Se você abriu a Netflix recentemente, deve ter esbarrado com Rainhas da Grana. Lançada neste início de fevereiro de 2026, a série francesa chega com aquela vibe de “aposta segura” do streaming: uma mistura de Good Girls com o humor ácido europeu.
Mas será que vale a pena investir seu tempo nessas oito horas de maratona? A resposta curta é sim, mas vá preparado: a série é uma bagunça deliciosa, cheia de coração, mas que tropeça nos próprios cadarços quando tenta ser séria demais ou engraçada demais. É uma daquelas obras que você começa pela curiosidade e fica pelo carisma das personagens, mesmo revirando os olhos para o roteiro algumas vezes.
Sinopse
A trama nos leva ao sul da França, longe do glamour dos cartões-postais, focando na “galère” — o perrengue diário de quem vive com a corda no pescoço. Acompanhamos cinco mulheres de diferentes origens, mas unidas pela total falta de perspectiva financeira. Temos Rosa (Rebecca Marder), funcionária de banco endividada pelo marido preso; Sofia (Naidra Ayadi), que luta contra o mofo em casa e o risco de perder os filhos para a assistência social; Kim (Zoé Marchal), que lida com a bipolaridade; e Alex (Tya Deslauriers), uma estudante quebrada.
Cansadas de serem ignoradas pelo sistema e esmagadas pelas dívidas, elas têm uma ideia “brilhante”: assaltar o banco onde Rosa trabalha. O plot twist? Para evitar serem reconhecidas e despistar a polícia, elas decidem cometer o crime vestidas de homens, usando perucas, bigodes e moduladores de voz. O que começa como um plano desesperado para conseguir 36 mil euros logo escala para uma guerra caótica envolvendo um prefeito corrupto (François Damiens), traficantes locais e uma investigação policial que beira o ridículo.
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Resenha crítica da série Rainhas da Grana
A força vem da “galère” e da sororidade
O maior trunfo de Rainhas da Grana não é o assalto em si, mas o motivo dele. A série acerta em cheio ao construir personagens que não são criminosas naturais, mas mulheres comuns empurradas ao limite. O roteiro gasta um tempo precioso — e necessário — mostrando que o roubo não é uma busca por glamour, mas um ato impulsivo de sobrevivência.
A dinâmica entre as atrizes é o que segura a audiência. Existe uma química solta e natural entre o elenco que faz com que até as cenas mais paradas sejam interessantes. A sororidade aqui não é panfletária; ela nasce da necessidade.
Ver personagens como a rica e infeliz Chloé (Pascale Arbillot) se juntarem ao grupo de trabalhadoras cria uma textura interessante sobre como o patriarcado e a violência doméstica atravessam classes sociais. Naidra Ayadi, em especial, entrega uma performance que ancora a série na realidade, equilibrando o drama de uma mãe desesperada com a tensão do crime.

Um tom que oscila mais que o humor da Kim
A série se vende como uma “dramédia”, mas sofre para equilibrar os pratos. Em alguns momentos, ela quer ser uma sátira social afiada sobre a desigualdade e o machismo; em outros, descamba para o pastelão. O humor, muitas vezes, vem do despreparo total dessas mulheres para o mundo do crime, o que funciona bem. Porém, a série às vezes parece ter medo de mergulhar fundo nos temas sérios que propõe, ficando apenas na superfície para não pesar a mão.
Além disso, a polícia na série é retratada de forma quase caricata. Se você espera um jogo de gato e rato inteligente estilo La Casa de Papel, esqueça. A investigação é atrapalhada, e os policiais muitas vezes parecem os “Keystone Cops” (aqueles policiais trapalhões do cinema mudo), servindo apenas como obstáculos genéricos ou alívio cômico duvidoso. Isso tira um pouco da tensão real que os assaltos deveriam ter.
Roteiro corajoso, mas cheio de buracos
Narrativamente, a série é um passeio acidentado. Enquanto alguns episódios têm um ritmo excelente e constroem uma tensão genuína, outros se arrastam com subplots políticos e vilões secundários que não justificam o tempo de tela que ocupam. A trama do prefeito Marionnaud e seus esquemas imobiliários, por exemplo, serve para dar escala à história, mas às vezes tira o foco do que realmente importa: as mulheres.
Há também uma dose generosa de suspensão de descrença exigida do espectador. Coisas como a facilidade com que elas conseguem informações privilegiadas ou a sobrevivência milagrosa de certos personagens (como alguém que viaja dentro de uma mala!) testam a nossa paciência. A série se inspira levemente na história real do “Gang des Amazones” dos anos 80, mas toma liberdades criativas que, por vezes, transformam o drama social em uma farsa “boba”.
Conclusão
Rainhas da Grana é uma série imperfeita, mas cheia de vida. Ela não tenta reinventar a roda da TV, e tudo bem. Se você procura um suspense policial rigoroso e sombrio, vai se decepcionar com as falhas lógicas e o tom levemente absurdo.
No entanto, se o objetivo é ver uma história sobre amizade feminina, resiliência e a satisfação de ver o “pequeno” dando o troco no sistema, é uma recomendação fácil. O final, equilibrado e honesto, fecha a temporada de forma satisfatória, deixando aquele gosto de que valeu a pena torcer por essas anti-heroínas improváveis. É o tipo de entretenimento que conquista mais pelo coração do que pela técnica.
Onde assistir à série Rainhas da Grana?
Trailer de Rainhas da Grana (2026)
Elenco de Rainhas da Grana, da Netflix
- Rebecca Marder
- Zoé Marchal
- Naidra Ayadi
- Pascale Arbillot
- Tya Deslauriers
- François Damiens
- Sami Outalbali
- Steve Tientcheu
- Olivier Rosemberg
- Jonathan Cohen

















