Sabe aquele tipo de série que te faz pausar e pensar: “meu Deus, o que eu faria no lugar dela?”. Pois é exatamente esse o soco no estômago que a minissérie espanhola Naquela Noite (Esa Noche, no original), recém-chegada à Netflix, entrega.
Fugindo daquele clichê batido de suspenses onde o foco é apenas descobrir “quem matou”, a produção baseada no livro de Gillian McAllister decide focar no “por que elas esconderam o corpo?” e nas consequências emocionais devastadoras dessa escolha. Se você acha que é só mais um thriller de férias que deram errado, prepare-se para ser enganado e engolido pelos traumas da família Arbizu.
Sinopse
A história começa com um reencontro na paradisíaca República Dominicana. Cris (Paula Usero) mora na ilha gerenciando um abrigo de animais de rua e recebe a visita de suas irmãs, a controladora Paula (Claudia Salas) e a caçula Elena (Clara Galle), que viaja junto com sua bebê de seis meses, Ane. O clima de férias vai pro espaço quando Elena, no meio da noite, liga em pânico: ela atropelou e matou um homem em uma estrada de terra.
A tragédia ganha contornos de desespero quando descobrimos que o homem era policial e, pior, o pai biológico da bebê, que estava extorquindo Elena para tirar a guarda da criança. Com pavor de ver a irmã mais nova apodrecer numa cadeia estrangeira e deixar a bebê órfã, as irmãs tomam a pior – e mais humana – decisão possível: enterrar o corpo e fingir que nada aconteceu. A partir daí, o que era para ser um segredo vira uma avalanche de paranoia que destrói a vida de todos os envolvidos.
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Crítica da série Naquela Noite
Um formato que brinca com a nossa mente
O maior acerto de Naquela Noite é a sua estrutura narrativa. Em vez de uma linha do tempo reta, a série adota o “efeito Rashomon”: cada um dos seis episódios é contado a partir do ponto de vista de um personagem diferente. No começo, parece só um recurso visual interessante, mas logo você saca que o roteiro está te manipulando.
A atitude de esconder o corpo, que parecia um sacrifício heroico sob a ótica da impulsiva Cris no primeiro episódio, vai ganhando ares de egoísmo e controle tóxico quando vemos a versão da Paula e da Elena. A verdade vai mudando de forma a cada detalhe adicionado, escancarando que todos ali são narradores não-confiáveis, omitindo partes da história para não saírem como vilões.

Muito além do suspense: um drama familiar pesado
Se você está esperando uma série policial focada em detetives juntando pistas em um quadro de cortiça, pode esquecer. O suspense aqui é psicológico e a investigação é sobre a família. A morte na estrada é apenas o gatilho para desenterrar traumas fortíssimos.
Aos poucos, o roteiro nos joga no passado das irmãs, revelando que a mãe delas tinha problemas psiquiátricos severos e tentou afogar Elena e o irmão caçula na banheira, suicidando-se logo em seguida. O pior é que o pai, Javier (Pedro Casablanc), um homem manipulador, culpou as filhas mais velhas pela tragédia. É justamente esse senso deturpado de “precisamos manter a família unida a qualquer custo” que serve de motor para as escolhas terríveis que elas tomam na ilha caribenha.
Atuações que seguram a barra
A química e a entrega do trio principal são o coração da série. Clara Galle transmite com perfeição a energia nervosa e o colapso iminente de uma mãe disposta a matar e morrer para não perder a filha. Paula Usero faz uma Cris deliciosamente ingênua, mas que perde o brilho nos olhos à medida que a culpa a devora.
Mas quem realmente coloca a série no bolso é Claudia Salas. Sua versão de Paula é fria, sarcástica e obcecada por controle. Ela usa a desculpa de “proteger a família” para ditar as regras, o que acaba implodindo sua própria vida pessoal e o casamento com Luisa (Nüll García). É uma personagem complexa, difícil de engolir, mas fascinante de assistir.
O peso das escolhas no salto temporal
O episódio final guarda a cartada mais corajosa da produção: um salto de 23 anos no futuro. Agora acompanhamos Ane, já adulta, lidando com os destroços deixados pelo crime de sua mãe e tias. Elena está presa e a filha precisa decidir se vai ou não testemunhar a favor da mãe em uma audiência de liberdade condicional.
Esse desfecho amarra a trama de forma amarga e realista. A série escancara que a tal “lealdade” das irmãs não era um ato puramente bondoso, mas uma dinâmica venenosa que acabou respingando na geração seguinte. O monólogo de Ane no tribunal é de arrepiar e fecha a história quebrando de vez o ciclo de trauma.
Conclusão
Com episódios curtos e um ritmo que te prende pelo pescoço, Naquela Noite se consolida como uma das melhores surpresas do suspense espanhol atual. Ao usar um crime de ocasião apenas como desculpa para dissecar as fraturas de uma família, a série entrega um drama psicológico denso e instigante.
Naquela Noite não perde tempo te dando lições de moral mastigadas; em vez disso, te deixa no sofá com a incômoda e sombria pergunta pairando no ar: até que ponto o amor pela família justifica encobrir um monstro?
Elenco da série Naquela Noite, da Netflix
- Clara Galle
- Paula Usero
- Claudia Salas
- Pedro Casablanc
- Nüll García
- Raidher Diaz

















