Sabe aquela história que parece ter saído da mente de um roteirista muito criativo, mas que, na verdade, aconteceu na vida real? É exatamente esse o caso de Enzo Tortora, cuja trajetória trágica acaba de virar a série Portobello, dirigida por Marco Bellocchio para a HBO Max.
Se você assistiu à minissérie e ficou se perguntando se a Justiça italiana realmente prendeu o maior astro da TV por causa de um papagaio teimoso, mafiosos invejosos e alguns centrinhos de crochê, a resposta curta é: sim.
Abaixo, a gente mergulha nos fatos reais desse pesadelo kafkiano que chocou a Europa e mudou para sempre as leis da Itália.
Conheça a história real da série Portobello, da HBO Max
Quem foi Enzo Tortora e o que era o programa Portobello?
Na Itália do final dos anos 70 e início dos anos 80, não existia ninguém maior que Enzo Tortora na televisão. Ele era o carismático apresentador de Portobello, um programa de variedades transmitido às sextas-feiras à noite na emissora estatal RAI. A atração era um verdadeiro rito coletivo: chegava a bater a marca impressionante de 28 milhões de espectadores, o que representava quase metade de toda a população italiana da época parando em frente à TV.
O programa tinha de tudo um pouco: funcionava como um mercadinho onde pessoas comuns, do norte ao sul do país, iam vender invenções excêntricas, procurar parceiros ou tentar a sorte. O grande mascote do show era um papagaio chamado Loreto (ou Ramon), famoso justamente porque se recusava a falar, até o dia em que a atriz Paola Borboni finalmente conseguiu arrancar uma palavra da ave. O prestígio de Tortora era tamanho que ele chegou a ser nomeado Comendador da República pelo então presidente Alessandro Pertini.
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Por que Enzo Tortora foi preso? Entenda o caso real
O pesadelo começou na madrugada de 17 de junho de 1983. Enzo Tortora estava no auge de sua carreira quando a polícia bateu à porta do seu quarto de hotel, no meio da noite, e o levou algemado. A princípio, o apresentador achou que fosse algum erro grotesco, mas a acusação era pesadíssima: associação à máfia (especificamente a Nova Camorra Organizada, de Nápoles) e tráfico de cocaína.
A partir daquele momento, a vida do “rei da TV” virou um espetáculo midiático bizarro. Os repórteres e cinegrafistas de sua própria emissora filmaram sua humilhação pública, com os punhos algemados erguidos, transformando o ídolo instantaneamente em um monstro perante a opinião pública.
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O papel da Máfia, dos centrinhos de crochê e de Giovanni Pandico
Mas como um apresentador de auditório foi parar no meio de uma guerra de máfia? A resposta expõe um nível de estupidez judicial assustador.
A acusação foi inteiramente baseada em falsos testemunhos de “pentiti” (criminosos informantes) e “dissociados” da Camorra. O principal deles foi Giovanni Pandico, um criminoso com problemas psiquiátricos, que atuava como “escriba” do chefão mafioso Raffaele Cutolo dentro da prisão de Poggioreale.
A raiva de Pandico contra Tortora nasceu por um motivo quase cômico, se não fosse trágico: alguns centrinhos de crochê. O mafioso havia enviado peças de crochê feitas na prisão para serem leiloadas no programa Portobello. As peças foram extraviadas, nunca foram ao ar e nem devolvidas. Frustrado, e cultivando a crença delirante de que possuía uma “conexão telepática” com o apresentador, Pandico resolveu se vingar.
Ele inventou aos promotores que Tortora era membro do crime e que os tais “centrinhos de crochê” eram, na verdade, um código para pacotes de cocaína. Para piorar o quadro de incompetência investigativa, as autoridades acharam um nome mal escrito em uma agenda de contatos apreendida com a amante de um mafioso, que eles assumiram ser “Tortora”, mas depois descobriu-se que não tinha nada a ver com o apresentador.
Como a mídia e a Justiça italiana destruíram um ídolo?
Apesar da completa ausência de provas concretas e confiáveis, os promotores italianos, sedentos por notoriedade, engoliram a história dos informantes sem nenhuma verificação rigorosa. Tortora foi submetido a um julgamento arranjado, onde criminosos eram incentivados a mentir para conseguir redução de penas. Como resultado, em 1985, o homem que unia as famílias italianas todas as sextas-feiras foi condenado a 10 anos de prisão.
A imprensa também desempenhou um papel vergonhoso no linchamento público. Muitos jornalistas, movidos pela inveja do sucesso estrondoso de Tortora com as massas, publicaram fofocas e sensacionalismo, enterrando a presunção de inocência.
Qual foi o desfecho do caso Enzo Tortora?
Tortora era um homem de princípios inabaláveis. Mesmo destroçado e enfrentando graves problemas de saúde devido ao estresse, ele se recusou a fazer acordos com a Justiça para assumir algo que não fez.
Em um movimento político brilhante e como forma de protesto, ele se candidatou ao Parlamento Europeu pelo Partido Radical em 1984. O povo italiano surpreendeu o sistema: Tortora foi eleito deputado com mais de meio milhão de votos. Em um ato final de coragem, ele renunciou à imunidade parlamentar logo em seguida, apenas para poder enfrentar o segundo julgamento de cabeça erguida e não se esconder atrás de um cargo político.
A justiça finalmente foi feita em 1987, quando o tribunal de recursos o absolveu de todas as acusações, com fórmula plena, reconhecendo que os magistrados haviam cometido erros terríveis e ignorado as evidências de sua inocência.
A indignação popular com o sofrimento do apresentador foi o estopim para um referendo nacional naquele mesmo ano, que resultou na chamada “Lei Vassalli”, determinando que, pela primeira vez na Itália, juízes e promotores poderiam ser processados civilmente por danos causados por seus erros e negligência grave.
Infelizmente, a liberdade teve um gosto amargo. Enzo Tortora conseguiu retornar à TV em 1987 para uma breve retomada de Portobello, mas seu corpo não resistiu à provação emocional e física dos anos na cadeia: ele faleceu no dia 18 de maio de 1988, aos 59 anos, vítima de um câncer.
A minissérie da HBO Max retrata bem a história real?
A adaptação Portobello (2026), com direção magistral de Marco Bellocchio, opta por não ser apenas um “true crime” documentário, mas sim um drama com tons surreais e absurdos, quase como o teatro de máscaras de Pulcinella. A atuação de Fabrizio Gifuni como Tortora e Lino Musella como o esquizofrênico delator Pandico resgatam essa tragédia para nos lembrar o quão perigosa pode ser a aliança entre o oportunismo criminal, um judiciário com excesso de poder e uma mídia histérica.
No fim, a história de Enzo Tortora não é apenas sobre um apresentador e um papagaio teimoso. É um alerta vivo sobre a hipocrisia de uma sociedade que ama erguer ídolos de barro com a mesma intensidade com que anseia por destruí-los em praça pública.















