Os Testamentos Das Filhas de Gilead crítica dos episódios 1, 2 e 3 da série do Disney+ 2026 - Flixlândia (1)

Crítica | De volta a Gilead: o despertar de uma nova geração em ‘Os Testamentos’

Foto: Disney+ / Divulgação
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Voltamos a Gilead, e o clima continua tão claustrofóbico e tenso quanto antes. Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, a aguardada continuação do universo de The Handmaid’s Tale, chegou ao Disney+ nos jogando de volta a essa ditadura teocrática, mas com uma roupagem sensivelmente diferente.

Esqueça a rebelião visceral e as trincheiras ensanguentadas de June; a nova série muda o foco e explora os horrores de Gilead pelos olhos de quem cresceu achando que todo aquele absurdo é a mais pura normalidade. Com um salto temporal de mais ou menos quatro a cinco anos em relação à série original — uma mudança drástica perto dos 15 anos estipulados no livro de Margaret Atwood —, a adaptação aposta num tom mais “jovem adulto”, mas sem deixar para trás a crueldade e o alerta social que nos chocaram na primeira obra.

Sinopse

A trama dos três primeiros episódios foca em duas adolescentes vivendo realidades completamente opostas. De um lado temos Agnes (Chase Infiniti) — que o público já conhece como Hannah, a primeira filha de June —, uma jovem da elite criada em uma escola preparatória para filhas de Comandantes, administrada pela icônica e temida Tia Lydia (Ann Dowd).

Agnes não questiona o mundo ao seu redor até que as inevitáveis mudanças da puberdade a empurram para o perturbador mercado de casamentos do regime. Do outro lado está Daisy (Lucy Halliday), uma garota canadense que leva uma vida comum até que seus pais adotivos são assassinados.

Com a ajuda direta de June (Elisabeth Moss), Daisy descobre sua verdadeira identidade como a bebê Nichole, e acaba se infiltrando em Gilead como uma “Garota Pérola” (missionária) em uma missão para derrubar o sistema e se aproximar da irmã.

Crítica dos episódios 1, 2 e 3 de Os Testamentos: Das Filhas de Gilead

Meninas Malvadas em Gilead

Se The Handmaid’s Tale mostrava a dor brutal de mulheres adultas perdendo a própria liberdade, Os Testamentos escancara como uma ditadura se sustenta no tempo: através da doutrinação pesada de suas crianças. O clima na escola preparatória chega a lembrar um “Meninas Malvadas de Gilead”, repleto de fofocas, intrigas e uma clara divisão de status guiada por cores.

As meninas mais novas usam rosa, as adolescentes vestem a cor de ameixa (sendo chamadas de Plums), e as que já menstruaram passam a usar verde, sinalizando que estão prontas para casar. Apesar da atmosfera de série de drama adolescente que gerou algumas reclamações sobre o tom da produção, essa abordagem funciona muito bem para contrastar as angústias normais da idade — como ter um crush num guarda ou odiar a madrasta malvada, Paula (Amy Seimetz) — com o fanatismo extremo em que elas vivem.

Os Testamentos Das Filhas de Gilead série trailer data de estreia elenco - Flixlândia
Foto: Disney+ / Divulgação

O peso do despertar e o terror psicológico

Em vez da violência gráfica tão comum na obra original, o terror aqui se torna mais insidioso e psicológico. O momento em que Agnes menstrua pela primeira vez deveria ser natural, mas o regime distorce isso com um simbolismo perturbador (com direito a um ritual que mais se parece com um afogamento).

A transição para a “fase adulta” transforma a garota em um pedaço de carne pronto para a procriação, culminando na cena bizarra e absurdamente desconfortável onde ela se ajoelha na frente do pai enquanto vários homens mais velhos a encaram com cobiça.

A série acerta em cheio ao causar asco sem precisar derramar uma gota de sangue, trazendo figuras como o dentista pai de sua amiga Becka, que exala uma energia assustadora e pervertida. E claro, para suprir a cota de maldade crua e sádica, a série introduz a Tia Vidala, que rouba a cena e faz até a Tia Lydia parecer dócil.

Daisy, June e as inconsistências temporais

O choque de realidade bate à porta com a introdução de Daisy. Ela é o contraste necessário, a única a esboçar uma reação humana (como repulsa e pânico) ao presenciar punições bárbaras, como um homem tendo a mão decepada. Mas o grande triunfo desses primeiros capítulos foi, sem dúvida, o retorno de Elisabeth Moss. A presença de June traz um peso emocional gigantesco para o terceiro episódio, quando ela precisa contar a verdade para a filha que um dia abandonou para mantê-la segura.

Apesar disso, quem é muito apegado à cronologia vai precisar de um esforço extra para ignorar um detalhe: se a série se passa poucos anos após The Handmaid’s Tale, a diferença de idade entre Agnes/Hannah e Daisy/Nichole deveria ser enorme (pelo menos uns sete anos), mas aqui elas parecem ter quase a mesma idade. É uma reescrita na linha do tempo que pode incomodar, mas a excelente química do elenco jovem acaba ajudando a perdoar esse “furo”.

Visual impecável, mas com tropeços na narrativa

A cinematografia de Os Testamentos é deslumbrante. A série abandona o clima sombrio para abraçar uma estética simétrica, limpa e perfeitamente controlada. Gilead agora parece vitrine, colorida e organizada, e é justamente essa aura de “beleza artificial” que torna a realidade de suas ações ainda mais macabra.

No entanto, a produção dá umas escorregadas na hora de traduzir a “vibe jovem”. Algumas escolhas musicais inseridas nas cenas tentam dar um ar mais moderno, mas acabam soando estranhas e deslocadas. Além disso, os agentes da resistência (Mayday) se comportam de maneira tão óbvia e pouco furtiva no meio de um regime vigilante que beira o amadorismo, quebrando um pouco a tensão sobre o risco de vida que deveriam estar correndo.

Conclusão

Os três primeiros episódios de Os Testamentos entregam uma experiência que é estranhamente familiar e assustadoramente nova. Observar a perversidade de Gilead não mais pelas vítimas que a viram nascer, mas pelos olhos inocentes de meninas que foram ensinadas a amá-la, traz um frescor gigantesco e necessário para a franquia.

Mesmo com alguns diálogos tropeçando e aquele ajuste forçado na linha do tempo, o roteiro consegue te fisgar pelo lado emocional e mantém viva a curiosidade de saber até onde essa lavagem cerebral pode ir. O retorno àquela distopia provou o seu valor, deixando claro que ainda há muita opressão para ser desmascarada — e que a rebelião silenciosa dessas garotas está apenas começando.

Trailer da série Os Testamentos: Das Filhas de Gilead

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Elenco de Os Testamentos: Das Filhas de Gilead, do Disney+

  • Ann Dowd
  • Chase Infiniti
  • Lucy Halliday
  • Mabel Li
  • Amy Seimetz
  • Brad Alexander
  • Rowan Blanchard
  • Mattea Conforti
  • Zarrin Darnell-Martin
  • Eva Foote
  • Isolde Ardies
  • Shechinah Mpumlwana
  • Birva Pandya
  • Kira Guloien
  • Elisabeth Moss
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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