O gênero true crime tá passando por uma fase de transição bem interessante. A gente já cansou um pouco daquela velha fórmula que quase transforma serial killers em astros pop, né? É exatamente surfando nessa onda de tentar algo mais focado na dor de quem fica que “Um Amigo, Um Assassino” (do original A Friend, a Murderer) chegou com os dois pés na porta, dominando o Top 5 global de séries da Netflix logo após sua estreia.
Comandada pelos diretores dinamarqueses Christian Dyekjær e Bo Norstrom Weile, a minissérie promete focar no estrago psicológico e na quebra de confiança de pessoas que dividiam a vida com um criminoso. Mas será que a produção realmente entrega o que promete sem cair no sensacionalismo?
Sinopse
Durante quase uma década, entre 2016 e 2023, a pacata comunidade rural de Korsør, na Dinamarca, viveu um verdadeiro pesadelo. Crimes violentos e abduções, incluindo o trágico assassinato da jovem Emilie Meng, de apenas 17 anos, deixaram a região mergulhada em medo e paranoia.
O alívio finalmente veio quando a polícia conseguiu prender o responsável, Philip Patrick Westh. Porém, o que foi motivo de comemoração para o país, virou um trauma inimaginável para três jovens em específico: Amanda, Kiri e Nichlas.
Para eles, Philip não era um monstro sem rosto; ele era um melhor amigo, um cara com quem dividiam a casa, os jantares e a vida. A série se propõe a contar a história através da perspectiva desses três amigos, tentando entender como é possível conviver com a escuridão e não notar absolutamente nada.
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Crítica da série Um Amigo, Um Assassino, da Netflix
O peso da traição e o abismo psicológico
O grande mérito do documentário é bater de frente com a desilusão humana e o terror excessivamente íntimo. Os depoimentos de Amanda, Kiri e Nichlas não têm aquela cara de roteiro ensaiado; a dor ali é crua e brutal. O terceiro episódio dá um verdadeiro soco no estômago quando Nichlas revela uma carta enviada por Philip da prisão. O assassino descreve seus crimes bárbaros apenas como “uma atitude estúpida”, pedindo para manter contato como se a amizade continuasse a mesma, mostrando uma total desconexão com a realidade e zero remorso.
Outro ponto altíssimo é a forma como a obra aborda a agência feminina. No mundo do true crime, mulheres costumam virar apenas estatísticas. Aqui, Amanda e Kiri ganham o microfone para expor como a amizade foi usada para criar um gaslighting social. A vulnerabilidade delas em admitir a culpa por não terem percebido nada de errado no amigo levanta um debate super válido sobre a fragilidade da nossa intuição.

Promessas quebradas e falsas premissas
Apesar da premissa excelente, a série toma decisões criativas bem questionáveis. A obra se vende como a história dos amigos, mas gasta a maior parte dos dois primeiros episódios repassando os detalhes dos crimes. Isso se torna um problema ético grave quando lembramos que a família da primeira vítima pediu explicitamente por privacidade e respeito ao luto, e mesmo com os nomes anonimizados, a exposição é clara.
Se a intenção era focar no trauma da amizade, como sugere o título, um filme de 90 minutos resolveria o recado com muito mais eficiência e respeito. Para piorar um pouco a situação, a tentativa de um dos criadores da série de se inserir na frente das câmeras soa vaidosa e totalmente desnecessária para a narrativa.
Estética e atmosfera: o terror invisível
Tecnicamente, a produção escandinava dá uma aula de como construir tensão sem precisar apelar para sangue e imagens chocantes (gore). A direção de fotografia escolheu usar uma paleta de cores muito sóbria, focada em sombras, o que passa aquela sensação agoniante de que existe algo apodrecendo debaixo da superfície do cotidiano.
A trilha sonora minimalista complementa essa atmosfera perfeitamente, funcionando como um zumbido constante de ansiedade que nunca se resolve, refletindo muito bem o estado de espírito que as vítimas carregam hoje.
Conclusão
“Um Amigo, Um Assassino” é, sem dúvidas, uma obra densa que divide opiniões. De um lado, funciona brilhantemente como um estudo psicológico aterrorizante sobre sociopatia e as máscaras que as pessoas vestem no dia a dia. De outro, escorrega feio na ética ao expor feridas de crimes recentes contra a vontade das famílias, esticando uma premissa que não precisava de três episódios.
É um documentário que vale a pena assistir se você tem estômago para lidar com a complexidade das relações humanas, mas que vai te deixar com um gosto amargo e olhando desconfiado para o lado na sua próxima roda de amigos.
















