crítica do filme Alpha de 2026

Vá de mente aberta para assistir ‘Alpha’

Foto: O2 Play / Divulgação
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Quando Julia Ducournau chocou o mundo em 2021 ao faturar a cobiçada Palma de Ouro com Titane, a expectativa para o seu próximo passo foi parar nas nuvens. Afinal, ela se consolidou como uma das vozes mais originais e viscerais do cinema contemporâneo, destrinchando o body horror de forma única desde a sua estreia com Grave (2016).

Agora, com Alpha (2026), a diretora retorna aos holofotes e à competição de Cannes causando exatamente o que sabe fazer de melhor: uma divisão extrema de opiniões. Enquanto parte do público embarca nessa jornada dramática e surreal, chamando-a de obra-prima, a crítica especializada oscila entre o fascínio visual e a frustração com um roteiro que parece se perder no próprio labirinto.

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Sinopse

A trama acompanha Alpha (Mélissa Boros), uma adolescente de 13 anos que vive com sua mãe, uma médica superprotetora apelidada de Maman (Golshifteh Farahani). O mundo dessa família problemática vira de cabeça para baixo quando a garota volta de uma festa com um “A” tatuado no braço, feito com uma agulha suja de procedência duvidosa.

O desespero da mãe tem motivo: o mundo enfrenta uma epidemia brutal e misteriosa que petrifica a pele dos infectados, transformando-os em estátuas de mármore. Como se a ameaça do vírus não fosse suficiente, a dinâmica da casa entra em colapso com o retorno do tio Amin (Tahar Rahim), um dependente químico que luta contra o vício em heroína.

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Crítica do filme Alpha (2026)

Uma alegoria visualmente chocante, mas superficial

Se tem uma coisa que Julia Ducournau domina é a estética do desconforto. Em Alpha, ela utiliza o vírus da petrificação como uma metáfora escancarada para a epidemia de AIDS que aterrorizou as décadas passadas, abordando o pânico moral, o estigma e a marginalização dos doentes.

A ideia de corpos se transformando em pó e mármore rende visuais belíssimos e grotescos ao mesmo tempo, como a sequência angustiante de um clube noturno onde infectados em vários estágios dançam. Outro momento que gruda na memória é o horror de uma biópsia que faz o espectador se contorcer na cadeira.

Porém, visual à parte, a execução narrativa dessa alegoria deixa muito a desejar. O roteiro joga tantas ideias no ar que acaba esvaziando o impacto do seu próprio tema. O que era para ser uma reflexão profunda sobre desumanização e preconceito muitas vezes soa raso e repetitivo, passando a sensação de que o vírus de mármore é apenas um artifício estiloso para chocar, e não uma ferramenta que realmente aprofunda o desenvolvimento do universo e dos personagens.

Alpha crítica do filme 2026
Foto: O2 Play / Divulgação

O peso das atuações

Se o roteiro patina na própria ambição, o elenco carrega o filme nas costas com atuações espetaculares. A estreante Mélissa Boros entrega uma performance crua e cheia de melancolia, capturando perfeitamente o desespero de uma jovem que só queria ter uma adolescência normal no meio do caos.

Já Tahar Rahim impressiona pelo comprometimento físico — o ator perdeu cerca de 20 kg para encarnar as dores e a fragilidade do tio Amin, personificando brilhantemente a sombra do abandono social. Mas o grande coração pulsante da trama é Golshifteh Farahani. Ela consegue equilibrar a linha tênue entre a paranoia controladora de uma mãe apavorada e o amor incondicional, rendendo os momentos mais genuínos e tocantes do filme, onde o horror dá uma trégua para mostrar o peso do luto e do trauma geracional.

Um labirinto confuso de memórias

Da metade para o fim, Alpha abandona a linearidade e abraça o delírio, mesclando passado e presente de forma que exige muito do espectador. A fotografia é inteligente ao inverter a lógica: o passado é banhado em cores quentes, enquanto o presente sufoca numa paleta fria e sem vida.

Essa confusão estrutural alimenta teorias fascinantes. Há quem leia o filme não como uma história literal sobre um vírus, mas como um thriller psicológico sobre uma psicose compartilhada. Nessa visão, o tio Amin já teria morrido de overdose há mais de uma década, e o “vírus de mármore” nada mais é do que a calcificação do luto, a recusa da mãe em enterrar o passado, infectando a própria filha com essa neurose.

É um conceito ousado, culminando numa cena poética e apocalíptica de desintegração urbana, mas a montagem caótica e as múltiplas reviravoltas nos minutos finais testam a paciência do público. Em vez de se entregar à emoção, você passa os últimos minutos tentando montar um quebra-cabeça.

Alpha é um bom filme?

Alpha está longe de ser a obra-prima irretocável que consolidou o nome de sua criadora, mas também não merece o título de desastre total que alguns críticos tentaram colar nele. O novo trabalho de Julia Ducournau é falho, denso e muitas vezes tropeça na própria prepotência de querer abraçar dramas demais ao mesmo tempo — luto, vício, puberdade, preconceito.

Ainda assim, é inegável que a cineasta tem uma visão criativa que foge completamente da mesmice do cinema atual. Para o bem ou para o mal, é uma experiência visceral e provocativa que vai grudar na sua mente. Se você gosta de filmes que te tiram da zona de conforto e não têm medo do grotesco, vale muito a pena conferir e tirar as próprias conclusões. Mas vá de mente aberta e preparado para respirar poeira.

Onde assistir ao filme Alpha?

Alpha está em cartaz nos cinemas brasileiros.

Trailer de Alpha (2026)

YouTube player

Elenco do filme Alpha, de 2026

  • Mélissa Boros
  • Golshifteh Farahani
  • Tahar Rahim
  • Emma Mackey
  • Finnegan Oldfield
  • Louai El Amrousy

Ficha Técnica

  • Título: Alpha
  • Direção e Roteiro: Julia Ducournau
  • Ano: 2025
  • Duração: 128 minutos
  • Países de Produção: França / Bélgica
  • Gênero: Drama, Terror, Realismo Fantástico
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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