Se você abriu o catálogo da HBO Max recentemente, deve ter dado de cara com a nova superprodução brasileira: “Dona Beja”. A novela, que estreou há pouco no streaming, traz Grazi Massafera na pele de uma mulher poderosa, envolvente e que vira a sociedade de cabeça para baixo. Mas, entre uma cena e outra de romance e intriga, bate aquela dúvida: será que essa mulher existiu mesmo ou é tudo invenção de roteirista?
A resposta curta é: sim, ela existiu. Mas a vida real de Ana Jacinta de São José — o nome verdadeiro da lenda — tem detalhes que conseguem ser ainda mais surpreendentes (e, às vezes, bem diferentes) do que o que vemos na tela.
Ela existiu: saiba quem foi a verdadeira Dona Beja
Nascida em 1800, em Formiga (MG), e não em Araxá como muitos pensam, Ana Jacinta de São José mudou-se para a região do Triângulo Mineiro ainda criança,. O apelido “Beja” veio do avô, que comparava sua beleza à flor “beijo”. E foi justamente essa beleza que selou seu destino.
Ao contrário dos romances idealizados da TV, a história real começou com uma tragédia. Por volta dos 15 anos, Ana não viveu apenas um amor proibido; ela foi raptada pelo Ouvidor do Rei, Joaquim Inácio Silveira da Motta. O avô dela, ao tentar impedir o sequestro, acabou assassinado,. Ela foi levada à força para Paracatu, onde viveu como amante do ouvidor por cerca de dois anos, até que ele foi chamado de volta ao Rio de Janeiro por Dom João VI.
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O retorno a Araxá e a “vingança”
Quando Ana Jacinta voltou a Araxá, não encontrou acolhimento. A sociedade conservadora da época a via como uma mulher “impura” e de reputação manchada. Foi aí que a “vítima” deu lugar ao mito.
Rejeitada pelas senhoras da sociedade e impedida de ter uma vida “respeitável”, ela decidiu usar a hipocrisia local a seu favor. Com a fortuna acumulada durante o tempo que viveu com o Ouvidor, ela construiu o famoso sobrado e fundou a Chácara do Jatobá.
A Chácara não era um bordel qualquer. Era um local de luxo onde ela ditava as regras. Diz a lenda (e alguns registros) que ela se deitava com homens casados da cidade — um diferente a cada noite — como forma de vingança contra as mulheres que a desprezaram. Mas, acima de tudo, ela se tornou uma mulher de negócios e estrategista política.
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O que é ficção na novela “Dona Beja” da HBO Max?
A nova versão da HBO Max, escrita por Daniel Berlinsky e António Barreira, deixa claro que é uma obra de ficção inspirada em fatos, e não um documentário. A produção modernizou a trama para dialogar com o público de hoje, focando no empoderamento e atualizando conflitos raciais e sociais.
Aqui estão as principais diferenças entre a tela e a história:
- O Pai da Filha: Na novela e na cultura pop, o grande amor de Beja é muitas vezes retratado como Antônio Sampaio (Manoel, em algumas versões). Porém, pesquisas históricas indicam que a primeira filha de Beja, Teresa, seria filha de um padre, o vigário Francisco José da Silva, e não do galã da trama.
- O Fim da Vida: As novelas costumam focar na juventude e no auge da beleza. Na vida real, Beja teve uma velhice ativa e rica. Ela se mudou para a região de Bagagem (atual Estrela do Sul) em 1853, onde investiu no garimpo de diamantes e ganhou ainda mais dinheiro,.
- A “Vilã”: A rivalidade feminina na novela ganha contornos dramáticos para prender a audiência. Na nova versão, a personagem Angélica (Bianca Bin) foi construída para fugir do maniqueísmo, mostrando como o patriarcado colocava mulheres umas contra as outras, algo que vai além do registro histórico puro.
Dona Beja: heroína ou vilã?
Essa é a pergunta que gera buscas no Google até hoje. A historiografia moderna tende a ver Beja menos como uma “pecadora” e mais como uma sobrevivente.
Historiadores apontam que ela teve influência direta em decisões políticas importantes. Acredita-se que Beja usou sua influência junto ao Ouvidor para pressionar pela reintegração do Triângulo Mineiro à capitania de Minas Gerais (a região pertencia a Goiás na época),.
Além disso, ela desafiou as leis não escritas do século XIX. Ao morrer, em 1873, aos 73 anos, deixou um testamento que provava sua independência financeira, algo raríssimo para uma mulher solteira naquele tempo,.
Curiosidades que você precisa saber
- A Ponte da Beija: Em Estrela do Sul, ela financiou a construção de uma ponte para facilitar o acesso à igreja de sua devoção.
- Morte e Mistério: Ela morreu de nefrite (inflamação nos rins). Em 2011, houve boatos de que sua ossada teria sido encontrada durante obras em Estrela do Sul, em um caixão com adornos de zinco, condizente com relatos de seu enterro.
- Turismo: Em Araxá, o “Museu Dona Beja” e a famosa fonte de águas radioativas e lama negra mantêm o mito vivo, embora a novela tenha sido gravada em cidades cenográficas no Rio de Janeiro,.
No fim das contas, a Dona Beja da HBO Max é uma “releitura contemporânea” de uma mulher que, na vida real, foi empresária, mineradora e política informal, muito antes desses termos serem aplicáveis a mulheres no Brasil. Se a novela é boa, a história real é, no mínimo, fascinante.















