Se você achava que o cinema sul-coreano já tinha entregado tudo o que podia sobre desigualdade social com Parasita, prepare-se. Park Chan-wook, o mestre por trás de Oldboy e A Criada, voltou com tudo. Desta vez, ele deixa de lado a vingança puramente visceral para nos jogar numa comédia de erros brutal sobre o mercado de trabalho em A Única Saída (No Other Choice).
O filme, que é o candidato da Coreia do Sul ao Oscar de 2026 e já passou pela Mostra de São Paulo, prova que o diretor continua afiado, misturando tensão e risadas naquelas situações em que a gente não sabe se gargalha ou se esconde debaixo da cadeira. É uma sátira que bate na tecla da decadência da elite, mas com um humor físico que beira o ridículo — no bom sentido.
Sinopse
A trama gira em torno de Man-su (interpretado pelo genial Lee Byung-hun, de Round 6), um especialista na fabricação de papel com 25 anos de casa. Ele tem aquela vida de comercial de margarina: esposa dedicada (Son Ye-jin), filhos, cachorros e a certeza de que “tem tudo o que precisa”. Só que o tapete é puxado com força quando ele é demitido.
O que era para ser uma recolocação rápida de três meses vira um pesadelo de mais de um ano pulando de entrevista em entrevista e fazendo bicos no comércio. Com a casa em risco e a dignidade no lixo após ser humilhado por um gerente, Man-su toma a decisão mais racional (na cabeça dele, claro): se não há vagas para todos, ele precisa eliminar a concorrência. Literalmente. Ele decide matar os outros candidatos qualificados para garantir o emprego dos sonhos na Moon Paper.
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Resenha crítica do filme A Única Saída
O charme do assassino atrapalhado
O grande trunfo de A Única Saída é não levar a violência a sério do jeito “cool” de um filme de ação. Esqueça o assassino frio e calculista. Man-su é um desastre. O filme é, na verdade, uma refilmagem de O Corte (2005), de Costa-Gavras, mas Park Chan-wook muda o tom: enquanto o original focava na frieza, aqui o foco é o patético.
As cenas de assassinato são exageradas e desastradas, lembrando muito o humor ácido de Fargo. Tem uma sequência brilhante — talvez a melhor do filme — em que três personagens brigam por uma arma enquanto a música está no volume máximo para abafar o som, criando um caos tragicômico.
Lee Byung-hun domina a tela, entregando um personagem que transpira nervosismo e desespero, com um timing cômico impecável, especialmente quando ele tenta esconder a própria incompetência no crime.

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Dor de dente e podridão moral
Park Chan-wook adora uma metáfora, e aqui ela vem na forma de uma dor de dente constante que Man-su sente. Ele não tem dinheiro (ou coragem) para tratar, e isso vira o símbolo físico de sua decadência moral. É genial ver como o roteiro amarra isso: ele só consegue se livrar da dor quando finalmente abraça seu lado sombrio, arranca o dente com um alicate (após beber um pouco) e aceita que, para vencer nesse sistema, ele precisa deixar a moralidade de lado.
O filme martela a ideia de que o “vazio” da classe alta é cruel e engraçado ao mesmo tempo. A esposa, Mi-ri, começa como a voz da razão, mas a narrativa é tão perversa que até ela acaba, de certa forma, cúmplice, aceitando os atos do marido em nome da estabilidade da família e do talento musical da filha. É um retrato de uma sociedade onde as pessoas “boas” estão dispostas a aceitar atrocidades se isso garantir segurança.
A falência do “homem de sucesso”
No fundo, o filme é um estudo sobre a fragilidade da masculinidade e do status. Man-su descobre que foi substituído não por alguém melhor, mas por processos e eficiência — uma crítica direta à automação e ao capitalismo selvagem. O título original, que se traduziria como “Sem Outra Escolha”, é a desculpa perfeita que o sistema dá para demitir alguém, e que Man-su adota para matar.
Diferente de filmes anteriores do diretor, que podiam ser extremamente violentos, aqui a violência serve para expor o ridículo. Park filma a ruína desses personagens não com frieza, mas como uma farsa. É interessante notar a comparação com Cloud, de Kiyoshi Kurosawa: ambos tratam de pessoas que viram espectros de si mesmas tentando manter o controle de um mundo que já desmoronou.
Conclusão
A Única Saída entrega um final que é, ironicamente, “feliz”, mas profundamente sombrio. Man-su consegue o que queria, mas a um custo moral impagável, terminando sozinho em uma fábrica automatizada, celebrando uma vitória vazia.
Não espere a brutalidade visceral de Oldboy, mas sim uma montanha-russa de vergonha alheia, tensão e risadas nervosas. É um filme visualmente inventivo, com a assinatura estética impecável de Park, que nos faz rir do absurdo para não chorar da realidade. Se você gosta de cinema que mistura crítica social afiada com situações bizarras, esse aqui é obrigatório.
Onde assistir ao filme A Única Saída?
O filme estreia nesta quinta-feira, dia 22 de janeiro de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de A Única Saída (2026)
Elenco do filme A Única Saída
- Lee Byung-hun
- Son Ye-jin
- Park Hee-soon














