Se você terminou de assistir a O Mundo Vai Tremer (The World Will Tremble, 2025) recentemente, é muito provável que o filme tenha te deixado com um nó na garganta. A produção foge dos clichês de grandes batalhas e foca na claustrofobia angustiante de dois homens tentando sobreviver a um pesadelo absoluto. A pergunta que não quer calar assim que os créditos sobem é: essa história brutal realmente aconteceu?
A resposta curta é sim. E a resposta longa é que a realidade consegue ser ainda mais assustadora — e heroica — do que o que vemos na tela.
Abaixo, detalhamos tudo o que é verdade no filme dirigido por Lior Geller, separando a ficção dos fatos históricos sobre a fuga do campo de extermínio de Chełmno.
O filme “O Mundo Vai Tremer” é fiel aos fatos reais?
A obra foi construída sobre uma base documental muito sólida. O diretor e roteirista Lior Geller dedicou cerca de dez anos de sua vida pesquisando os eventos que ocorreram no campo de Chełmno. Para garantir a precisão histórica, ele contou com a colaboração de pesquisadores renomados, como a Dra. Na’ama Shik, do centro de memória do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém.
O próprio ator Oliver Jackson-Cohen, que interpreta Solomon, declarou em entrevistas que cada detalhe presente no roteiro é uma história inteiramente verdadeira. Essa é, incrivelmente, a primeira vez que a história da fuga pioneira desse campo específico é contada de forma detalhada no cinema.
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O que era o campo de Chełmno na vida real?
Diferente dos gigantescos campos de concentração com trabalhos escravos ou fábricas, Chełmno (localizado na Polônia ocupada) foi o primeiro campo projetado pela Alemanha nazista com um único e exclusivo propósito: o extermínio em massa.
O filme é muito preciso ao mostrar como os nazistas, liderados pelo comandante Herbert Lange, enganavam famílias judias inteiras com promessas de “reassentamento” e trabalho em Leipzig. Na vida real, as vítimas eram obrigadas a se despir e, em seguida, trancadas nas traseiras de caminhões adaptados. O gás do escapamento (monóxido de carbono) era redirecionado para dentro do baú do veículo em movimento, asfixiando todos lá dentro.

A verdadeira história de Solomon Wiener e Michael Podchlebnik
No centro dessa tragédia estão as figuras reais de Szlama Ber Winer (chamado de Solomon no filme e interpretado por Oliver Jackson-Cohen) e Michał Podchlebnik (Michael, vivido por Jeremy Neumark Jones).
Assim como mostrado no longa, eles não foram executados imediatamente ao chegar ao campo. Por serem jovens e fortes, foram forçados a integrar o Sonderkommando. O “trabalho” deles consistia em cavar valas comuns na floresta, retirar os corpos asfixiados dos caminhões, separar os pertences de valor e enterrar as vítimas.
O ponto de ruptura — que motiva a fuga no filme — também é um fato real e perturbador. Michał Podchlebnik de fato encontrou os corpos de sua própria esposa e de seus filhos enquanto trabalhava nas valas comuns. Quando ele implorou aos guardas para ser morto ali mesmo, o pedido foi negado sob a justificativa de que ele “ainda tinha forças para trabalhar”.
Como foi a fuga na vida real?
Em janeiro de 1942, sabendo que a morte era apenas uma questão de tempo e que o mundo precisava saber o que estava acontecendo, eles decidiram fugir. A fuga retratada no filme é impressionantemente fiel aos relatos.
Eles aproveitaram o transporte de caminhão até a floresta, cortaram a lona do veículo (com um caco de vidro ou faca improvisada) e saltaram enquanto o caminhão ainda estava em movimento, sob o fogo das armas dos guardas alemães. Eles se separaram na floresta, enfrentaram um frio congelante, atravessaram rios e contaram com a ajuda providencial de locais — como a camponesa polonesa que forneceu uniformes ferroviários para disfarce — até chegarem ao gueto da cidade de Grabów.
O que aconteceu com Solomon e Michael? (Final Explicado Real)
A missão da dupla não era apenas sobreviver, mas testemunhar. E eles conseguiram. Ao chegar no gueto de Grabów, Solomon relatou as atrocidades ao Rabino Schulman. Inicialmente, houve muita descrença, pois o extermínio em escala industrial soava absurdo até para as vítimas.
O relato de Solomon foi escrito e se tornou conhecido historicamente como o Relatório Grojanowski (o pseudônimo que ele usou). Graças à resistência judaica clandestina, a mensagem foi contrabandeada até Londres.
A recompensa por essa coragem teve destinos drasticamente diferentes na vida real:
• O impacto no mundo: Em 26 de junho de 1942, a rádio BBC de Londres transmitiu o testemunho para o mundo inteiro, e dias depois, o New York Times também publicou a história. Foi o primeiro relato oficial de testemunhas oculares sobre o genocídio e as câmaras de gás móveis nazistas. Daí vem o título do filme: a promessa do rabino de que “o mundo iria tremer” ao ouvir a verdade.
• O trágico destino de Solomon: Solomon não sobreviveu à guerra. Em abril de 1942, enquanto procurava por parentes sobreviventes, ele foi capturado pela polícia nazista. Ele foi enviado ao campo de extermínio de Bełżec, onde foi assassinado em uma câmara de gás.
• A sobrevivência de Michael Podchlebnik: Michael foi o único dos prisioneiros fugitivos daquele grupo a sobreviver ao Holocausto. Ele se escondeu em uma fazenda polonesa até o fim da guerra, imigrou para Israel, casou-se novamente e teve filhos. Ele foi uma testemunha fundamental no julgamento de Adolf Eichmann em 1961 e nos tribunais contra os guardas de Chełmno em 1962, na Alemanha Ocidental.
• O Rabino Schulman: Infelizmente, cerca de três semanas após receber o relato de Solomon e enviá-lo adiante, o rabino e toda a sua comunidade foram deportados para Chełmno e mortos.
O Mundo Vai Tremer é mais do que um thriller de sobrevivência; é um tributo histórico vital. Ao exibir imagens reais do depoimento de Michael Podchlebnik chorando nos anos 1970 pouco antes dos créditos finais, o filme nos lembra que combater o apagamento da história ainda é o nosso maior ato de resistência.












