Se tem uma coisa que Steven Knight sabe fazer, é monopolizar o mercado de histórias sujas, corajosas e cheias de fumaça sobre o lado sombrio do Reino Unido na virada do século. Depois de Peaky Blinders e House of Guinness, ele volta com a temporada 2 de Mil Golpes no Disney+.
A primeira temporada foi aquela correria, um conto ágil sobre boxeadores machucados e sonhos frustrados. Mas, se você espera apenas mais do mesmo ritmo frenético, prepare-se: essa segunda temporada pisa no freio da euforia e mergulha de cabeça nas consequências.
É como aquelas músicas no meio de um álbum de rock: talvez não sejam os hits de rádio, mas é onde a banda toca mais solta, focada em construir o mundo e menos em correr contra o relógio.
Sinopse
A trama retoma cerca de um ano após o final devastador da primeira temporada. Nossos protagonistas estão, basicamente, lambendo as feridas. Hezekiah Moscow (Malachi Kirby) está lutando no circuito ilegal de barcaças offshore para fugir da lei após matar acidentalmente o campeão Buster Williams. Sugar Goodson (Stephen Graham), antes o chefão temido, agora é um alcoólatra vagando pelas ruas de Wapping, assombrado por ter espancado o próprio irmão, Treacle, quase até a morte.
Enquanto isso, Mary Carr (Erin Doherty) foi deposta do comando da gangue feminina “The Forty Elephants (Os Quarenta Elefantes)” e sobrevive de pequenos golpes. A nova temporada gira em torno da tentativa desse trio de sair do fundo do poço: Mary planeja um roubo ousado de um Caravaggio com a ajuda da hipnotizadora Sophie Lyons para recuperar seu trono; Sugar tenta ficar sóbrio e consertar a família despedaçada; e Hezekiah recebe a estranha oportunidade de treinar o Príncipe Albert Victor, numa chance de ganhar terras na Jamaica e vingar seu amigo Alec.
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Resenha crítica da temporada 2 de Mil Golpes
No fundo do poço (mas com estilo)
Se a primeira temporada passou voando como uma sequência de socos rápidos, a segunda começa com uma ressaca moral pesadíssima. É, honestamente, bem deprimente no início. Quase todos perderam algo ou alguém vital. A série assume que você já conhece as regras do jogo e o universo, então não perde tempo recapitulando. Isso permite que a narrativa “respire”, focando mais na psicologia do risco e da recompensa do que na pancadaria desenfreada.
A atmosfera continua impecável. Seja nas ruas imundas do East End ou nos palácios do Príncipe Albert, a série é visualmente deslumbrante, mantendo aquele padrão de qualidade visual que é marca registrada de Knight. No entanto, o tom mudou: a rivalidade romântica entre os protagonistas ficou de lado para dar lugar a uma luta pura e simples pela sobrevivência e relevância em um mundo que os quer destruir.

O show de Erin Doherty e a humanização do bruto
O grande trunfo continua sendo o elenco. Erin Doherty é uma força da natureza. O problema de ter alguém tão magnético assim é que fica difícil saber se a série é boa mesmo ou se é ela quem carrega o roteiro nas costas. Ela transforma a angústia de Mary — lidando com a rejeição e a perda de poder — em um psicodrama fascinante.
Do outro lado, temos Stephen Graham entregando uma performance monstruosa, mas de um jeito diferente. O Sugar da primeira temporada, aquele lunático de olhos mortos, dá lugar a um homem mais triste, suave e cheio de autodesprezo.
A dinâmica dele com o irmão Treacle (que mudou drasticamente após o espancamento sofrido) traz uma camada emocional que faltava antes. Já Malachi Kirby mantém a firmeza, agora lidando com a política racial ao treinar a realeza, embora seu arco de vingança às vezes pareça andar em círculos.
Roteiro: entre a diversão e a confusão
Apesar das atuações de elite, o roteiro dá umas escorregadas. A série tenta abordar temas como colonialismo, feminismo e anarquismo, mas muitas vezes fica só no gesto, sem profundidade real (a política anarquista, por exemplo, é bem confusa). Além disso, existem aquelas resoluções estilo deus ex machina que resolvem problemas complexos num estalar de dedos, e subplots que simplesmente somem.
A narrativa às vezes parece “enlameada”, sem a clareza propulsiva da primeira temporada. Personagens mudam de personalidade drasticamente e a lógica às vezes tira folga. Porém, mesmo quando a história não faz muito sentido, o ritmo “pulp” e a vivacidade das cenas mantêm o entretenimento. É aquele tipo de série que, mesmo quando erra, te diverte.
Conclusão
A segunda temporada de Mil Golpes é uma besta diferente da primeira. Ela troca a energia caótica da novidade por uma exploração mais sombria e melancólica das consequências da violência. Embora sofra um pouco para reencontrar o pé e pareça menos “impactante” ou urgente que o ano de estreia, ainda é uma televisão de altíssima qualidade estética.
Com atuações que elevam o material — especialmente a de Doherty, que merece todos os prêmios — a série consegue fazer com que nos importemos com esses personagens quebrados tentando se reconstruir. Pode não ser um documento político coerente ou um roteiro perfeito, mas como drama de época sujo e estiloso, Mil Golpes ainda tem fôlego e sabe exatamente como acertar o queixo do espectador quando precisa.
Onde assistir à temporada 2 de Mil Golpes?
Trailer da 2ª temporada de Mil Golpes
Elenco da segunda temporada de Mil Golpes
- Malachi Kirby
- Erin Doherty
- Stephen Graham
- Francis Lovehall
- James Nelson-Joyce
- Darci Shaw

















