Existem filmes ruins, existem filmes péssimos e existe Os Estranhos 3: Capítulo Final. A verdadeira pergunta que ecoa na mente de qualquer fã do gênero após os créditos subirem é: por que essa trilogia foi feita?
Os dois longas originais funcionavam perfeitamente por um motivo muito simples: a banalidade do mal. O primeiro, de 2008, escrito e dirigido por Bryan Bertino, e sua continuação de 2018 (Caçada Noturna), comandada por Johannes Roberts com roteiro de Bertino e Ben Ketai, entendiam que não havia necessidade de uma grande conspiração ou traumas de infância sendo dissecados. Quer coisa mais aterrorizante do que pessoas invadirem sua casa e te matarem pelo simples fato de você “estar em casa”? Os assassinos mal falavam. O terror era cru, tenso e direto ao ponto.
Aí vieram com a brilhante ideia de reiniciar a franquia construindo um “legado” expandido. Entregaram a árdua tarefa ao diretor Renny Harlin, que comandou o arrastado Os Estranhos: Capítulo 1 (2024) e o confuso Os Estranhos: Capítulo 2 (2025), pavimentando o caminho para este desfecho.
Em vez de focar no terror do acaso, essa nova trilogia decidiu explicar quem é Tamara, mastigar a origem dos mascarados e entregar uma obra recheada de decisões estúpidas e um clima que tentou ser sombrio, mas acabou beirando o patético.
O resultado? Basta olhar a queda vertiginosa nos números de bilheteria e as notas humilhantes nas plataformas de audiência e crítica especializada para constatar que o público rejeitou completamente essa tentativa de transformar um slasher honesto em um drama pretensioso.
[AVISO: O texto a seguir contém SPOILERS COMPLETOS sobre o enredo, as mortes e o final do filme]
Crítica do filme Os Estranhos 3: Capítulo Final
A origem que ninguém pediu (e ninguém queria)
A principal falha deste capítulo final é tentar forçar o público a sentir empatia por psicopatas irrecuperáveis. A narrativa nos joga flashbacks revelando que Gregory (o Homem da Máscara/Scarecrow) é filho do Xerife Rotter. Depois que Gregory assassinou a colega de classe, a tal da Tamara, o paizão xerife decidiu encobrir os crimes do filho e de Shelly (a Pin-Up Girl), desde que eles não matassem os moradores da cidade de Venus.
Eles ainda jogam na mistura como conheceram Jasmine (a Dollface) na adolescência, unindo forças em uma carnificina amadora. Ver esses assassinos icônicos como adolescentes com dramas pessoais destrói qualquer mística. Para piorar, a história de Dollface é porcamente contada e, contrariando toda a tendência reveladora da trilogia, nós sequer chegamos a ver o rosto dela sem a máscara. E o romancezinho entre Pin-Up e Scarecrow? Insuportável. Nenhum beijo ou demonstração de afeto muda o asco que sentimos por eles.

Um roteiro perdido no próprio sangue
A trama no presente é uma sucessão de absurdos. Maya foge, é detida pelo corrupto Xerife Rotter, rouba a viatura, bate o carro e é sequestrada de novo por Gregory e Jasmine. A dupla de vilões leva a protagonista para uma serraria, onde trituram o cadáver de Shelly (morta no filme anterior) em um picador de madeira. Como se não bastasse, Gregory marca Maya com uma tatuagem de rosto sorridente e tenta forçá-la a assumir o manto e a velha máscara da Pin-Up Girl.
Enquanto isso, a família de Maya — a irmã Debbie e o marido Howard — chega à cidade e começa a ser caçada pelo próprio Xerife, que mata o próprio assistente e o guarda-costas da família para proteger o filho.
O ápice da estupidez ocorre em um posto de gasolina. Gregory tenta “treinar” Maya para ser a nova assassina. Quando ela se recusa a matar um casal refém no motel (a cena clássica do “a Tamara está?”), o vilão faz o serviço sujo. Em um momento de distração, Maya finalmente reage e mata Jasmine/Dollface, esmagando a cabeça dela no chão. A recompensa de Maya por tentar fugir? Ser amarrada na picape de Gregory e forçada a assistir o vilão capotar o trailer de sua família, matar Howard com um machado e assassinar Debbie a sangue frio na sua frente.
Síndrome de Estocolmo e “arte” fora de hora
Apesar de ser solta com uma faca no meio do nada, Maya decide voltar ao covil para encerrar a matança. É aqui que o diretor tenta elevar um mero filme de mascarados esfaqueando pessoas a uma espécie de “terror pós-moderno” completamente deslocado.
Maya encontra Gregory desmascarado. Ao invés de um confronto brutal imediato, o roteiro cria uma tensão bizarra, quase afetuosa, onde os dois “se conectam” pelo fato de terem perdido tudo que amavam — um pelas mãos do outro. É uma tentativa de Síndrome de Estocolmo que não faz o menor sentido narrativo ou emocional.
Contudo, é preciso admitir: esteticamente, o desfecho é belíssimo. Maya finge um interesse romântico, abraça Gregory e, quando ele baixa a guarda, ela o esfaqueia. A cena dela finalizando o vilão com o próprio machado dele, ao som melancólico de Nights In White Satin, do The Moody Blues, rende um quadro muito bonito e poético.
A cena é boa? Visualmente, sim. Fazia algum sentido toda aquela aproximação amorosa antes da machadada? Absolutamente nenhum. Os Estranhos: Capítulo Final termina com Maya indo embora usando a máscara de Gregory, provando que, no esforço de explicar tudo e transformar banho de sangue em arte profunda, a franquia acabou cometendo o maior dos crimes: matar a própria essência.
Trailer do filme Os Estranhos 3: Capítulo Final
Elenco de Os Estranhos 3: Capítulo Final (2026)
- Madelaine Petsch
- Richard Brake
- Janis Ahern
- Hannah Galway
- Ema Horvath
- Krystal Ellsworth
- Gabriel Basso

















