Quando a gente pensa em “filme de tribunal”, logo vem à cabeça aquelas produções americanas polidas, cheias de reviravoltas de última hora e discursos heroicos. Belén: Uma História de Injustiça, a aposta da Argentina para a corrida do Oscar, bebe dessa fonte, mas troca o brilho de Hollywood pela poeira e o suor de Tucumán.
É o segundo longa dirigido por Dolores Fonzi (que estreou com Blondi), e aqui ela não está para brincadeira: o filme é uma ferramenta política declarada, um grito que busca traduzir o juridiquês de um caso real para uma linguagem que todo mundo entenda e sinta na pele.
Sinopse
A trama nos joga em 2014, numa província conservadora da Argentina. Conhecemos Julieta (que ganha o pseudônimo “Belén” para proteção), uma jovem trabalhadora de origem humilde. Ela chega ao hospital com dores abdominais terríveis, sem saber que estava grávida, e sofre um aborto espontâneo no banheiro.
O que deveria ser um atendimento médico de emergência vira um pesadelo kafkiano: médicos e enfermeiras, em vez de acolher, denunciam. A polícia invade a cena, acusa a garota de homicídio agravado pelo vínculo e a prende ali mesmo, ainda sangrando na maca.
Condenada a oito anos de prisão e esquecida por uma defesa pública incompetente, o destino de Belén muda quando a advogada Soledad Deza (interpretada pela própria Dolores Fonzi) assume o caso pro bono. O que se segue é a luta para reverter uma injustiça que se tornou o estopim para uma mobilização social sem precedentes no país.
➡️ Quer saber mais sobre filmes, séries e streamings? Então acompanhe o trabalho do Flixlândia nas redes sociais pelo INSTAGRAM, X, TIKTOK, YOUTUBE, WHATSAPP, e GOOGLE NOTÍCIAS, e não perca nenhuma informação sobre o melhor do mundo do audiovisual.
Resenha crítica do filme Belén: Uma História de Injustiça
Logo de cara, Belén: Uma História de Injustiça deixa claro que não vai ser um passeio no parque. O filme abre com uma sequência que flerta com o terror puro: um plano-sequência nervoso, claustrofóbico, acompanhando a protagonista no hospital. A gente sente a asfixia, a perda do controle sobre o próprio corpo e a virada brutal de paciente para criminosa.
É um começo contundente que dita a regra do jogo: aqui não tem “observação distante”, a câmera toma partido, e esse partido é o da vítima.

O cinema como ferramenta de denúncia
O filme funciona como um procedural clássico (aquela estrutura de investigação passo a passo), o que o torna super acessível e até didático — talvez até demais em alguns momentos. A narrativa é linear, desenhando tintim por tintim as negligências, os preconceitos de classe e o abuso de poder de um sistema judiciário que parece ter prazer em punir mulheres pobres.
Essa clareza é a maior virtude e, ironicamente, o maior “pecado” do filme. Às vezes, Belén: Uma História de Injustiça soa meio panfletário. Os personagens podem parecer arquétipos: o juiz vilão, a advogada incansável, o sistema corrupto. Mas, sinceramente? Dá para sentir que essa foi uma escolha consciente da diretora. A intenção aqui não é criar ambiguidades morais complexas, mas sim expor uma ferida aberta e mobilizar a audiência. É cinema de urgência, feito para incomodar e educar.
Atuações que sustentam o peso da história
Dolores Fonzi, acumulando as funções de diretora e atriz, segura bem a onda como a advogada Soledad. Ela foge daquele heroísmo grandiloquente; a atuação dela é calcada na exaustão, na teimosia e naquelas tensões familiares de quem leva o trabalho para casa (inclusive com ameaças e tijoladas na janela).
Mas o coração do filme bate mesmo no peito de Camila Plaate, que vive a Belén. Enquanto o roteiro foca muito na batalha legal e na visão externa (o circo midiático, as marchas), é a Camila que humaniza o conflito. Com poucas falas, ela transmite um desconcierto e um medo palpáveis.
A presença dela é vulnerável, mas carrega uma dignidade silenciosa que impede que a personagem seja apenas um número estatístico. É uma pena que o filme não mergulhe mais no ponto de vista dela, preferindo focar na advogada, mas quando a câmera foca em Plaate, a gente entende o custo humano daquela injustiça.
A estética do confinamento
Visualmente, o filme é esperto. Os enquadramentos são fechados, evitando mostrar o teto, criando uma sensação constante de que as paredes (seja do hospital, da prisão ou do tribunal) estão se fechando sobre as personagens. A prisão é cinza, enorme, sufocante. Essa escolha estética reforça a ideia de que não há escapatória fácil daquela máquina de moer gente que é o Estado quando decide perseguir uma moralidade retrógrada.
Apesar de seguir uma fórmula que lembra dramas jurídicos americanos ou filmes da semana (a estrutura é previsível para quem já viu coisas do gênero), a execução técnica é sólida. A fotografia não tenta ser bonita, tenta ser eficaz. E funciona.
Conclusão
Belén: Uma História de Injustiça não reinventa a roda do cinema judicial e, se formos rigorosos, tem seus tropeços ao cair no melodrama ou na simplificação excessiva para passar sua mensagem. Mas julgar o filme apenas por isso seria ignorar sua potência. É uma obra sólida, honesta e necessária, especialmente no contexto latino-americano.
Ao conectar a tragédia individual de uma jovem com a “onda verde” que levou à legalização do aborto na Argentina, o filme cumpre seu papel de registro histórico e ferramenta política. Você sai da sessão não apenas entendendo o caso jurídico, mas sentindo o peso daquela luta coletiva. Pode não ser o filme mais original do mundo em termos de linguagem, mas tem a coragem de falar alto quando o silêncio já não é mais uma opção.
Onde assistir ao filme Belén: Uma História de Injustiça?
Trailer de Belén: Uma História de Injustiça (2025)
Elenco do filme Belén: Uma História de Injustiça
- Dolores Fonzi
- Camila Pláate
- Laura Paredes
- Julieta Cardinali
- Sergio Prina
- Luis Machín
- César Troncoso
- Lili Juárez
- Ruth Pláate
















