Criadas é o longa-metragem de estreia na ficção da diretora e roteirista Carol Rodrigues, conhecida por seu trabalho em séries de destaque como 3% e Pico da Neblina. A obra combina o drama social com elementos de terror psicológico e realismo fantástico para analisar as heranças do racismo estrutural e do colonialismo no Brasil.
Antes mesmo de sua produção, o projeto recebeu reconhecimento por meio do Prêmio Cabíria de Roteiro e de sua seleção no laboratório BrLab, estabelecendo uma trajetória que mais tarde se confirmou em exibições na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, onde o projeto conquistou o prêmio de Melhor Atriz de forma conjunta às duas protagonistas do longa, Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, na mostra Novos Rumos.
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Sinopse
Quando Sandra (Mawusi Tulani) retorna à casa de sua prima Mariana (Ana Flávia Cavalcanti) em busca de uma foto de sua falecida mãe, que trabalhou ali como empregada doméstica residente, o reencontro reabre antigas feridas e as força a conviver e remexer no passado.
Diante de memórias há muito enterradas, silêncios históricos e desigualdades veladas, a própria casa começa a manifestar uma força sobrenatural, transformando o espaço físico em quase um organismo vivo onde presenças fantasmagóricas e lembranças familiares dolorosas emergem para espreitá-las e cobrar contas do passado.
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Crítica do filme brasileiro Criadas
O sobrenatural metafórico e social
O aspecto sobrenatural da narrativa se distancia dos clichês convencionais do cinema de horror, abdicando de sustos e recursos fáceis para operar estritamente como um instrumento de análise social. Essa manifestação fantástica atua no tensionamento do ambiente e na exposição de disparidades estruturais veladas, assumindo contornos progressivamente abstratos ao longo da projeção.
Ao migrar para uma dimensão onírica e subjetiva, desprovida de explicações didáticas para as aparições e os chamados fantasmas de carne e osso, a obra constrói um ensaio metafórico a respeito de traumas históricos que permanecem latentes e não resolvidos.

O colorismo e as heranças estruturais
O roteiro utiliza as nuances nos tons de pele das protagonistas para examinar as complexidades do colorismo e da passabilidade na sociedade brasileira. Embora Sandra e Mariana pertençam à mesma família, a herança simbólica e os privilégios associados a cada uma naquela casa se revelam profundamente distintos, estabelecendo um contraste psicológico marcante.
De um lado, Sandra manifesta um forte ressentimento decorrente do apagamento histórico de sua mãe no ambiente doméstico, chegando a desenvolver bloqueios de memória; de outro, Mariana, atual proprietária do imóvel, demonstra um desejo sincero de acolhimento que, no entanto, esbarra inevitavelmente nas vantagens estruturais herdadas de seus pais.
A dinâmica e o contraste das atuações
A convivência entre as protagonistas é ditada por uma linha constante de tensão silenciosa, na qual o desconforto se manifesta sem a necessidade de explosões óbvias, alimentado por lembranças que se misturam a feridas de classe e raça. Essa dinâmica ganha força no contraste preciso entre as interpretações das atrizes, elemento que fundamentou a premiação conjunta de atuação recebida no Festival do Rio.
Enquanto Mawusi Tulani adota uma postura contida, melancólica e minimalista, Ana Flavia Cavalcanti imprime uma energia mais intensa e por vezes incômoda, gerando um equilíbrio de forças que sustenta o desenvolvimento dramático da obra.
Cenografia, fotografia e desenho de som
A construção da atmosfera se apoia significativamente na colaboração entre a direção de arte e a fotografia, que utilizam elementos visuais para transformar a residência em um reflexo das dinâmicas sociais retratadas. A presença de quadros e retratos de servidão que parecem observar os personagens serve para materializar as distorções presentes no cotidiano familiar e na história do imóvel.
Complementando essa ambientação, o trabalho de desenho de som assume o papel de conduzir o elemento sobrenatural, conferindo peso às paredes, frestas e silêncios da arquitetura, que passa a funcionar como uma extensão física de opressões e heranças coloniais persistentes.
Criadas é bom?
Criadas apresenta uma proposta de relevante potência narrativa e firme posicionamento político, qualidades que já se faziam notar desde o desenvolvimento de seu roteiro original. Contudo, a produção encontra um ponto crítico em seu terceiro ato, no qual a ausência de um confronto direto entre as protagonistas e a opção por uma resolução difusa reduzem o impacto do desfecho.
Essa inclinação em direção a uma abordagem puramente metafórica atenua a força da conclusão e resulta em uma sensação de incompletude, estabelecendo um contraste com o rigor técnico e temático que qualifica a maior parte da obra.
Onde assistir ao filme Criadas?
Criadas estreia nos cinemas em 11 de junho.
Trailer de Criadas (2026)
Elenco do filme brasileiro Criadas
- Mawusi Tulani
- Ana Flavia Cavalcanti
- Sarito Rodrigues
- Ivy Souza
- Rudmira Fula
- Vitória Marques Rodrigues
- Alice de Jesus Feitosa
- Alli Willow
- Tom Nunes
- Jerry Gilli















