A série espanhola Naquela Noite (Esa Noche, no original), baseada no best-seller da britânica Gillian McAllister, chegou à Netflix bagunçando a cabeça de muita gente. Se você maratonou os seis episódios esperando apenas mais um thriller policial genérico, provavelmente foi pego de surpresa. Em vez de focar no clássico “quem matou?”, a produção criada por Jason George prefere te sufocar com uma pergunta muito mais pesada: até onde você iria para encobrir um crime e proteger sua família?
A série brinca com a nossa percepção adotando o “efeito Rashomon”, onde cada episódio conta a mesma história através do ponto de vista de um personagem diferente. Mas é no sexto e último episódio, com um salto temporal de 23 anos focado na jovem Ane, que todas as máscaras caem.
Se você terminou a série com a cabeça fervendo e algumas dúvidas no ar, vamos destrinchar tudo o que rolou no desfecho da família Arbizu.
Final explicado da série Naquela Noite, da Netflix
O que realmente aconteceu naquela noite: Elena matou Wil?
Logo no começo, somos levados a acreditar que Elena (Clara Galle) se envolveu em um trágico acidente de trânsito. Após sair de uma festa na República Dominicana, onde as irmãs visitavam Cris (Paula Usero), Elena liga em pânico dizendo que atropelou um homem que tentou assaltá-la. As irmãs chegam, descobrem que o morto é um policial local e decidem esconder o corpo para evitar que Elena seja presa e perca a guarda de sua bebê, Ane.
Mas o final da série joga a real na nossa cara: não foi um acidente.
A vítima era Wil (Jan Luis Castellanos), um policial local com quem Elena teve um caso no ano anterior, sendo ele o verdadeiro pai biológico de Ane. Wil estava extorquindo Elena, exigindo 100 mil dólares ou a guarda compartilhada da criança. Acuada e apavorada com a ideia de perder a filha, Elena tomou uma decisão brutal. Ela não apenas atropelou Wil em um momento de pânico; ela engatou a marcha e passou com o carro por cima do corpo dele várias vezes para ter certeza de que ele estava morto. O que parecia um acidente de percurso era, na verdade, um homicídio premeditado para proteger a filha.
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Qual é o grande trauma do passado da família Arbizu?
Para entender por que as irmãs Arbizu, especialmente Paula (Claudia Salas), são tão disfuncionais e obcecadas em se proteger a qualquer custo, a série nos leva a um evento traumático de 2003.
A mãe delas, Maria, sofria de problemas psiquiátricos severos. Em um surto, ela tentou afogar Elena (então um bebê) e o irmão caçula, Roberto, na banheira. Em seguida, a mãe pulou da sacada do apartamento com as duas crianças nos braços. Maria e Roberto morreram na queda, mas Elena, por um milagre, sobreviveu.
Como se a tragédia não fosse ruim o suficiente, o pai delas, Javier (Pedro Casablanc), um homem controlador e religioso, culpou as filhas mais velhas (Paula e Cris) por não terem impedido a mãe. Isso criou em Paula uma culpa paralisante e um senso patológico de que ela precisava salvar a família o tempo todo, justificando suas atitudes extremas e manipuladoras no presente.

O que acontece com Paula, Luisa e Cris?
O pacto de silêncio destruiu a vida de todas elas. A obsessão de Paula em controlar a situação a fez colocar a família tóxica acima de sua própria felicidade. Durante uma tentativa desesperada de fuga ilegal para a França (orquestrada pelo pai), Paula, que estava grávida, sofre uma queda e acaba perdendo o bebê. Esse é o limite para sua esposa, Luisa (Nüll García), que percebe que Paula sempre sacrificará o próprio casamento pelas irmãs. Luisa vai embora, deixando Paula sozinha com o peso de sua lealdade cega.
A decisão de Cris e a prisão de Elena
Cris, a irmã mais idealista que havia ficado na ilha para cuidar de um abrigo de cães, é a primeira a quebrar sob a pressão. Acreditando que a mentira estava destruindo a todos, é a própria Cris quem decide entregar Elena às autoridades. Elena acaba sendo extraditada para a República Dominicana, julgada e presa pelo assassinato de Wil.
Após a prisão de Elena, Cris assume a guarda da pequena Ane e a cria em Barcelona, longe dos escândalos e traumas do Caribe.
Final explicado: por que Ane ajudou Elena no tribunal?
O sexto episódio avança 23 anos e muda totalmente a perspectiva, focando na agora jornalista Ane, que precisa decidir se vai ou não testemunhar a favor da mãe em uma audiência de liberdade condicional.
A situação é manipulada desde o início. Paula (que já cumpriu sua própria pena como cúmplice) mente para Ane, dizendo que Elena está gravemente doente com tuberculose e que pediu para a filha testemunhar. A verdade era exatamente o oposto: Elena cortou totalmente o contato com Ane durante todos aqueles anos não por frieza, mas como um ato de amor extremo. Ela não queria que a filha crescesse traumatizada visitando uma mãe assassina na cadeia, sacrificando sua própria relação para que Ane tivesse uma vida normal com Cris.
Quando Ane descobre isso, ela entende o sacrifício. No tribunal, a jovem reconhece que há duas versões da história: a de uma assassina fria e a de uma mãe desesperada que cometeu uma atrocidade para salvar a filha. Diante da ausência de uma “verdade absoluta”, Ane escolhe a versão da mãe protetora e faz um depoimento emocionante que garante a liberdade condicional de Elena.
O verdadeiro significado do final: Ane tomou a decisão certa?
A série é corajosa ao não dar um final de conto de fadas. Assim que Elena é solta e recebida pelas irmãs na porta da prisão, Ane já não está mais lá. A jovem decide ir embora para o aeroporto sem encontrar a mãe biológica.
Isso acontece porque, mesmo compreendendo o amor doentio que motivou o crime, Ane sabe que Elena é, de fato, uma assassina. O final de Naquela Noite deixa a moralidade em aberto, mostrando que a verdade é moldada pelos traumas e perspectivas de quem a conta. Ane quebra o ciclo de dependência tóxica da família Arbizu ajudando a mãe, mas escolhendo seguir sua própria vida longe das sombras daquela trágica noite.
















