Transformar uma comédia romântica de sucesso em uma série de TV com múltiplas temporadas é um desafio quase existencial: o que acontece depois do “felizes para sempre”? O risco de fabricar dramas inverossímeis ou forçar o casal a retroceder em sua maturidade é alto. É por isso que a temporada 2 de Ninguém Quer se estabelece não apenas como um acerto, mas como um feito notável.
Embora o material de divulgação tenha flertado com o melodrama, sugerindo que o carismático Noah (Adam Brody) e a irreverente Joanne (Kristen Bell) cairiam na armadilha das discussões vazias, a realidade é muito mais satisfatória. A série, disponível na Netflix, rejeita o caminho mais fácil e, em vez disso, celebra a evolução.
Os 10 novos episódios provam que é possível ter drama consistente – decorrente de pressões de fé e carreira – enquanto se mantém a integridade de um dos relacionamentos mais bem construídos da televisão recente. Ao sustentar o humor afiado e uma comunicação invejável, Ninguém Quer não apenas sobrevive ao segundo ano, mas o usa para reafirmar seu status de comédia romântica essencial.
Sinopse
A segunda temporada retoma a vida de Noah, o rabino, e Joanne, a podcaster agnóstica. Depois do beijo no season finale do primeiro ano, a dupla decide viver o presente e ignorar temporariamente a grande questão que paira sobre o relacionamento: a conversão de Joanne ao judaísmo. Este dilema inter-religioso, que não tem uma resolução fácil, serve como pano de fundo consistente, gerando consequências reais para a carreira de Noah e sua convivência com a família.
Enquanto lidam com pressões externas, como a desaprovação da mãe de Noah e um revés profissional para ele, o cotidiano do casal é recheado de comédia. Paralelamente, a série expande seu olhar para os relacionamentos coadjuvantes: a irmã de Joanne, Morgan (Justine Lupe), ganha destaque com uma trama própria e hilária, e o casal Sasha (Timothy Simons) e Esther (Jackie Tohn) enfrenta os desafios de manter a paixão após anos de casamento.
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Crítica
O grande diferencial de Ninguém Quer reside na sua abordagem inovadora dos conflitos. Ao contrário de muitas comédias românticas que se arrastam em mal-entendidos e ressentimentos não ditos, a série faz com que seus personagens conversem, e conversem bem. Os problemas surgem e são, em sua maioria, rapidamente discutidos e superados com um nível de comunicação que chega a ser aspiracional.
Os erros — toques de ansiedade, ciúmes ou dificuldades em lidar com interferências externas — são cometidos, mas o roteiro de Erin Foster e a nova equipe de showrunners (Jenni Konner e Bruce Eric Kaplan) priorizam a maturidade na resposta a esses desafios.
A trama prova, assim, que o drama pode existir sem ser tóxico, focando na leveza e no bom humor para retratar um relacionamento realisticamente saudável na TV. É um alívio satisfatório ver as peças se encaixando sem que seja necessário recorrer a brigas bobas e forçadas.
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Expansão do universo
A nova temporada acerta ao distribuir o foco narrativo. A dinâmica entre Kristen Bell (Joanne) e Adam Brody (Noah), sustentada pela química eletrizante que permanece o coração da série, é complementada pela elevação dos personagens secundários.
Justine Lupe, como Morgan, é a grande revelação cômica, roubando cenas com sua casualidade ao entregar falas insanas e sua função de equilibrar e, por vezes, desafiar Joanne. O arco de Morgan, com um novo interesse amoroso, adiciona camadas, mesmo que esta subtrama, por vezes, pareça apressada ou forçada para criar um contraste com o relacionamento principal.
Igualmente importante é o aprofundamento de Sasha e Esther. O casal, que explora os dilemas do casamento de longa data, adiciona autenticidade e vulnerabilidade ao retrato dos relacionamentos. Timothy Simons e Jackie Tohn oferecem um contraponto bem-humorado e, por vezes, sério, à dupla principal, enriquecendo o universo da série.
Embora a inclusão de guest stars como Seth Rogen e Kate Berlant seja promissora, a série peca ao não dar a eles — ou a outros personagens promissores, como a Bina de Tovah Feldshuh na segunda metade da temporada — tempo de tela suficiente, limitando seu impacto a participações pontuais e, por vezes, subdesenvolvidas.

Amor, fé e autoconhecimento
O motor temático da série, o embate entre a fé (o judaísmo de Noah) e o ceticismo (o agnosticismo de Joanne), é explorado com mais nuances. Em vez de apressar uma conversão forçada, a temporada permite que Joanne inicie um processo de descoberta pessoal e de respeito pela fé do parceiro, sem cair na idealização fácil.
Noah, por sua vez, enfrenta questionamentos sobre sua vocação e a possibilidade de um caminho religioso mais progressista com uma parceira gentia. A série se mantém autêntica ao não oferecer um “final idealizado” imediato, preferindo a jornada de autoconhecimento e as concessões mútuas.
A leveza e o humor continuam a ser o veículo para tratar de temas sérios como insegurança, pertencimento e o peso das expectativas comunitárias, tornando os personagens falhos e, por isso, profundamente verossímeis.
Conclusão
A segunda temporada de Ninguém Quer é uma evolução madura. Ao evitar a repetição de fórmulas e os conflitos fabricados, a série investe na profundidade de seus personagens e na expansão do seu universo narrativo, com a valorização de Morgan, Sasha e Esther.
Preservando o humor afiado, o romance crível e a química magnética de Kristen Bell e Adam Brody, a série reafirma seu mérito de ter conquistado indicações em grandes premiações. Ela não é apenas uma comédia romântica agradável, mas um estudo envolvente e otimista sobre o amor moderno, a convivência e a importância do diálogo.
Ninguém Quer consolida-se como uma das produções mais consistentes e bem-humoradas do catálogo da Netflix, provando que, no final das contas, o público quer, sim, ver um relacionamento saudável.
Onde assistir à segunda temporada de Ninguém Quer?
A série “Ninguém Quer” está disponível para assistir na Netflix.
Veja o trailer da temporada 2 de Ninguém Quer
Quem está no elenco de Ninguém Quer, da Netflix?
- Kristen Bell
- Adam Brody
- Justine Lupe
- Timothy Simons
- Jackie Tohn
- Stephanie Faracy
- Tovah Feldshuh
- Paul Ben-Victor
- Michael Hitchcock

















