Assistir a Cidade de Sombras, que chegou à Netflix nesta sexta-feira, 12 de dezembro, provoca uma sensação estranha e difícil de explicar. Por um lado, é empolgante mergulhar em um thriller policial bem amarrado, com aquela atmosfera noir que a gente adora. Por outro, bate uma tristeza inevitável: saber que estamos vendo o trabalho póstumo de Verónica Echegui. A atriz, que faleceu de forma surpreendente em agosto passado, aos 42 anos, vítima de câncer, entrega aqui sua última performance completa.
Mas, deixando o luto de lado por um momento, será que a série se sustenta além dessa carga emocional? A resposta curta é sim. Dirigida por Jorge Torregrossa (o mesmo de Corpo em Chamas), a produção consegue transformar os cartões-postais de Barcelona em algo ameaçador e belo ao mesmo tempo.
Sinopse
A trama nos joga direto no coração da Barcelona modernista, mas esqueça o clima de férias. A história começa com um crime macabro e “espetacular”: um corpo é encontrado queimado vivo, pendurado na fachada de ninguém menos que La Pedrera (Casa Milà), um dos edifícios mais icônicos de Gaudí. O assassinato acontece num momento tenso, pouco antes da consagração da Sagrada Família pelo Papa e às vésperas de eleições catalãs em 2010.
Para resolver esse abacaxi, a polícia traz de volta o inspetor Milo Malart (Isak Férriz), que estava suspenso por insubordinação e carrega uma bagagem emocional pesada. Ele é obrigado a fazer dupla com Rebeca Garrido (Verónica Echegui), uma subinspetora especialista em análise de conduta criminal.
De início, Milo vê Rebeca mais como uma rival ou uma figura controladora do que uma aliada, já que são opostos: ele é pura emoção e instinto; ela, cerebral e técnica. Juntos, eles precisam caçar um serial killer que parece ter uma fixação por empresários poderosos e pontos turísticos, enquanto lidam com seus próprios traumas.
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Resenha crítica da série Cidade de Sombras
Muito além de um cenário bonito
Uma das coisas mais legais da série é como ela trata a cidade. Barcelona não é apenas um pano de fundo; ela é praticamente um personagem. A produção, filmada em mais de 70 locações reais, usa a arquitetura de Gaudí de forma narrativa e simbólica (cada episódio leva o nome de uma obra do arquiteto).
Mas o roteiro de Carlos López e Clara Esparrach vai além da estética. Existe uma crítica social forte sobre a gentrificação e como a cidade foi se transformando, especialmente após as Olimpíadas de 92, para satisfazer o turismo em massa, muitas vezes esquecendo seus moradores.
O uso de imagens de arquivo misturadas à trama reforça essa sensação de “documentário” e denúncia sobre o progresso e suas contrapartidas. É visualmente deslumbrante, com uma fotografia que abusa dos chiaroscuros, mas com um subtexto amargo sobre a identidade da cidade.

O peso do elenco e a química da dupla
Não tem como falar da série sem exaltar a dupla principal. Isak Férriz está muito bem como o policial atormentado, mas é Verónica Echegui quem rouba a cena, o que torna tudo mais doloroso. A personagem Rebeca Garrido foi expandida em relação ao livro original (O Verdugo de Gaudí, de Aro Sáinz de la Maza) justamente para dar à atriz um papel com altura dramática. E ela entrega.
A dinâmica “cão e gato” entre eles funciona. Começam se estranhando — o clássico clichê policial —, mas a evolução para um vínculo baseado na solidão e traumas compartilhados é convincente. O elenco de apoio também é de luxo, com nomes como Ana Wagener e Manolo Solo garantindo que até os papéis secundários tenham profundidade.
Ritmo e realismo (com algumas ressalvas)
Se você espera ação frenética o tempo todo, talvez Cidade de Sombras pareça um pouco lenta. É uma série que cozinha o mistério em fogo brando, focando muito na psicologia dos personagens e no drama processual. Apesar de cair em alguns tropos batidos do gênero (como o policial com passado traumático ou a desconfiança de um traidor na equipe), a execução é elegante o suficiente para te manter preso.
Um ponto positivo para a imersão é a mistura de idiomas. A decisão de usar tanto o castelhano quanto o catalão traz um realismo necessário — afinal, é assim que se fala em Barcelona. No entanto, a série não escapa de uma certa “americanização” em alguns momentos do roteiro, o que pode incomodar quem busca algo mais puramente europeu ou autoral.
Conclusão
Cidade de Sombras é um thriller sólido, bem produzido e visualmente rico, que deve agradar aos fãs do gênero noir e de mistérios policiais. Embora a trama em si use elementos conhecidos, a ambientação nas obras de Gaudí e a profundidade psicológica dos protagonistas elevam o nível da produção.
Para quem ficar órfão da história, vale lembrar que a série adapta apenas o primeiro livro de uma tetralogia. Se a Netflix renovar, há material de sobra (os livros O Ângulo Morto, Dócil e Malart). Porém, o arco da personagem de Echegui se encerra aqui, de forma definitiva e elegante.
No fim das contas, a série serve como uma despedida digna para uma atriz brilhante que partiu cedo demais. A dedicatória ao final do primeiro episódio é um lembrete de que, embora a luz de Verónica tenha se extinguido, seu talento ficou registrado para sempre.
Onde assistir à série Cidade de Sombras?
Trailer de Cidade de Sombras (2025)
Elenco de Cidade de Sombras, da Netflix
- Isak Férriz
- Verónica Echegui
- Ana Wagener
- María Adánez
- Manolo Solo
- Marc Clotet
- Aina Clotet
- Vicky Peña

















