“Jane Austen Arruinou a Minha Vida” (lançado em 2025), o primeiro longa-metragem dirigido e escrito pela francesa Laura Piani, é uma comédia dramática que tenta trazer um frescor europeu para a clássica estrutura das histórias de Jane Austen.
Misturando a estética das comédias românticas dos anos 90 com os dilemas de uma mulher do século XXI, o filme navega por águas muito conhecidas, entregando uma experiência leve e simpática, mas que, às vezes, tropeça nas próprias ambições e não consegue aprofundar tudo o que se propõe a discutir.
Sinopse
A trama acompanha Agathe (Camille Rutherford), uma mulher que trabalha na icônica livraria parisiense Shakespeare & Co., foge de aplicativos de relacionamento moderno e sonha em viver um romance épico, sentindo que nasceu no século errado. Além das inseguranças no amor, ela esconde a ambição de publicar seu primeiro livro.
A história ganha fôlego quando seu colega de trabalho e melhor amigo, Félix (Pablo Pauly), inscreve seus textos secretamente para uma residência de escritores focada em Jane Austen, na Inglaterra. Lá, Agathe se vê no meio de um triângulo amoroso ao conhecer o arrogante Oliver (Charlie Anson), um descendente distante de Austen que trabalha como professor de literatura e, ironicamente, acha a obra de sua antepassada superestimada.
Crítica do filme Jane Austen Arruinou a Minha Vida
Carisma do elenco salva a pátria
A grande força do filme definitivamente mora em sua protagonista. Camille Rutherford entrega uma Agathe apaixonante, melancólica e divertidamente desajeitada. A forma como ela retrata a síndrome do impostor, declarando-se “uma impostora genuína”, gera uma identificação real e imediata com o público.
Quando ela divide a tela com Charlie Anson — que traz um charme natural e uma vibe meio “Hugh Grant” para seu personagem de Sr. Darcy rabugento —, as faíscas voam e a química do casal segura muito da atenção da audiência. Os coadjuvantes também cumprem muito bem o seu papel, com Pablo Pauly e Alan Fairbairn adicionando bastante humor e doçura às interações.

O peso das referências
A diretora tentou rechear a obra de referências visuais e temáticas a grandes clássicos, como Orgulho e Preconceito (especialmente em uma bonita cena de dança), e a sucessos britânicos cultuados, como O Diário de Bridget Jones e Quatro Casamentos e um Funeral. Embora isso dê um tom charmoso e aconchegante para quem já é fã do gênero, o excesso dessas piscadelas pro cinema dos anos 90 acaba engessando um pouco o filme no segundo ato.
Promessas não cumpridas e humor duvidoso
Apesar das boas atuações, o roteiro de Piani deixa bastante a desejar no desenvolvimento de seus conflitos. O filme introduz várias subtramas — como as crises de outros escritores da residência, um quase-romance com Félix e a saúde frágil do pai de Oliver — e simplesmente esquece delas para focar de forma meio obsessiva no romance principal.
Além disso, uma das escolhas mais questionáveis é a maneira como o filme lida com o trauma de Agathe. A protagonista perdeu os pais em um acidente fatal e desenvolveu um pavor enorme de entrar em veículos em movimento, mas o roteiro tenta transformar essa ansiedade profunda em piadas repetitivas da personagem vomitando ou fumando sem parar, esvaziando a compaixão e o peso que a situação exigiria do espectador.
Conclusão
No fim das contas, “Jane Austen Arruinou a Minha Vida” é uma comédia romântica inofensiva que, apesar de não ir mudar a sua visão de mundo sobre o amor, mata muito bem a vontade de quem procura um filme doce para relaxar.
E mesmo com seus furos narrativos, a diretora ganha pontos por não dar a Agathe um desfecho previsível e por apresentar um final poético, que conta inclusive com uma participação especial do lendário documentarista Frederick Wiseman. É uma obra imperfeita, sim, mas que tem um coração batendo forte o suficiente para justificar a sua existência e valer o play.
Trailer do filme Jane Austen Arruinou a Minha Vida
Elenco de Jane Austen Arruinou a Minha Vida (2025)
- Camille Rutherford
- Pablo Pauly
- Charlie Anson
- Annabelle Lengronne
















