A Virgem da Pedreira crítica do filme 2025 - Flixlândia

Crítica | Crescer dói (e assusta): ‘A Virgem da Pedreira’ e a magia sombria na crise argentina

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Adaptar a literatura visceral de Mariana Enríquez para as telas não é uma tarefa nada fácil, mas a diretora argentina Laura Casabé decidiu comprar essa briga. Em “A Virgem da Pedreira” (2025), que teve sua estreia no aclamado Festival de Sundance, Casabé se une ao roteirista Benjamín Naishtat para misturar dois contos da autora (“A Virgem da Pedreira” e “O Carrinho”) em uma única narrativa.

O resultado é uma coprodução entre Argentina, México e Espanha que foge dos clichês do terror tradicional para entregar um coming-of-age (filme de amadurecimento) banhado em realismo mágico, tensão social e muito, mas muito suor. Se você curte histórias sobre os horrores de crescer e amadurecer em um mundo que parece estar desmoronando, esse filme definitivamente merece a sua atenção.

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Sinopse

A história nos joga direto no verão sufocante de 2001, nos subúrbios poeirentos de Buenos Aires, bem no meio da iminente crise econômica e social que abalaria a Argentina. É nesse cenário caótico que conhecemos Natalia, ou Nati (vivida pela impressionante estreante Dolores Oliverio), uma adolescente de 16 anos que mora com a avó, Rita (Luisa Merelas), após ter sido abandonada pela mãe.

Nati e suas fiéis amigas, Mariela e Josefina, dividem os dias de tédio e um interesse em comum: Diego (Agustín Sosa), um amigo de infância por quem Nati é secretamente (ou nem tão secretamente assim) apaixonada. O frágil ecossistema adolescente do grupo entra em colapso quando Silvia (Fernanda Echeverría) entra em cena.

Ela é mais velha, na casa dos 20 anos, já morou em Londres e exala uma confiança sedutora que rapidamente atrai a atenção de Diego. Consumida pelo ciúme e pela frustração, Nati recorre aos conhecimentos de magia e feitiçaria de sua avó para tentar virar o jogo a seu favor, despertando forças sombrias que saem de controle.

Crítica do filme A Virgem da Pedreira

O peso do contexto: o calor e a crise de 2001

Uma das coisas mais legais de “A Virgem da Pedreira” é como o ambiente dita as regras do jogo. A crise argentina de 2001 não é só um pano de fundo bonitinho para situar a época; ela é quase um personagem ativo na história. Os apagões constantes, a violência nas ruas e o sentimento coletivo de falta de esperança funcionam como um espelho perfeito para a bagunça hormonal e emocional que está acontecendo dentro da protagonista.

A direção de fotografia de Diego Tenorio é cirúrgica ao capturar essa atmosfera. Os tons amarelados, a poeira que parece flutuar na tela e os corpos constantemente suados nos fazem sentir na pele aquele calor insuportável de verão, criando uma sensação de opressão e claustrofobia. É o tipo de filme em que a quietude incomoda, porque você sabe que o clima está prestes a explodir a qualquer momento, assim como o próprio país.

A Virgem da Pedreira 2025 crítica do filme - Flixlândia
Foto: Divulgação

Fúria adolescente e as sombras de “Carrie”

Se o filme funciona tão bem, grande parte do mérito é da atuação de Dolores Oliverio. Em sua estreia no cinema, ela entrega uma Nati fascinante, que oscila entre a petulância adolescente, a vulnerabilidade e uma raiva profunda. Nati não tenta ser uma protagonista boazinha e fácil de gostar; pelo contrário, ela é cheia de arestas, possessiva e flerta com a vilania.

Não é à toa que muitos críticos têm comparado o tom da personagem com o clássico “Carrie, a Estranha”. A sexualidade à flor da pele de Nati e a sua frustração por não ser notada se transformam em uma força destrutiva. Quando Silvia, com suas histórias exóticas e seu ar descolado de “garota da cidade grande”, rouba a atenção de Diego e tenta se enturmar levando o grupo para o tal lago da pedreira do título, o ciúme de Nati se materializa de formas inexplicáveis e violentas. A dinâmica entre as meninas é brutalmente honesta e captura muito bem as rivalidades femininas dessa fase da vida.

O terror que se esconde no cotidiano

Laura Casabé constrói o horror sem apelar para sustos fáceis ou monstros escondidos no armário. É um terror muito mais íntimo, que se mistura com as angústias do coming-of-age. A magia e a bruxaria, introduzidas pela figura macabra e ao mesmo tempo acolhedora da avó Rita, operam nas bordas da realidade.

Os incidentes assustadores – sejam cortes de luz nos momentos de maior tensão sexual, cachorros ferozes ou acidentes brutais – mantêm a gente na dúvida: isso é obra de forças sobrenaturais, feitiçaria, ou é apenas a fúria reprimida de Nati moldando a realidade ao seu redor? Casabé não tem pressa em dar essas respostas, e essa ambiguidade é justamente o que torna o filme tão magnético e hipnótico, mantendo a tensão lá no alto mesmo com um ritmo mais cadenciado.

Conclusão

“A Virgem da Pedreira” é um filme que não se contenta em ser apenas mais uma história sobre adolescentes sofrendo por amor. Laura Casabé entrega uma obra ambiciosa, sufocante e estranhamente bela que une a crise social de um país ao caos interno de uma jovem mulher.

Mesmo que o roteiro dê algumas patinadas ao equilibrar tantos temas, e que o ritmo possa testar a paciência de quem espera um terror mais convencional, a força de suas imagens e o impacto de sua protagonista fazem a experiência valer muito a pena. É um filme que fica grudado na pele, exatamente como o suor daquele verão inesquecível e terrível de 2001.

Onde assistir ao filme A Virgem da Pedreira?

Trailer de A Virgem da Pedreira (2025)

YouTube player

Elenco do filme A Virgem da Pedreira

  • Dolores Oliverio
  • Isabel Bracamonte
  • Candela Flores
  • Fernanda Echevarría
  • Agustin Sosa
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

  • Melhor crítica que li sobre esse filme. Observei também que a direção de Diego Tenorio, optando por enquadramentos minimalistas e, por vezes, colocando Nati e as amigas como um clã, ou expremendo elas no canto da tela, só torna a narrativa ainda mais sufocante e esquisita. Vi sem grandes expectativas e terminei adorando!

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