Demorou, mas chegou. Depois de rodar o circuito de festivais, ser indicado ao Leopardo de Ouro em Locarno e passar pelo Festival do Rio, “Transamazônia” finalmente aterrissa nos cinemas brasileiros. Dirigido pela cineasta sul-africana/sueca Pia Marais, o filme carrega aquela expectativa de uma superprodução multinacional filmada no nosso quintal (no Pará, para ser mais exato).
A premissa é daquelas que prendem: misturar fé, exploração ambiental e dramas familiares no coração da maior floresta do mundo. Mas, agora que a poeira baixou, a sensação que fica é que o filme tenta abraçar o mundo com as pernas — ou melhor, com as lentes — e acaba tropeçando nas próprias ambições.
Sinopse
A trama gira em torno de Rebecca (vivida pela intensa Helena Zengel), uma jovem que, ainda criança, foi a única sobrevivente de um acidente aéreo na floresta amazônica. Esse evento traumático não só marcou sua vida, mas foi transformado em um verdadeiro ato de marketing religioso pelo seu pai, o missionário Lawrence Byrne (Jeremy Xido).
Lawrence vende a sobrevivência da filha como um “milagre vivo”, transformando-a em uma espécie de curandeira para atrair fiéis indígenas e locais para sua igreja pentecostal. A coisa complica — e muito — quando madeireiros ilegais começam a invadir as terras onde eles atuam, colocando a missão, os indígenas e a própria dinâmica familiar tóxica de Rebecca e Lawrence no centro de um barril de pólvora prestes a explodir.
➡️ Quer saber mais sobre filmes, séries e streamings? Então acompanhe o trabalho do Flixlândia nas redes sociais pelo INSTAGRAM, X, TIKTOK, YOUTUBE, WHATSAPP, e GOOGLE NOTÍCIAS, e não perca nenhuma informação sobre o melhor do mundo do audiovisual.
Resenha crítica do filme Transamazônia
O filme de Pia Marais é, sem dúvida, uma experiência visual. Mas é justamente quando começamos a descascar essa cebola que os problemas aparecem. A diretora tenta costurar redenção, colonialismo, críticas ao desmatamento e dinâmica familiar, mas o resultado é uma colcha de retalhos que nem sempre cobre o que deveria.
Um espetáculo visual que estetiza a tragédia
Não dá para negar: tecnicamente, o filme é muito bem feito. A fotografia de Mathieu de Montgrand é daquelas que fazem a gente sentir a umidade da floresta só de olhar. Ele foge do óbvio, usando luzes pastéis, contraluzes marcados e uma atmosfera vaporosa que dá um ar de mistério e sensualidade à mata.
O problema é quando essa beleza toda vira um fim em si mesma. Parece que o filme está mais preocupado em criar um “take” bonito do fogo na floresta do que em discutir o que aquele incêndio significa. Tem uma cena específica que resume bem isso: durante um confronto tenso e um incêndio iniciado por Rebecca, a câmera parece se deliciar com o contraste estético entre o fogo laranja e as luzes azuis da rua. Fica lindo no Instagram, mas na tela esvazia o peso político e a urgência do conflito. É a “gourmetização” de uma tragédia real.

O velho problema do “White Savior”
Talvez o ponto mais fraco de “Transamazônia” seja a insistência em manter o foco nos personagens brancos e estrangeiros, transformando o cenário e as pessoas locais em meros panos de fundo. A diretora até tentou evitar isso — ela mesma disse que queria fugir de exotismos —, mas caiu na armadilha.
Os indígenas, que são os verdadeiros donos da terra e os mais afetados pelo desmatamento e pela evangelização forçada, mal têm voz. Eles aparecem reagindo, correndo ou servindo de escada para o drama dos “gringos”. Tem uma cena que beira o inacreditável, onde o missionário Lawrence humilha um nativo nu e manda os manifestantes indígenas saírem dali, agindo como se ele fosse a autoridade moral daquele solo.
O filme mostra isso, mas falta uma crítica contundente; falta dar o microfone para quem está sendo silenciado. A gente acaba assistindo a mais uma história de “salvador branco” que chega para resolver (ou causar) problemas em um lugar que ele mal compreende.
Atuações intensas em personagens opacos
Se o roteiro patina, pelo menos o elenco tenta segurar as pontas. O destaque absoluto é a jovem Helena Zengel. Ela fala pouco, mas o olhar dela entrega tudo: o cansaço, a dúvida, o peso de ser tratada como uma santa sem nunca ter pedido por isso. É uma atuação minimalista que convence. Do outro lado, temos Jeremy Xido como o pai, que faz um bom trabalho, mas sofre com um personagem que oscila entre o vilão manipulador e o fanático sincero sem muita profundidade.
A relação entre pai e filha, que deveria ser o coração pulsante do drama, acaba sendo fria. A gente vê que existe uma exploração ali — ele usa a filha como um fantoche para ganhar poder —, mas o filme não mergulha nas consequências emocionais disso. Fica tudo muito sugerido, muito sussurrado em quartos escuros, e essa falta de clareza distancia a gente dos personagens.
Conclusão
“Transamazônia” é aquele típico filme que é bonito de ver, mas difícil de sentir. Pia Marais trouxe para a tela uma ambição gigante de discutir temas urgentes como a fé usada como ferramenta de poder e a destruição da Amazônia, mas pareceu ter medo de colocar o dedo na ferida de verdade.
Ao optar por um olhar estrangeiro sobre a nossa terra, o longa transforma questões políticas gravíssimas em cenário para o drama existencial de uma família branca. É uma obra inquieta e bem produzida, mas que sai do cinema deixando um gosto amargo de oportunidade perdida. Vale a pena assistir pela fotografia e pela atuação de Zengel, mas vá preparado para encontrar mais perguntas sem respostas e uma floresta que, infelizmente, serve apenas de moldura.
Onde assistir ao filme Transamazônia?
O filme estreia nesta quinta-feira, 8 de janeiro de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de Transamazônia (2026)
Elenco do filme Transamazônia
- Helena Zengel
- Jeremy Xido
- Sabine Timoteo
- Hamã Sateré
- Rômulo Braga
- Philipp Lavra
- Sérgio Sartório
- Iwinaiwa Assurini
- Pirá Assurini
- João Victor Xavante
- Kamya Assurini
















