A Netflix acaba de lançar Vladimir, uma minissérie de oito episódios que mistura comédia de humor ácido, drama psicológico e uma dose generosa de delírio. Baseada no aclamado livro de Julia May Jonas (que também atua como criadora da série), a produção nos joga direto na mente caótica de uma mulher de meia-idade lidando com o medo da irrelevância e com desejos reprimidos.
Se você estava procurando algo fácil de maratonar — já que os episódios têm curtíssimos 20 a 30 minutos —, essa história cheia de personagens moralmente questionáveis pode ser a sua próxima obsessão televisiva.
Sinopse
A trama acompanha uma professora de escrita criativa de uma faculdade de artes liberais, vivida por Rachel Weisz, cujo nome nunca é revelado ao espectador. A vida dela vira de cabeça para baixo quando seu marido, o também professor John (John Slattery), torna-se alvo de uma investigação por conta de vários casos que teve com alunas na década passada.
Como eles sempre tiveram um acordo de casamento aberto, a protagonista não vê a situação como uma traição, mas a pressão externa e o escândalo a deixam sufocada. É nesse cenário turbulento que surge a sua “válvula de escape”: Vladimir (Leo Woodall), um novo e carismático professor do departamento. A protagonista desenvolve uma fixação fulminante pelo colega mais jovem, mesmo ele sendo casado com a também professora Cynthia (Jessica Henwick).
Crítica da série Vladimir, da Netflix
O show de Rachel Weisz e a quebra da quarta parede
Rachel Weisz literalmente carrega a série nas costas com uma atuação brilhante. Ela não só domina a tela, como também conversa diretamente conosco, quebrando a quarta parede num estilo que inevitavelmente remete ao sucesso de Fleabag.
A grande diferença aqui é que, enquanto a personagem de Phoebe Waller-Bridge usava esse recurso com muita autoconsciência, a professora de Vladimir é a rainha da autoilusão. Ela narra seus pensamentos tentando nos convencer de suas mentiras e grandiosidades, mas a câmera inteligentemente a desmente.
O melhor exemplo disso ocorre logo no primeiro episódio, quando ela se gaba de que todos os colegas devoraram a sua salada em uma reunião de departamento; logo em seguida, a imagem nos mostra a tigela completamente intocada. Weisz brilha ao mostrar as vulnerabilidades, o constrangimento e a veia cômica dessa personagem complexa.

Expectativa de suspense erótico, mas a realidade…
Apesar de o marketing e o pôster provocativo tentarem vender a série como um thriller erótico super sensual, a verdade é que Vladimir acaba sendo muito mais cômica e meio absurda do que realmente “quente”. O foco está quase todo preso na mente da protagonista, então vemos muitos de seus devaneios, mas eles acabam soando um pouco clichês e até “baunilha” na prática.
Fica a sensação de que a série teve medo de mergulhar de cabeça nos seus impulsos mais bizarros, segurando a onda em vez de abraçar o caos total que fervia debaixo da superfície. Outro detalhe que quebra um pouco o encanto é o descompasso do elenco: por mais que Leo Woodall seja charmoso e um ótimo ator, é difícil comprar a ideia de que a deslumbrante personagem de Rachel Weisz estaria tão desesperadamente fora de si por ele, passando a impressão de que ela é muita areia para o caminhão dele.
Cancelamento acadêmico e moralidade duvidosa
A subtrama do escândalo sexual do marido, John, acaba se revelando um dos pontos mais espinhosos da série. É ao mesmo tempo fascinante e incômodo observar como a protagonista tenta racionalizar os abusos de poder de John, batendo repetidamente na tecla de que “eram outros tempos” e chegando ao ponto de culpar o excesso de internet pelo trauma das vítimas.
O roteiro acerta ao não tentar redimir a protagonista, mostrando todo o egoísmo e a confusão de uma geração tentando lidar com a era do #MeToo. Porém, em alguns momentos, a série parece não saber muito bem que mensagem quer passar, limitando-se a arranhar a superfície do debate sem se aprofundar de verdade nas complexidades do tema.
Um final incendiário e cheio de dúvidas
Se você gosta de finais bem mastigadinhos, prepare-se para se frustrar. A minissérie altera drasticamente o desfecho do livro original. No último episódio, a protagonista, o marido e Vladimir acabam juntos em uma cabana afastada e, após uma noite de discussões intensas, o local pega fogo.
A protagonista narra para nós que salvou a todos, mas a cena a mostra sozinha com a casa em chamas ao fundo, perguntando ao público se nós não acreditamos nela. A grande sacada é que a série deixa no ar se esse incêndio aconteceu de verdade e ela omitiu as mortes, ou se o fogo é apenas o final explosivo e libertador que ela escreveu para o próprio livro que estava desenvolvendo. É um encerramento abrupto e super ambíguo, que subverte totalmente as expectativas.
Conclusão
No fim das contas, Vladimir pode não ser a obra-prima definitiva que promete ser, falhando em aprofundar suas temáticas mais sérias e segurando a mão no erotismo. Ainda assim, é um entretenimento ágil, desconfortável e extremamente viciante.
É o tipo de produção perfeita para devorar em uma sentada só, nem que seja apenas para aplaudir Rachel Weisz esbanjando talento cômico enquanto sua personagem lida com o próprio declínio tomando as piores e mais caóticas decisões possíveis.
Onde assistir online à série Vladimir?
Trailer de Vladimir (2026)
Elenco de Vladimir, da Netflix
- Rachel Weisz
- Leo Woodall
- John Slattery
- Jessica Henwick
- Ellen Robertson
- Matt Walsh


















