Parque Lezama crítica do filme argentino da Netflix 2026 - Flixlândia

A arte de envelhecer conversando: reflexões sobre ‘Parque Lezama’, a nova comédia da Netflix

Foto: Netflix / Divulgação
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Se você é do tipo que gosta de explosões, reviravoltas frenéticas e mudanças constantes de cenário, talvez o novo lançamento da Netflix não seja para você. Dirigido pelo renomado cineasta argentino Juan José Campanella, “Parque Lezama” chegou à plataforma de streaming prometendo uma experiência muito mais intimista.

O filme, que é uma adaptação da peça da Broadway de 1985 “I’m Not Rappaport”, de Herb Gardner, não tenta disfarçar sua raiz nos palcos. Pelo contrário, a obra abraça sua essência teatral e nos convida a simplesmente sentar e ouvir a conversa de dois homens idosos que, contra todas as probabilidades, acabam formando um laço único na capital argentina.

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Sinopse

A história gira quase que inteiramente em torno dos encontros de León Schwartz (Luis Brandoni) e Antonio Cardozo (Eduardo Blanco) no tradicional Parque Lezama, em Buenos Aires. León é um idoso verborrágico, imaginativo e cheio de histórias grandiosas, que jura de pés juntos ter sido um ativista comunista, enfrentado autoridades e até trabalhado como espião.

Do outro lado do banco, temos Antonio, o extremo oposto: um zelador pragmático, cauteloso e silencioso, que está lidando com a perda gradual de sua visão e morre de medo de perder o emprego por causa de um novo administrador burocrático, Gonzalo (interpretado por Agustin Aristarán). O que começa como uma convivência cheia de irritações mútuas, transforma-se aos poucos em uma amizade onde mentiras piedosas e confissões se misturam.

Crítica do filme Parque Lezama

A força (e o peso) da origem teatral

Fica muito claro desde o início que estamos assistindo a uma peça filmada. Para o bem e para o mal, Campanella escolheu manter a narrativa focada nos diálogos e nas atuações, raramente tirando a câmera do parque. Para alguns, essa escolha é um acerto cheio de sensibilidade, permitindo que o filme encontre o ritmo ideal para desenvolver a química inegável entre Brandoni e Blanco.

Por outro lado, essa fidelidade extrema ao formato teatral faz com que a obra soe demasiadamente estática e perca o dinamismo que a linguagem cinematográfica poderia oferecer, dando a impressão de que a adaptação não traz recursos visuais que justifiquem a sua transposição para as telas.

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Foto: Netflix / Divulgação

O contraste entre León e Antonio

O coração do filme bate forte graças ao choque dessas duas personalidades. A atuação sublime de Brandoni dá vida a um contador de histórias frenético, que usa a fantasia como um escudo contra o esquecimento. Já Eduardo Blanco traz o contraponto perfeito na pele de Antonio, compondo um personagem mais melancólico e resignado.

No entanto, vale fazer uma ressalva técnica que quebra um pouco a magia: na vida real, Blanco é bem mais novo que Brandoni e a maquiagem usada para envelhecê-lo acaba sendo uma distração, parecendo, em alguns momentos, artificial demais ao lado de um colega de elenco que traz a bagagem autêntica da idade.

A invisibilidade na terceira idade

O grande trunfo de “Parque Lezama” não está em descobrir se as histórias mirabolantes de León são verdadeiras ou falsas, mas em entender o porquê de ele contá-las. O roteiro acerta em cheio ao mostrar como a sociedade empurra os idosos para a invisibilidade.

Interações periféricas, como a relação difícil de León com sua filha Clarita (Verónica Pelaccini) e os atritos de Antonio com seu chefe, mostram que as tagarelices e os exageros são, na verdade, uma forma de resistir ao apagamento. Para León, mentir é se manter vivo; para Antonio, ouvir o amigo passa a ser um resgate da própria voz.

Reflexões vazias ou profundidade cotidiana?

Apesar de carregar temas pesados, a recepção do texto divide opiniões. Há quem sinta que o filme peca por não aprofundar suas questões políticas e sociais. Visto por uma lente mais cínica, os discursos de León podem soar apenas como palavras vazias e cansativas, tornando a longa duração do filme um verdadeiro teste de paciência, onde debates outrora afiados viram um simples monólogo de um homem irritante.

Contudo, se abraçarmos a proposta com menos cinismo, a narrativa oferece um humor pitoresco e uma pausa muito bem-vinda na aceleração do mundo moderno, entregando uma reflexão terna sobre amizade e identidade no final da vida.

Conclusão

“Parque Lezama” encerra sua jornada sem grandes reviravoltas ou finais clichês, apostando num desfecho sutil onde o mistério do passado de León perde a importância diante do vínculo estabelecido no presente. É um filme imperfeito, que pode frustrar os espectadores à procura de uma trama ágil ou de um aprofundamento sociopolítico mais denso.

Mas, para quem estiver disposto a simplesmente sentar no banco de praça com a mente aberta, Campanella entrega uma obra sensível que lembra que, às vezes, a melhor forma de combater a solidão é ter alguém disposto a ouvir suas maiores loucuras ao seu lado.

Onde assistir online ao filme Parque Lezama?

Trailer de Parque Lezama (2026)

YouTube player

Elenco de Parque Lezama, da Netflix

  • Luis Brandoni
  • Eduardo Blanco
  • Verónica Pelaccini
  • Agustín Aristarán
  • Manuela Menéndez
  • Alan Fernández
  • Matías Alarcón
Escrito por
Wilson Spiler

Formado em Design Gráfico, Pós-graduado em Jornalismo e especializado em Jornalismo Cultural, com passagens por grandes redações como TV Globo, Globonews, SRZD e Ultraverso.

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