‘Os Enforcados’: quando Lady Macbeth encontra o subúrbio carioca

Foto: Divulgação
Compartilhe

‘Os Enforcados’, novo longa de Fernando Coimbra, chega com a promessa de unir sátira social, drama familiar e pitadas de suspense em um retrato do submundo carioca. A premissa, inspirada livremente em tragédias shakespearianas e no imaginário popular do jogo do bicho, parece ter todos os elementos para uma obra de impacto: personagens ambíguos, diálogos afiados e um pano de fundo carregado de tensões políticas e culturais.

No entanto, essa mistura de tons e intenções acaba sendo tanto a força quanto a fragilidade do filme. Apesar de contar com atuações competentes de Leandra Leal e Irandhir Santos, que imprimem carisma e presença mesmo em situações improváveis, o longa não consegue manter um equilíbrio narrativo consistente.

➡️Frete grátis e rápido! Confira o festival de ofertas e promoções com até 80% OFF para tudo o que você precisa: TVs, celulares, livros, roupas, calçados e muito mais! Economize já com descontos imperdíveis!

Sinopse do filme Os Enforcados

Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal à beira da falência financeira e emocional. Quando uma oportunidade surge para assumir o controle do império ilegal do jogo do bicho construído por familiares, eles mergulham em um mundo de intrigas, chantagens e disputas de poder. O que começa como uma decisão pragmática para salvar a família se transforma em um perigoso jogo de manipulação e violência.

Aos poucos, o casal passa a moldar novas identidades, ora tentando agir com frieza estratégica, ora cedendo ao improviso e ao ridículo. Entre reformas intermináveis na casa e negociações de bastidores, Valério e Regina descobrem que o preço do poder não se mede apenas em dinheiro, mas também no desgaste moral e psicológico que a escalada impõe.

➡️Siga o Flixlândia no WhatsApp e fique por dentro das novidades de filmes, séries e streamings

Crítica

O filme brilha quando abraça a sátira social, expondo, com humor ácido, a hipocrisia e a corrupção enraizadas na elite marginal carioca. Há diálogos que falam diretamente com o Brasil contemporâneo, como a ironia sobre “cidadãos de bem” ou a reprodução de frases emblemáticas de figuras políticas polêmicas. Coimbra se distancia da comédia popular televisiva e prefere mirar no ridículo das classes opressoras, criando situações que flertam com o absurdo sem perder um pé na realidade.

Porém, essa mesma sátira, quando prolongada demais no segundo ato, perde o efeito corrosivo inicial. A narrativa parece se distrair com conversas circulares e situações pouco progressivas, esvaziando a urgência do conflito central. O humor, que deveria funcionar como faca afiada, acaba se tornando uma lâmina cega, repetindo gestos e piadas já explorados na primeira metade.

➡️Acompanhe o Flixlândia no Google Notícias e fique por dentro do mundo dos filmes e séries do streaming

Foto: Divulgação

Personagens em potencial, mas mal explorados

Valério e Regina têm potencial para figurar entre os grandes casais do crime no cinema brasileiro recente. Ele, um homem de temperamento morno e inseguro, que se vê obrigado a encarnar um papel de chefe cruel; ela, a esposa aparentemente ornamental que se revela a verdadeira força motriz das decisões. O contraste entre a imagem pública e as intenções privadas poderia render um estudo rico de personagens.

Contudo, o roteiro não oferece o tempo ou as situações necessárias para tornar essa evolução crível, os personagens mudam sem que seja possível acompanhar o desenvolvimento deles. O envolvimento direto de Valério nos negócios, por exemplo, é mais insinuado do que mostrado, enfraquecendo o peso dramático de suas ações posteriores. Regina, embora magnética em cena, oscila entre momentos de manipulação calculada e explosões histéricas, sem que haja uma costura narrativa consistente que justifique essas mudanças de registro.

➡️Suspense de alto nível com pitadas de terror preciso fazem de ‘A Hora do Mal’ um sucesso
➡️‘A Melhor Mãe do Mundo’ vai da dureza da cidade ao suave e emociona
➡️Novo filme da franquia ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ mantém tiradas clássicas com elenco renovado

Estilo visual versus conteúdo narrativo

A direção de Fernando Coimbra se mantém tecnicamente sólida. A fotografia claustrofóbica, a paleta escura e o uso de enquadramentos fechados criam uma atmosfera de decadência e opressão. Há planos que condensam em silêncio toda a tensão de um ambiente carregado de violência latente, transmitindo mais impacto do que diálogos explicativos poderiam oferecer.

No entanto, esse rigor estético não é acompanhado por um roteiro à altura. A construção de certas viradas dramáticas, como cenas de tortura ou assassinatos, carece de preparação psicológica e contextual. O resultado é um distanciamento do espectador, que percebe mais a intenção formal da cena do que a organicidade da narrativa. É um caso em que a forma, embora bela e expressiva, não consegue salvar a substância.

Cabe o destaque para vários elementos de cena que referenciam a obra shakespeariana, principalmente uma obra de arte com três cabeças, uma alusão às três bruxas da tragédia Macbeth, bem ao lado de Regina (que, no latim, é rainha), fazendo da personagem a Lady Macbeth responsável por articular toda a saga em busca de poder. Ainda assim, os elementos se perdem em meio à falta de coesão no tom da narrativa.

➡️ Quer saber mais sobre filmes, séries e  streamings? Então acompanhe o trabalho do Flixlândia nas redes sociais pelo InstagramXTikTok e YouTube, e não perca nenhuma informação sobre o melhor do mundo do audiovisual.

Conclusão

‘Os Enforcados’ é um filme que exibe ambição estética e temática, mas se perde no caminho entre a sátira, o drama e o suspense. A oscilação de tons, aliada a um segundo ato excessivamente arrastado, enfraquece a imersão e dilui o impacto das cenas-chave. Ainda assim, a obra oferece momentos de brilho, sobretudo quando Leandra Leal e Irandhir Santos podem explorar a ironia e a ambiguidade moral de seus personagens.

No fim, resta a sensação de um potencial parcialmente desperdiçado. ‘Os Enforcados’ poderia ter sido um retrato afiado da corrupção e da degradação moral, mas prefere dispersar-se em um mosaico de intenções que nunca se alinham plenamente. É um filme que vale pela experiência estética e por alguns diálogos certeiros, mas que deixa o público com a impressão de que, com mais foco narrativo, poderia ter sido muito mais.

Onde assistir ao filme nacional Os Enforcados?

O filme está disponível para assistir nos cinemas.

Trailer do filme Os Enforcados

YouTube player

Elenco

  • Leandra Leal
  • Irandhir Santos
  • Thiago Thomé
  • Pêpê Rapazote
  • Ernani Moraes
  • Augusto Madeira
  • Irene Ravache
  • Stepan Nercessian
  • Gustavo Arthidoro
  • Ricardo Bittencourt
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Procuram-se colaboradores
Procuram-se colaboradores

Últimas

Artigos relacionados
O Palhaço no Milharal resenha crítica do filme 2025 Flixlândia
Críticas

[CRÍTICA] ‘O Palhaço no Milharal’: terror despretensioso diverte ao abraçar o próprio exagero

Todo ano surgem filmes de terror que prometem reinventar o gênero, discutir...

De Férias com Você resenha crítica do filme Netflix 2026 Flixlândia
Críticas

[CRÍTICA] ‘De Férias com Você’: um clichê confortável (e esquecível) na Netflix

Sabe aquele momento pós-festas de fim de ano, quando o clima esfria...

Verão de 69 resenha crítica do filme 2025 Disney+ Flixlândia (1)
Críticas

[CRÍTICA] ‘Verão de 69’: diversão leve, mas pouco memorável

Indicado ao Critics Choice Awards 2026, “Verão de 69” se encaixa naquele...

Belén Uma História de Injustiça 2025 resenha crítica do filme Prime Video Flixlândia (1)
Críticas

[CRÍTICA] ‘Belén: Uma História de Injustiça’, um drama de tribunal que não pede desculpas

Quando a gente pensa em “filme de tribunal”, logo vem à cabeça...

Transamazônia resenha crítica do filme 2026 Flixlândia
Críticas

[CRÍTICA] ‘Transamazônia’: a selva sob o filtro estético (e problemático) do olhar estrangeiro

Demorou, mas chegou. Depois de rodar o circuito de festivais, ser indicado...

Agentes Muito Especiais 2026 resenha crítica do filme brasileiro Flixlândia
Críticas

[CRÍTICA] ‘Agentes Muito Especiais’: sobra carisma, mas falta roteiro

Agentes Muito Especiais é fruto de uma ideia original concebida pelo saudoso...

tom e jerry uma aventura no museu 2026 filme resenha crítica Flixlândia
Críticas

[CRÍTICA] ‘Tom & Jerry: Uma Aventura no Museu’, uma união confusa entre dois mundos

O novo filme de Tom e Jerry apresenta uma aventura bastante diferente...