A Noiva 2026 crítica do filme spoilers - Flixlândia (1)

‘A Noiva!’: releitura de Frankenstein foca na violência e em manifesto feminista

Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures
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Esqueça os castelos góticos empoeirados e os cientistas loucos gritando “Está vivo!”. Em seu segundo e ambicioso longa-metragem na direção, Maggie Gyllenhaal pega o mito literário imortalizado por Mary Shelley e o joga nas ruas sujas, perigosas e iluminadas a neon da Chicago dos anos 1930. O resultado é “A Noiva!”, uma obra maximalista, imperfeita e absurdamente corajosa.

O filme funciona como uma mistura alucinante de horror corporal, manifesto feminista e um romance à la Bonnie e Clyde — pontuado por números musicais inusitados que prestam homenagem ao cinema da época e flertam abertamente com a estética caótica de Coringa: Delírio a Dois.

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Sinopse

A Noiva acompanha o Frankenstein (Christian Bale), uma criatura que já atravessou um século de existência e carrega o peso da solidão como sua maior condenação. Longe de ser apenas força bruta, esse monstro é sensível, introspectivo e profundamente carente de afeto. Sua busca não é por vingança ou pertencimento social, mas por amor — algo que o mundo insiste em negar a ele.

É a partir desse vazio que surge a figura da Dra. Euphronius, interpretada por Annette Bening, uma cientista que transita entre a ética e a obsessão. Juntos, eles desenterram o corpo da futura noiva e a trazem de volta à vida. No entanto, essa mulher retorna sem memória, sem identidade e sem consciência do papel que teve antes de morrer — um detalhe que a conecta a uma investigação policial envolvendo a máfia de Chicago nos anos 1930.

Crítica do filme A Noiva (2026)

A possessão literária e o nascimento do caos

O filme já começa subvertendo expectativas ao trazer o espírito da própria Mary Shelley (interpretada com um sotaque afiado por Jessie Buckley) presa em uma espécie de purgatório. Determinada a contar a história que lhe foi negada em vida, ela possui o corpo de Ida (também Buckley), uma mulher impetuosa da Chicago de 1936. Após ser silenciada pela violência masculina e jogada escada abaixo até a morte, Ida se torna o receptáculo perfeito para o experimento da misteriosa Dra. Euphronius (Bening, brilhante em sua ambiguidade de gênero desafiadora para a época).

Do outro lado, temos Frank (Christian Bale), o monstro original que carrega consigo cicatrizes profundas e uma solidão esmagadora. Bale entrega um Frankenstein vulnerável e ingênuo, afastando-se do terror puro para focar no desespero de alguém que anseia por conexão. Quando a Dra. Euphronius atende ao pedido de Frank e ressuscita Ida, nasce a Noiva.

No entanto, em vez da companheira dócil e submissa que Frank imaginava, emerge uma força da natureza incontrolável. Com um vestido laranja bufante, cabelos frisados e a icônica mancha preta de fluidos químicos na boca, Buckley entrega uma das atuações mais viscerais do ano — oscilando entre a inocência de um recém-nascido e a fúria de uma mulher que se recusa a ser silenciada novamente.

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Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures

“Eu preferiria não”: autonomia e a fúria feminina

A genialidade de “A Noiva!” reside em como Gyllenhaal utiliza o existencialismo para pavimentar a rebelião de sua protagonista. A Noiva adota como mantra a famosa frase de Bartleby, personagem de Herman Melville: “Eu preferiria não” (I would prefer not to). Mas enquanto em Melville a frase era um símbolo de passividade, aqui ela é uma arma. A Noiva prefere não obedecer. Ela prefere não sorrir. Ela prefere não se adequar ao que Frank, os homens ao seu redor ou a sociedade esperam dela.

Quando Frank e a Noiva se veem forçados a revidar a violência masculina, eles se tornam foragidos. A narrativa engata uma marcha de road movie criminoso, onde a relação disfuncional, passional e transgressora dos dois remete fortemente à dinâmica de Arthur Fleck e Harley Quinn (Lady Gaga) na sequência de Coringa.

A perseguição a esse monstruoso “Bonnie e Clyde” é iniciada pelo detetive Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e sua sagaz parceira Myrna Mallow (Penélope Cruz). A presença de Myrna adiciona uma camada extra à crítica do roteiro: mesmo estando do lado da lei e sendo fundamental na caçada, a detetive sofre constantemente com o machismo e o sexismo das autoridades locais.

A escolha de ambientar a obra na década de 1930 não é acidental. A época evoca diretamente a efervescência da primeira onda feminista e as recém-conquistadas vitórias do sufrágio feminino, usando o passado para espelhar as lutas por autonomia que continuam vivas hoje. Inspiradas pela rebeldia da Noiva, as mulheres da cidade começam a pintar os lábios e os rostos de preto em um protesto literal e sangrento contra a misoginia. É um levante popular furioso que lembra, propositalmente, a catarse anárquica e incendiária do final do primeiro filme do Coringa.

O final explicado: escolha livre, tragédia e ressurreição

O clímax do filme é onde as amarras da tragédia gótica e do romance se encontram em seu ponto mais alto. Após uma jornada de descobertas e delírios visuais, Frank finalmente entende que o amor não é posse. Ele a pede em casamento, mas a resposta dela é a culminação de todo o arco feminista da obra.

Ela rejeita o nome Ida, rejeita o apelido Penny Pretty e avisa que seu nome agora é simplesmente A Noiva. Diante do pedido, ela dispara: “Acho que você não entendeu. Não sou noiva de ninguém. Eu preferiria não”. Imediatamente após negar o rótulo, ela escolhe ficar com ele — não por obrigação ou porque foi “criada” para isso, mas por pura vontade própria e afeto genuíno.

A felicidade dura apenas os segundos necessários para tornar a tragédia mais amarga. A polícia corrupta, agindo a mando do impiedoso chefe da máfia Lupino (vivido pelo grandalhão Zlatko Burić, rosto conhecido pelo papel do bilionário russo no filme-catástrofe 2012), invade o esconderijo e atira em Frank. Desesperada, a Noiva arrasta o corpo de volta ao laboratório da Dra. Euphronius, que inicialmente hesita em salvá-lo para poder estudá-lo. A polícia invade o local e fuzila a Noiva.

É neste momento que Myrna entra em cena como o fiel da balança. Assumindo a autoridade, a detetive ordena que todos os policiais deixem o laboratório imediatamente sob a premissa de “não manchar as evidências da cena do crime”, dando tempo e espaço para que a doutora fique sozinha com os corpos.

O que se segue é poesia pura. Vendo os corpos de Frank e da Noiva empilhados, a Dra. Euphronius percebe que está diante da história de amor mais improvável do mundo. Em um eco subvertido das icônicas falas finais de Romeu e Julieta — adaptando o famoso “Pois nunca houve história de mais dor / Do que a de Julieta e seu Romeu” para a realidade trágica de “A Noiva e seu Frankenstein” —, Gyllenhaal transforma o fim em um novo começo. Um raio colossal atinge o prédio, canalizando eletricidade para a sala. O filme corta para a escuridão, e a última imagem antes dos créditos é a das mãos monstruosas de ambos ganhando vida mais uma vez e se entrelaçando.

Vingança nos créditos

Para garantir que a faísca da revolução não se apagou, os créditos sobem acompanhados da concretização do movimento radical que a Noiva inspirou. Vemos as mulheres manchadas de preto executando sua vingança final contra Lupino, o gângster que orquestrou a morte do casal, selando a obra não apenas como um romance de monstros, mas como o nascimento de uma nova era.

Conclusão

“A Noiva!” é caótico, estridente e, por vezes, sobrecarregado por suas próprias ideias grandiosas. Mas em um cenário cinematográfico acostumado a jogar no seguro, a visão de Maggie Gyllenhaal tem “gasolina na pele”. É um filme possuído por um poder justo, destinado a dividir opiniões, mas impossível de ser ignorado.

Onde assistir ao filme A Noiva?

O filme estreia nesta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.

Trailer de A Noiva (2026)

YouTube player

Elenco do filme A Noiva

  • Jessie Buckley
  • Christian Bale
  • Peter Sarsgaard,
  • Jake Gyllenhaal
  • Penélope Cruz
  • Annette Bening
Escrito por
Cadu Costa

Cadu Costa era um camisa 10 campeão do Vasco da Gama nos anos 80 até ser picado por uma aranha radioativa e assumir o manto do Homem-Aranha. Pra manter sua identidade secreta, resolveu ser um astro do rock e rodar o mundo. Hoje prefere ser somente um jornalista bêbado amante de animais que ouve Paulinho da Viola e chora pelos amores vividos. Até porque está ficando velho e esse mundo nem merece mais ser salvo.

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