Se a A24 virou sinônimo de terror que divide opiniões, Undertone chega com os dois pés na porta para provar que a produtora continua afiada. Prometido pela forte campanha de marketing como “o filme mais assustador que você já ouviu”, o longa que marca a estreia de Ian Tuason na direção vem dando o que falar desde que passou pelos festivais Fantasia e Sundance.
Elogiado por ninguém menos que Stephen King, mas detonado por parte do público por conta do ritmo lento, o filme propõe uma imersão sensorial que te obriga a apagar as luzes, colocar bons fones de ouvido e questionar cada sombra da sua casa.
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Sinopse
A trama acompanha Evy (Nina Kiri), uma jovem cética que apresenta um podcast de madrugada sobre casos paranormais junto com seu amigo Justin (Adam DiMarco). Evy se mudou de volta para a casa onde cresceu com o objetivo de ser cuidadora em tempo integral da mãe doente, que está em coma e acamada no andar de cima.
A rotina exaustiva ganha contornos bizarros quando Justin recebe dez arquivos de áudio misteriosos enviados de forma anônima. As faixas documentam a rotina de um casal, Mike e Jessa, que começa a gravar fenômenos sinistros e vozes perturbadoras dentro da própria casa. Conforme Evy e Justin ouvem as fitas para o podcast, os eventos dos áudios começam a espelhar a vida da protagonista, libertando uma influência maléfica e sugerindo que forças do além estão usando a frequência sonora para invadir a realidade.
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Crítica do filme Undertone (2026)
O poder do terror sonoro e o peso do luto
Em uma era em que o horror muitas vezes se apoia em monstros gerados por computador ou banhos de sangue, Undertone faz um caminho minimalista: ele usa o seu próprio cérebro contra você. O verdadeiro protagonista aqui é o design de som, que é impecável e merecia facilmente uma indicação ao Oscar. O uso do cancelamento de ruído e as bizarrices acústicas — como as cantigas de ninar distorcidas e tocadas de trás pra frente, revelando rituais — provocam uma sensação contínua de calafrio.
Mas a cereja do bolo é a motivação emocional da narrativa. O longa entra com força no subgênero do terror focado no luto (o grief-forward horror), na mesma prateleira de obras como O Babadook e Hereditário. Ian Tuason usou sua própria ferida para criar a história: as gravações ocorreram na verdadeira casa onde ele cresceu, no Canadá, mesmo lugar em que ele cuidou de seus pais em estado terminal até a morte deles.
Essa bagagem reflete profundamente na narrativa. A figura demoníaca da trama, Abyzou (que no folclore é vista como a tomadora de crianças), conecta-se perfeitamente aos medos de Evy, já que descobrimos que ela está grávida, e sua exaustão mental esbarra na culpa pelo desejo subconsciente de que a mãe morra logo para aliviar seu fardo. O terror não vem apenas do escuro, mas do peso geracional.

A divisão do público: obra-prima ou tédio?
Como toda obra muito conceitual da A24, a recepção foi um verdadeiro “ame ou odeie”. A crítica profissional, em sua maioria, abraçou o formato, rendendo ao longa aprovações iniciais de 88% no Rotten Tomatoes. Muitos exaltaram o uso tenso do espaço negativo da casa — os constantes planos abertos de corredores escuros que te deixam paranoico esperando um jump scare que, na maioria das vezes, nem acontece.
Por outro lado, não dá para ignorar as falhas estruturais que enfureceram parte da audiência. O ritmo é o clássico slow-burn extremado, levando críticos a apontarem que a obra tem cerca de oitenta minutos de pura construção para pouquíssima recompensa real no final.
Além disso, o roteiro apresenta fragilidades práticas: quem tem o mínimo de familiaridade com podcasts fica irritado ao ver os protagonistas gravando o programa de cinco em cinco minutos, picotando a imersão ao longo de várias madrugadas de um jeito nada verossímil. E o final propositalmente ambíguo, focado em um “apagão” sensorial, frustrou muita gente que buscava respostas definitivas.
Atuações solitárias e os próximos passos de Tuason
Quase todo o peso físico da produção recai sobre Nina Kiri, uma vez que Adam DiMarco existe basicamente como uma voz no fone de ouvido de Evy. Kiri entrega uma performance contida, que segura bem a vulnerabilidade de alguém perdendo a sanidade, ainda que alguns críticos apontem que seu leque de expressões fica um tanto repetitivo quando o pânico se instaura de vez.
O grande vencedor dessa aposta é, sem dúvida, o diretor. Com orçamento microscópico de US$ 500 mil, ele fez Undertone arrecadar mais de 40 vezes o seu custo nas bilheterias mundiais. O barulho gerado já fez a A24 dar o sinal verde para o cineasta pensar em uma trilogia, e seu domínio na construção de tensão de baixo orçamento chamou a atenção dos gigantes James Wan e Jason Blum, que já o contrataram para dirigir o próximo capítulo da franquia Atividade Paranormal.
Undertone é um bom filme?
Undertone não é um terror para a grande massa, tampouco uma montanha-russa de sustos mastigados. É uma obra experimental que exige fones de ouvido e uma dose grande de paciência para funcionar.
Apesar de seus deslizes de roteiro e da barriga no ritmo, a exploração do luto e a engenharia acústica tornam a experiência digna da atenção de quem gosta de sair do cinema desconfortável. Se você comprar a ideia, vai passar bons dias encarando o corredor escuro da sua própria casa, prestando atenção em sons que não deveria ouvir.
Onde assistir ao filme Undertone?
- HBO Max
Trailer de Undertone (2026)
Elenco do filme Undertone
- Nina Kiri
- Adam DiMarco
- Michèle Duquet
Ficha técnica
- Título: Undertone (2026)
- Direção e Roteiro: Ian Tuason
- Distribuição: A24 (EUA), HBO Max (Brasil)
- Orçamento: US$ 500 mil
- Arrecadação (estimada/mundial): US$ 21,5 milhões
- Duração: 84 – 94 minutos

















