‘Os Enforcados’: quando Lady Macbeth encontra o subúrbio carioca

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‘Os Enforcados’, novo longa de Fernando Coimbra, chega com a promessa de unir sátira social, drama familiar e pitadas de suspense em um retrato do submundo carioca. A premissa, inspirada livremente em tragédias shakespearianas e no imaginário popular do jogo do bicho, parece ter todos os elementos para uma obra de impacto: personagens ambíguos, diálogos afiados e um pano de fundo carregado de tensões políticas e culturais.

No entanto, essa mistura de tons e intenções acaba sendo tanto a força quanto a fragilidade do filme. Apesar de contar com atuações competentes de Leandra Leal e Irandhir Santos, que imprimem carisma e presença mesmo em situações improváveis, o longa não consegue manter um equilíbrio narrativo consistente.

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Sinopse do filme Os Enforcados

Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal à beira da falência financeira e emocional. Quando uma oportunidade surge para assumir o controle do império ilegal do jogo do bicho construído por familiares, eles mergulham em um mundo de intrigas, chantagens e disputas de poder. O que começa como uma decisão pragmática para salvar a família se transforma em um perigoso jogo de manipulação e violência.

Aos poucos, o casal passa a moldar novas identidades, ora tentando agir com frieza estratégica, ora cedendo ao improviso e ao ridículo. Entre reformas intermináveis na casa e negociações de bastidores, Valério e Regina descobrem que o preço do poder não se mede apenas em dinheiro, mas também no desgaste moral e psicológico que a escalada impõe.

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Crítica

O filme brilha quando abraça a sátira social, expondo, com humor ácido, a hipocrisia e a corrupção enraizadas na elite marginal carioca. Há diálogos que falam diretamente com o Brasil contemporâneo, como a ironia sobre “cidadãos de bem” ou a reprodução de frases emblemáticas de figuras políticas polêmicas. Coimbra se distancia da comédia popular televisiva e prefere mirar no ridículo das classes opressoras, criando situações que flertam com o absurdo sem perder um pé na realidade.

Porém, essa mesma sátira, quando prolongada demais no segundo ato, perde o efeito corrosivo inicial. A narrativa parece se distrair com conversas circulares e situações pouco progressivas, esvaziando a urgência do conflito central. O humor, que deveria funcionar como faca afiada, acaba se tornando uma lâmina cega, repetindo gestos e piadas já explorados na primeira metade.

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Foto: Divulgação

Personagens em potencial, mas mal explorados

Valério e Regina têm potencial para figurar entre os grandes casais do crime no cinema brasileiro recente. Ele, um homem de temperamento morno e inseguro, que se vê obrigado a encarnar um papel de chefe cruel; ela, a esposa aparentemente ornamental que se revela a verdadeira força motriz das decisões. O contraste entre a imagem pública e as intenções privadas poderia render um estudo rico de personagens.

Contudo, o roteiro não oferece o tempo ou as situações necessárias para tornar essa evolução crível, os personagens mudam sem que seja possível acompanhar o desenvolvimento deles. O envolvimento direto de Valério nos negócios, por exemplo, é mais insinuado do que mostrado, enfraquecendo o peso dramático de suas ações posteriores. Regina, embora magnética em cena, oscila entre momentos de manipulação calculada e explosões histéricas, sem que haja uma costura narrativa consistente que justifique essas mudanças de registro.

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Estilo visual versus conteúdo narrativo

A direção de Fernando Coimbra se mantém tecnicamente sólida. A fotografia claustrofóbica, a paleta escura e o uso de enquadramentos fechados criam uma atmosfera de decadência e opressão. Há planos que condensam em silêncio toda a tensão de um ambiente carregado de violência latente, transmitindo mais impacto do que diálogos explicativos poderiam oferecer.

No entanto, esse rigor estético não é acompanhado por um roteiro à altura. A construção de certas viradas dramáticas, como cenas de tortura ou assassinatos, carece de preparação psicológica e contextual. O resultado é um distanciamento do espectador, que percebe mais a intenção formal da cena do que a organicidade da narrativa. É um caso em que a forma, embora bela e expressiva, não consegue salvar a substância.

Cabe o destaque para vários elementos de cena que referenciam a obra shakespeariana, principalmente uma obra de arte com três cabeças, uma alusão às três bruxas da tragédia Macbeth, bem ao lado de Regina (que, no latim, é rainha), fazendo da personagem a Lady Macbeth responsável por articular toda a saga em busca de poder. Ainda assim, os elementos se perdem em meio à falta de coesão no tom da narrativa.

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Conclusão

‘Os Enforcados’ é um filme que exibe ambição estética e temática, mas se perde no caminho entre a sátira, o drama e o suspense. A oscilação de tons, aliada a um segundo ato excessivamente arrastado, enfraquece a imersão e dilui o impacto das cenas-chave. Ainda assim, a obra oferece momentos de brilho, sobretudo quando Leandra Leal e Irandhir Santos podem explorar a ironia e a ambiguidade moral de seus personagens.

No fim, resta a sensação de um potencial parcialmente desperdiçado. ‘Os Enforcados’ poderia ter sido um retrato afiado da corrupção e da degradação moral, mas prefere dispersar-se em um mosaico de intenções que nunca se alinham plenamente. É um filme que vale pela experiência estética e por alguns diálogos certeiros, mas que deixa o público com a impressão de que, com mais foco narrativo, poderia ter sido muito mais.

Onde assistir ao filme nacional Os Enforcados?

O filme está disponível para assistir nos cinemas.

Trailer do filme Os Enforcados

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Elenco

  • Leandra Leal
  • Irandhir Santos
  • Thiago Thomé
  • Pêpê Rapazote
  • Ernani Moraes
  • Augusto Madeira
  • Irene Ravache
  • Stepan Nercessian
  • Gustavo Arthidoro
  • Ricardo Bittencourt
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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