Se você assistiu ao terror argentino A Virgem da Pedreira (2025), dirigido por Laura Casabé, é bem provável que o terceiro ato do filme tenha te deixado de queixo caído. Depois de passar boa parte da história cozinhando a tensão em banho-maria sob o calor sufocante do verão de 2001, a narrativa joga a sutileza pela janela e entrega um desfecho brutal.
Mas o que exatamente culminou naquela explosão de violência? Bora destrinchar os detalhes desse final que mistura fúria adolescente, magia e crise social.
O que acontece no final de A Virgem da Pedreira?
Durante a maior parte do filme, a gente fica na dúvida: as coisas bizarras que acontecem ao redor de Natalia (Dolores Oliverio) são obras de forças sobrenaturais reais, ou é só o puro ódio reprimido dela moldando a realidade? O clímax e a conclusão da história abandonam totalmente essa ambiguidade e partem para algo muito mais literal, explícito e sangrento.
Nati finalmente executa a sua vingança contra aqueles que a magoaram, abraçando de vez os elementos sobrenaturais e a magia que aprendeu com sua avó Rita. A própria diretora Laura Casabé revelou em entrevista que a cena final é trágica e envolve animais: a violência se materializa através de três cães negros intensos e extremamente raivosos. É também apenas nessa cena final e caótica que conseguimos ver com clareza o rosto do personagem Gerardo (o namorado meio sombrio da avó), interpretado pelo ator Dady Brieva.
Por que Natalia toma essa decisão?
A motivação central de Nati é o ciúme doentio que sente de Diego, seu amigo de infância, após ele se encantar por Silvia, uma garota mais velha e cheia de histórias da cidade grande. Porém, o final vai muito além de uma simples briga por garoto.
O filme usa a crise econômica da Argentina de 2001 como um espelho para o caos interno da protagonista. Ver o próprio país desmoronar sem que ela possa fazer nada gera um sentimento de impotência brutal. Como ela mesma é aconselhada a aproveitar a juventude e ser livre, Nati percebe que sua vida nunca esteve realmente sob seu controle. A vingança, embora terrível, surge como uma forma distorcida de retomar as rédeas da própria vida e conseguir uma “justiça romântica” com as próprias mãos.
A imagem final que o filme deixa gravada é a de uma irmandade feminina feroz e ressentida. É a união de garotas dispostas a queimar o mundo inteiro antes de permitir que uma intrusa (Silvia) roube o pouco que elas ainda têm.

O simbolismo e o perigo real da “Pedreira”
Não podemos esquecer do cenário que dá nome ao filme. A “tosquera” (pedreira) não é um lago qualquer. Trata-se de buracos de extração de pedras que acabam inundados pelas águas subterrâneas, formando falsas lagoas.
Esses locais não têm nenhuma infraestrutura ou salva-vidas, e no fundo escondem perigos como arames e carros abandonados, o que frequentemente causa afogamentos trágicos de jovens que vão até lá para se refrescar. A pedreira funciona como uma metáfora perfeita para o filme: uma superfície que parece calma, mas que esconde armadilhas mortais e um abismo escuro logo abaixo.
O final do filme é bom? O que diz a crítica especializada?
O desfecho dividiu as opiniões de quem entende de cinema. A ruptura brusca no tom do filme gerou reações mistas:
- A favor do choque: Muitos críticos elogiaram a catarse do final, classificando o clímax como violento, sangrento e glorioso. Há quem defenda que o encerramento é poderoso e empoderador justamente porque Nati assume o controle e a culpa de seus atos, sem ser apenas uma vítima das circunstâncias (ao contrário da clássica personagem Carrie, a Estranha).
- Contra a literalidade: Por outro lado, algumas resenhas consideraram que a “literaridade visual gráfica” do final foi desnecessária e decepcionante. Para esses críticos, o filme estava funcionando muito melhor quando usava apenas a sugestão e a ambiguidade. A representação muito explícita dos feitiços e da violência teria quebrado o clima de terror psicológico sutil que vinha sendo construído.
De qualquer forma, a obra termina sem oferecer grandes explicações ou finais felizes. A Virgem da Pedreira se despede deixando um gosto amargo e a certeza de que a inocência foi perdida para sempre naquelas águas profundas.














