Sabe aquelas séries espanholas da Netflix que te pegam pelo colarinho logo nos primeiros minutos? Pois é, Salvador, que estreou em fevereiro de 2026, tenta fazer exatamente isso. Criada por Aitor Gabilondo (a mente por trás de Silêncio e Pátria) e dirigida por Daniel Calparsoro, a produção chega com a promessa de ser mais do que um simples suspense policial. Ela tenta colocar o dedo na ferida de temas bem atuais, como a ascensão do neonazismo e a cultura incel, tudo isso embalado em uma atmosfera de caos urbano.
Mas será que no meio de tanta gritaria, torcida organizada e drama familiar, a série consegue entregar o que promete? Vamos debater isso.
Sinopse
A trama gira em torno de Salvador Aguirre (interpretado pelo onipresente Luis Tosar), um ex-médico que, após ter a vida destruída pelo alcoolismo e vício em jogos, trabalha como motorista de ambulância em Madri. Ele é aquele clássico protagonista “quebrado”: perdeu o casamento, a carreira e, principalmente, o contato com a filha, Milena.
O caos se instala quando um jogo de alto risco entre o Real Madrid e o Olympique de Marseille transforma a cidade em um campo de batalha. Salvador e sua equipe (incluindo a colega Marjane) são chamados para atender feridos nos confrontos iniciados pelos “Almas Brancas”, um grupo ultra radical e neonazista. A surpresa devastadora acontece quando Salvador descobre que sua filha distante não é apenas uma espectadora, mas uma integrante ativa desse grupo de ódio.
A situação escala rapidamente: Milena é ferida e, posteriormente, assassinada no hospital, lançando Salvador em uma busca frenética — não apenas por vingança, mas para entender como sua filha foi cooptada por uma ideologia tão violenta.
Crítica da série Salvador, da Netflix
Um espelho social desconfortável
O ponto mais forte de Salvador é que ela não trata o neonazismo como algo que acontece em um vácuo ou que surge do dia para a noite. A série faz um trabalho decente ao mostrar como grupos extremistas operam como um “Cavalo de Troia”, usando o descontentamento social, o desemprego e a falência dos serviços públicos para manipular jovens.
O roteiro acerta ao ilustrar que, por trás dos “soldados rasos” que brigam nas ruas, existem interesses de gente poderosa — empresários e políticos que lucram com o caos e usam o discurso de ódio como cortina de fumaça. É interessante ver como a série aborda a manipulação da raiva: a culpa nunca é do sistema, é sempre “deles” (os imigrantes, os diferentes), uma tática clássica para desviar a atenção dos reais problemas.

Luis Tosar: o peso de um olhar
Não dá para falar dessa série sem mencionar Luis Tosar. O ator tem uma capacidade impressionante de transmitir desespero apenas com o movimento das sobrancelhas. Ele ancora a tragédia pessoal de um pai que sabe que falhou. A atuação dele é contida, sem exageros, traduzindo a dor em silêncios e punhos cerrados.
Porém, vale um aviso: Salvador não é um herói fácil de gostar. Para alguns espectadores, ele pode soar apenas como um pai ausente e “bêbado recuperado” que resolveu virar vigilante tarde demais, tentando limpar a própria consciência mais do que qualquer outra coisa. Mas é justamente aí que o elenco de apoio brilha. Claudia Salas, que interpreta Julia (uma infiltrada no grupo), rouba a cena e traz uma complexidade que às vezes falta ao protagonista, sendo considerada por muitos a verdadeira alma da série.
Ritmo frenético x roteiro esticado
A direção de Daniel Calparsoro garante que o tédio passe longe das cenas de ação. O estilo é cinético, cheio de adrenalina e closes fechados que aumentam a claustrofobia. No entanto, a estrutura de oito episódios cobra seu preço.
Há uma sensação de que a história poderia ter sido contada de forma mais enxuta, talvez como um filme ou uma minissérie menor. O ritmo oscila e, em alguns momentos, a trama parece andar em círculos antes de chegar às revelações finais. Além disso, a série pede que você acredite em certas coincidências forçadas para que o roteiro ande, o que pode testar a paciência de quem busca um realismo mais estrito.
Justiça ou vingança?
Sem entregar o ouro do final, é importante dizer que Salvador evita a catarse barata. A resolução do mistério sobre quem matou Milena — envolvendo um personagem próximo e a tal cultura incel de rejeição transformada em violência — leva a um desfecho agridoce.
A série deixa claro que prender o assassino ou desmantelar uma célula não resolve o problema estrutural. Os financiadores continuam nas sombras e a justiça é, na melhor das hipóteses, parcial. É um final corajoso por não ser feliz, mas pode deixar um gosto amargo de “incompletude” para quem esperava uma vitória total do bem contra o mal.
Conclusão
Salvador é uma série intensa, visualmente elegante e bem atuada, mas que tropeça na própria ambição e no ritmo. Ela funciona muito bem como um thriller de ação, mas brilha mesmo quando decide expor as engrenagens sujas da radicalização política.
Se você gosta de produções que misturam suspense com crítica social, no estilo de O Aviso ou até mesmo filmes como Cem Anos de Perdão (do mesmo diretor), vale o play. Só não espere sair da maratona se sentindo leve; a série é um lembrete brutal de que, às vezes, o arrependimento chega tarde demais e a verdadeira justiça é um artigo de luxo.
Onde assistir à série Salvador?
Trailer de Salvador (2026)
Elenco de Salvador, da Netflix
- Luis Tosar
- Claudia Salas
- Leonor Watling
- Fariba Sheikhan
- Patricia Vico
- César Mateo
- Alejandro Casaseca
- Richard Holmes
- Marco Marini “Rukeli”
- Lucas Ares
















