A gente sempre torce o nariz quando anunciam o remake de um clássico intocável, não é verdade? Quando espalharam a notícia de que a icônica “The Office” ganharia uma versão mexicana no Prime Video, muita gente já preparou as pedras.
Copiar o humor sagrado de Ricky Gervais ou o carisma absurdo de Steve Carell parecia uma receita certa para o fracasso. Mas, para a surpresa geral, a adaptação comandada pelo diretor Gaz Alazraki e pelo showrunner Marcos Bucay fez o impensável: driblou o ceticismo e entregou uma das melhores surpresas da comédia atual. “La Oficina” não tenta ser a série que você já conhece; ela abraça a própria identidade e prova que o México sabe, e muito, rir de si mesmo.
Sinopse
Esqueça a venda de papéis em Scranton ou Slough. “La Oficina” nos leva até a cidade de Aguascalientes, direto para as mesas da “Jabones Olimpo”, uma empresa focada em vender sabonetes para hotéis de beira de estrada. Ao longo de oito episódios, a série acompanha a rotina da cultura “godín” (o clássico trabalhador de escritório mexicano) que tenta sobreviver ao caos liderado por Jerónimo Ponce III.
Ele é um chefe totalmente desqualificado que só ocupa o cargo por puro nepotismo, já que é filho do dono da empresa. Entre vendas, intrigas e dinâmicas de poder, a equipe precisa lidar com o absurdo diário de uma chefia inibida de qualquer bom senso.
Crítica da série mexicana La Oficina
O pedido da BBC: “Façam um cover, não uma cópia”
O maior acerto da série começou nos bastidores. Quando a BBC cedeu os direitos, a instrução foi clara: eles queriam um “cover”, e não uma adaptação direta. E foi exatamente isso que Alazraki e Bucay fizeram. A série brilha por substituir arquetipos antigos por situações incrivelmente latinas e reconhecíveis, como a dinâmica sufocante das empresas familiares e os funcionários que precisam aguentar abusos absurdos só para não perderem o emprego.
A ambientação é tão autêntica que os roteiristas incluíram até a figura da “Neni” – aquela funcionária que aproveita a mesa do escritório para vender coisas e conseguir chegar no fim do mês com algum dinheiro. É uma mexicanização muito bem executada que transformou a série em algo com DNA próprio.

Jerónimo Ponce III: o chefe que amamos odiar
Se havia um peso gigante nessa produção, ele estava nos ombros do protagonista. Fernando Bonilla, interpretando Jerónimo, entrega uma atuação espetacular. O grande diferencial aqui é que Jerónimo não é uma cópia de Michael Scott ou David Brent. Ele traz uma camada nova: a do privilégio herdeiro misturado com uma gigantesca síndrome do impostor.
A gente descobre aos poucos que, por trás daquele cara imaturo, desagradável e inoportuno, existe alguém profundamente inseguro que tenta provar o tempo todo que merece estar ali. Bonilla consegue fazer o público sentir muita raiva, mas também uma certa pena do personagem.
O humor desconfortável como espelho social
“La Oficina” mantém o estilo clássico de falso documentário (mockumentary), com aquelas famosas olhadas de quebra de quarta parede para a câmera. No entanto, a série eleva o “cringe” (vergonha alheia) ao usá-lo como uma ferramenta afiada de crítica social. As piadas expõem sem filtros o machismo, racismo, classismo e a homofobia enraizados no ambiente corporativo, não para validar essas atitudes, mas para ridicularizá-las.
O elenco de apoio também ajuda muito a criar esse ecossistema. Um destaque maravilhoso é Edgar Villa no papel de “Aniv Rubio”, a versão mexicana do Dwight/Gareth. Só que, desta vez, o arquétipo do puxa-saco foi perfeitamente adaptado para o “capacho” latino, aquele que aceita ser pisado pelo chefe só para agradar.
O peso da nostalgia e as comparações
Apesar da altíssima qualidade (e de já estrear batendo 8.6 no IMDb, algo excelente para qualquer produção), a série tem um obstáculo natural: os viúvos de “The Office”. Quem espera ver a exata mesma genialidade irônica da versão americana ou a acidez extrema da britânica pode estranhar o tom.
Alguns espectadores podem sentir falta do perfil de “líder disfuncional” que víamos nos EUA, já que Jerónimo é menos ácido e talvez um pouco mais atrapalhado e dependente do fato de ser intocável pelo pai. Ainda assim, essa diferença não tira o mérito da produção, que caminha maravilhosamente bem com as próprias pernas.
Conclusão
“La Oficina” é uma prova de que é possível, sim, tocar em obras consagradas quando o trabalho é feito com paixão, inteligência e respeito à cultura local. Em uma temporada de estreia curta, envolvente e divertidíssima, a série garante risadas genuínas e deixa aquele gostinho de “quero mais” ao final do oitavo episódio.
É uma comédia refinada, que foge das saídas baratas e mergulha de cabeça nas situações patéticas do dia a dia do trabalhador. Quer você seja fã de carteirinha da franquia ou apenas alguém procurando uma boa maratona pro fim de semana, reserve um espaço na agenda e vá assinar o seu ponto em Aguascalientes. Você não vai se arrepender.
Elenco da série mexicana La Oficina, do Prime Video
- Fernando Bonilla
- Elena Del Río
- Fabrizio Santini
- Edgar Villa
- Armando Espitia
- Paola Flores
- Arelí González
- Alexa Zuart
- Guillermo Quintanilla
- Juan Carlos Medellín
- Alejandra Ley
- Arturo Vinales
- Quetzalli Cortés
- Erika De La Rosa
- Gustavo Hernández De Anda
















