de Caju, Meu Amigo, do Globoplay
- Vitoria Strada
- Liane Venturella
- Bruno Fernandes

















