Sabe aquelas séries que chegam no catálogo da Netflix sem muito alarde, mas que em poucos minutos te prendem pelo pescoço? Pois é, Filhos do Chumbo (Ołowiane dzieci, no original), produção polonesa lançada neste início de 2026, é exatamente esse tipo de obra.
Se você é fã de narrativas densas como Chernobyl ou Erin Brockovich, pode parar de procurar o que assistir hoje à noite. Mas já vou avisando: não é uma maratona leve. É uma daquelas histórias baseadas em fatos reais que desenterram feridas profundas e deixam a gente pensando na capacidade humana de ignorar o óbvio em nome do poder.
Sinopse
A trama nos joga diretamente para a Polônia comunista dos anos 70, mais especificamente para a região industrial da Silésia, em 1974. A cidade está em polvorosa se preparando para receber a visita do líder soviético Leonid Brezhnev, e a ordem é mostrar progresso e perfeição.
No meio desse cenário cinzento, conhecemos a Dra. Jolanta Wadowska-Król (interpretada brilhantemente por Joanna Kulig), uma pediatra que começa a notar algo errado: crianças desmaiando em festivais, casos excessivos de anemia e atrasos no desenvolvimento.
O que parece ser uma questão de saúde isolada logo se revela uma epidemia massiva de saturnismo (envenenamento por chumbo), causada diretamente pela gigantesca fundição que sustenta a economia local. Quando ela tenta soar o alarme, não encontra apoio, mas sim um muro de burocracia, ameaças da polícia secreta e um governo desesperado para encobrir suas falhas estruturais.
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Crítica da série Filhos do Chumbo, da Netflix
A “Chernobyl” da medicina
É impossível assistir a Filhos do Chumbo sem fazer o paralelo imediato com a minissérie da HBO, Chernobyl. E não é só porque ambas se passam na Cortina de Ferro. A série polonesa aposta na mesma atmosfera opressiva, onde o perigo é invisível e está no ar que as crianças respiram e na terra onde brincam.
A direção de arte e a fotografia dessaturada, dominada por tons de cinza e verde-oliva, fazem você quase sentir o gosto metálico e o cheiro da fumaça que sai das chaminés. É uma “estética da contaminação” que funciona muito bem para nos deixar desconfortáveis no sofá.

Joanna Kulig e a força do elenco feminino
Se o visual convence, é o elenco que dá alma ao negócio. Joanna Kulig (que já brilhou em Guerra Fria) entrega uma atuação visceral. A Dra. Jolanta dela não é aquela heroína de capa que faz discursos bonitos; é uma mulher cansada, frustrada, mas teimosa como ninguém. Ela equilibra a vulnerabilidade de quem teme pelo próprio futuro (e de seu filho ainda não nascido) com a determinação ferrenha de uma médica que não aceita ver seus pacientes morrerem.
Além dela, a série acerta em cheio ao focar na agência feminina. Enquanto os homens — diretores da fábrica, políticos e maridos preocupados com a carreira — ocupam os cargos de poder e decidem pelo silêncio, são as mulheres (mães, médicas e enfermeiras) que compram a briga. A química entre Kulig e atrizes como Agata Kulesza é o que sustenta o peso emocional da trama.
O sistema como vilão
O roteiro é inteligente ao não transformar apenas um indivíduo no vilão da história, embora o oficial de segurança Hubert Niedziela cumpra bem esse papel de antagonista direto, fazendo ameaças veladas e vigiando cada passo da protagonista. O verdadeiro inimigo aqui é o sistema. A série mostra como a engrenagem estatal prioriza metas de produção e a imagem do partido acima da vida humana.
Há uma cena emblemática em um ferro-velho, logo no início, onde Jolanta é ameaçada sob a mira de uma arma. Isso define o tom: fazer a coisa certa na Polônia dos anos 70 podia custar sua vida, sua carreira e sua família. E o mais doloroso é ver a divisão da própria população; muitos vizinhos hostilizam a médica porque o emprego deles depende da fábrica que está envenenando seus filhos. É um dilema moral complexo e muito bem explorado.
Ritmo lento ou necessário?
Aqui cabe uma ressalva importante para quem busca ação frenética: Filhos do Chumbo tem um ritmo próprio. Alguns podem achar o desenrolar dos seis episódios um pouco lento ou arrastado, focando muito na burocracia e na pressão psicológica em vez de grandes reviravoltas de suspense. Não espere perseguições de carro estilo Hollywood. O terror aqui é burocrático e silencioso.
O final, inclusive, segue essa linha realista e agridoce. Não há uma “vitória total” onde a fábrica fecha e todos vivem felizes. Há, sim, o rompimento do silêncio e o início de uma consciência coletiva, mas a justiça plena fica a desejar — o que é historicamente preciso, mas pode frustrar quem espera um desfecho mais catártico.
Conclusão
Filhos do Chumbo é, sem dúvida, um soco no estômago necessário. É uma produção tecnicamente impecável que usa o entretenimento para fazer uma reparação histórica às vítimas de Szopienice e honrar o legado da verdadeira Dra. Jolanta Wadowska-Król.
Se você gosta de dramas históricos sérios, que respeitam a inteligência do espectador e não têm medo de finais agridoces, essa série é um prato cheio (embora indigesto pelo tema). Filhos do Chumbo prova que o streaming ainda pode ser palco para denúncias sociais poderosas. Prepare o lenço e o estômago, porque a realidade, às vezes, é mais tóxica que a ficção.
Onde assistir à série Filhos do Chumbo?
Trailer de Filhos do Chumbo (2026)
Elenco de Filhos do Chumbo, da Netflix
- Joanna Kulig
- Agata Kulesza
- Kinga Preis
- Michał Żurawski
- Marian Dziędziel
- Zbigniew Zamachowski
- Sebastian Pawlak
- Grzegorz Przybył
- Robert Talarczyk
- Barbara Lubos

















