Sabe aquelas séries que ficam num meio-termo estranho, onde você não sabe se ri ou se fica tenso? “O Tempo das Moscas”, produção argentina que aterrissou na Netflix, é exatamente isso. Baseada nos romances de Claudia Piñeiro, a trama foge daquele padrão clichê de “série de crime latino-americana” cheia de violência gráfica e cartéis, para entregar algo mais suburbano, seco e focado na classe média decadente.
Com direção dividida entre Ana Katz e Benjamín Naishtat, a minissérie tenta costurar a vida pós-cárcere com uma trama policial meio atrapalhada. Não é uma obra-prima que vai mudar sua vida, mas traz uma perspectiva interessante sobre reinserção social e amizade feminina, mesmo quando o roteiro dá umas derrapadas.
Sinopse
A história gira em torno de Inés (Carla Peterson) e La Manca (Nancy Dupláa). Inés é uma mulher de origem abastada que passou 15 anos presa por assassinar a amante do marido — uma história pregressa que a série explora a fundo, baseada no livro “Tuya”.
Agora livre, mas carregando o estigma de ex-detenta, ela se une a La Manca, uma parceira de cela de origem mais humilde. Juntas, elas montam uma pequena empresa de dedetização, rodando por aí numa caminhonete que lembra uma versão argentina da “Máquina de Mistério” do Scooby-Doo.
A rotina de matar baratas e moscas é interrompida quando elas cruzam com Susana Bonar (Valeria Lois). O que parecia ser um serviço comum de desinfecção vira uma chantagem: Bonar sabe do passado de Inés e a força a conseguir um veneno raro e letal.
Pressionada pela situação financeira precária e pela necessidade urgente de pagar uma cirurgia para La Manca, Inés acaba aceitando entrar num jogo perigoso que envolve vingança, segredos familiares e a tentativa desesperada de não voltar para trás das grades.
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Resenha crítica da série O Tempo das Moscas
Uma química que segura o roteiro
Se a série não desmorona nos momentos mais lentos, a culpa é totalmente da dupla de protagonistas. Carla Peterson entrega uma Inés contida, tentando manter a postura de “mulher de sociedade” mesmo vestindo macacão de dedetizadora, enquanto Nancy Dupláa traz a visceralidade e a esperteza das ruas como La Manca.
A relação delas não é aquela amizade idealizada de filmes de “Best Friends Forever”; é uma aliança de sobrevivência. Elas estão juntas porque o mundo lá fora não quer saber de ex-presidiárias. Essa dinâmica é o coração da série.
Mesmo quando o enredo criminal parece forçado ou confuso, ver essas duas tentando decifrar os sinais e improvisar soluções mantém o espectador engajado. O elenco de apoio, com destaque para Osqui Guzmán, ajuda a dar cor a esse universo desigual.

O problema do tom e das “moscas”
Aqui a coisa complica um pouco. A série sofre de uma oscilação de humor que nem sempre funciona. Começa quase como uma comédia de costumes sobre o choque de realidade da reinserção, mas tenta virar um thriller de suspense no meio do caminho. O problema é que falta tensão real na maior parte do tempo. O perigo que Susana Bonar representa demora a engrenar, e a trama policial às vezes parece apenas um pretexto para vermos as personagens interagindo.
Além disso, temos a questão da narração em off. Inés passa boa parte do tempo fazendo metáforas sobre a vida das moscas, comparando-as ao comportamento humano. Na primeira vez, é poético; na quinta, soa forçado e pretensioso, como um recurso literário que não traduziu bem para a tela. É uma tentativa de dar profundidade que acaba soando repetitiva.
O destaque do terceiro episódio e a direção
Curiosamente, o melhor momento da série é um mergulho no passado. O terceiro episódio, focado inteiramente no crime que levou Inés à prisão 15 anos antes, é dirigido por Benjamín Naishtat e tem uma pegada diferente. Ele contextualiza a violência doméstica e o controle patriarcal que moldaram a protagonista, oferecendo uma densidade que falta no resto da temporada.
Visualmente, a série acerta ao evitar o glamour. A fotografia é seca, “sem filtro”, o que combina perfeitamente com a vida de perrengues das protagonistas. A direção de arte reforça essa sensação de desconforto e precariedade, mostrando que a prisão delas continua existindo, agora na forma de boletos, preconceito e falta de oportunidades.
Moralidade cinzenta e final agridoce
O roteiro tem méritos ao não julgar suas personagens. A decisão de Inés de participar do crime para salvar a amiga (e a si mesma) é construída sem lição de moral barata. A série mostra como a necessidade dissolve fronteiras éticas. O desfecho, embora traga algumas reviravoltas rocambolescas envolvendo a filha de Inés e uma vingança complexa de Bonar, entrega um final satisfatório justamente por sua ambiguidade. Ninguém sai “limpo” ou totalmente redimido, e a ideia de que a liberdade é algo que se conquista (e se perde) aos poucos é bem amarrada.
Conclusão
“O Tempo das Moscas” é uma série de contrastes. Tem atuações de primeira linha presas em um roteiro que oscila entre o brilhantismo social e a trama policial morna. Não espere a adrenalina de um grande thriller, mas sim um estudo de personagens sobre duas mulheres tentando se manter à tona em um sistema feito para afundá-las.
Apesar das metáforas de insetos um tanto irritantes e de um ritmo irregular, vale a pena pela performance de Peterson e Dupláa. É uma história sobre recomeços tortuosos, onde a “sujeira” do passado nunca sai completamente, não importa quanto veneno você jogue nela.
Onde assistir à série O Tempo das Moscas?
Trailer de O Tempo das Moscas (2026)
Elenco de O Tempo das Moscas, da Netflix
- Carla Peterson
- Nancy Dupláa
- Valeria Lois
- Julia Dorto
- Osky Guzmán
- Jimena Anganuzzi
- Diego Velázquez
- Carlos Belloso
- Ana Castro
















