Zafari resenha crítica do filme 2026 Flixlândia

Muito além do sobrenatural: o terror claustrofóbico de ‘Zafari’

Foto: Vitrine Filmes / Divulgação
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Zafari é um filme de 2024 dirigido pela cineasta venezuelana Mariana Rondón fruto de uma ambiciosa coprodução internacional que reúne talentos do Brasil, Venezuela, México e outros países latino-americanos. Marcado por uma atmosfera de suspense e horror social, o longa circulou com destaque por festivais de prestígio, como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, antes de sua estreia no circuito comercial brasileiro.

A produção utiliza uma estética distópica e claustrofóbica para tecer críticas ácidas à desigualdade e às prioridades políticas contemporâneas, reafirmando o papel do cinema latino-americano como uma ferramenta potente de provocação e reflexão social.

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Sinopse

Em um condomínio de classe média que se desintegra em meio a uma crise extrema, uma família luta pela sobrevivência enquanto o mundo ao redor mergulha na escassez de recursos básicos e na tensão social.

O equilíbrio precário desse ambiente é abalado quando um hipopótamo chamado Zafari chega ao zoológico vizinho, tornando-se o centro de uma ironia cruel: enquanto o animal é alimentado com fartura pela propaganda estatal, os moradores do prédio começam a perder sua humanidade, sucumbindo a instintos selvagens e comportamentos predatórios.

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Resenha crítica do filme Zafari

Inspiração real e universalidade

Embora não esteja explicitado durante a projeção, o filme baseia-se em eventos reais ocorridos em 2017 no zoológico de Caracas, onde animais morreram de fome ou foram roubados. Esse fato é utilizado para criar uma fábula distópica que não parece estar tão distante da realidade.

Não sabemos exatamente em qual cidade a história se passa, o que confere à narrativa um caráter universal, podendo ambientar-se em qualquer grande metrópole sob colapso. A possibilidade latente de retratar qualquer sociedade onde as estruturas básicas de suporte falham é assustadora, pois a obra é construída de modo extremamente verossímil.

Zafari 2026 resenha crítica do filme Flixlândia
Foto: Vitrine Filmes / Divulgação

O microcosmo do condomínio

A trama transcorre, em sua maior parte, dentro de um condomínio decadente que funciona como um microcosmo da sociedade. Os privilégios de classe média dos protagonistas estão desaparecendo, e eles agora se veem forçados a buscar mantimentos em apartamentos abandonados.

Nesse cenário, ocorre uma inversão de poder: a família vizinha, de classe baixa, é encarregada de cuidar do hipopótamo. Por possuírem provisões, eles passam a utilizá-las como moeda de troca, tornando-se rapidamente o centro das atenções como o único grupo que detém recursos em abundância na região.

A desumanização pelo olhar da diretora

Durante os ensaios, a diretora frequentemente confrontava o elenco e a equipe com uma provocação ética: “Quantos dias você consegue ficar sem comer antes de se transformar em um animal selvagem?”. Essa indagação tornou-se o lema invisível que guia a transformação psicológica dos personagens. Rondón explora o limite exato onde a fome silencia a ética.

Visualmente, demonstra-se como a civilidade resiste à privação: nos corredores escuros e labirínticos do prédio, os diálogos dão lugar a rosnados. A selva não está mais do lado de fora, ela se manifesta nos olhos dos moradores, que passam a enxergar o outro não como um semelhante, mas como uma ameaça ou uma presa em potencial.

O simbolismo do hipopótamo

O hipopótamo Zafari surge como o símbolo máximo da ironia. Ele é, paradoxalmente, o habitante mais bem cuidado daquela zona de conflito, servindo como uma ferramenta de propaganda que ignora o clamor das ruas.

Esse contraste gera um sentimento ambivalente nos protagonistas: um misto de fascínio hipnótico pela presença exótica e um ressentimento profundo por aquele ser receber a dignidade que lhes foi subtraída. O animal torna-se o receptáculo de toda a fúria e frustração de uma população que se sente invisível perante o poder do Estado.

O terror do cotidiano

É possível afirmar que esse drama distópico flerta veementemente com o gênero de terror. Não se trata de elementos sobrenaturais ou de um assassino em série, mas de como a escassez do essencial pode ser mais aterrorizante do que qualquer outra ameaça.

A estética claustrofóbica é reforçada pela câmera, que permanece quase sempre dentro do edifício, mostrando o exterior como algo inalcançável, visto apenas por pequenas frestas. Não há sustos fáceis ou mortes chocantes. Há apenas o desconforto de testemunhar a barbárie emergindo através de um processo silencioso.

Conclusão

Zafari não é um filme de fácil absorção, especialmente antes que o espectador compreenda sua proposta central. À medida que o contexto se revela, o filme ganha corpo e oferece um tema robusto para o debate sobre drama político e horror social.

É uma obra que não oferece conforto, mas sim um espelho de nossas próprias fragilidades sociais. Ao término da projeção, resta a reflexão: sucumbiríamos também à selvageria se fôssemos colocados sob a mesma pressão?

Onde assistir ao filme Zafari?

O filme estreia nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.

Trailer de Zafari (2026)

YouTube player

Elenco do filme Zafari

  • Daniela Ramirez
  • Francisco Denis
  • Samantha Castillo
  • Varek La Rosa
  • Claret Quea
  • Juan Carlos Colombo
  • Alí Rondón
Escrito por
Bruno de Oliveira

Sou um apaixonado por filmes, séries e cultura pop em geral. Entre um blockbuster e um filme introspectivo e intimista encontro meu lugar no mundo e me sinto a vontade para viajar seja lá para qual mundo for.

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