Chegar ao final de uma série como Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, na HBO Max, não é uma experiência fácil, mas é, sem dúvida, necessária. Desde a sequência inicial, com o som agoniante dos tiros, a produção de Andrucha Waddington nos avisa: o grito de horror da Ângela (vivida brilhantemente por Marjorie Estiano) não é coisa do passado.
O último episódio, em especial, não só amarra a trajetória devastadora da “Pantera de Minas”, como funciona como um espelho chocante para o Brasil de hoje. É uma série que incomoda, dói e nos deixa com um misto de tristeza, raiva e um cansaço profundo.
Sinopse
A minissérie de seis episódios da HBO Max reconta o notório assassinato de Ângela Diniz pelo seu então companheiro, Doca Street (Emílio Dantas), em uma casa de praia em Búzios, em dezembro de 1976. Ângela era uma socialite mineira que chocou a sociedade conservadora da época por sua sexualidade livre, seu espírito autônomo e a decisão de deixar um casamento milionário para “gozar a vida”.
A série, inspirada no aclamado podcast “Praia dos Ossos”, de Branca Viana, narra a vida intensa de Ângela até o ponto fatal. O grande ponto de virada (e de revolta) é o julgamento subsequente, onde a defesa de Doca usou a infame tese da “legítima defesa da honra”, transformando a vítima em culpada, acusada de ser promíscua e mãe ausente. Doca acabou condenado a uma pena levíssima, uma decisão que abalou o país e gerou revolta.
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Resenha crítica do final da série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
Esta não é apenas mais uma produção true crime. A série acerta onde muitas tropeçam: ela se recusa a romantizar ou suavizar a tragédia, olhando para Ângela com profundidade e humanidade, não como um mero “caso”.
O desfecho esmagador e o gosto amargo da injustiça
O clímax no último episódio é um soco no estômago. Mesmo sabendo da história, o final é revoltante. É impossível não sentir raiva pela maneira como o sistema e parte da opinião pública da época ovacionaram Doca e esmagaram a história de Ângela.
O episódio final exibe o quanto uma mulher, por ser autoconfiante, tátil, sexualmente livre e, nas palavras da série, uma “máquina de sedução”, é vista como “o jeito errado de ser”. O discurso da defesa de Doca, defendido por Evandro Lins e Silva (Antonio Fagundes), de que “ela provocou” e “ele foi levado ao limite” ecoa de forma perturbadora com a violência contra a mulher de hoje.

Atuações de arrepiar e roteiro cirúrgico
O acerto da série passa diretamente pelas atuações. Marjorie Estiano entrega uma performance absurda, capturando a força, a sensualidade e a dor de uma Ângela em constante estado de lascívia, mas também refém de sua busca pela liberdade. Seu contato visual, o gostar de tocar as pessoas, o amor incondicional pela filha; tudo isso é transmitido com uma desenvoltura e altivez que nos tornam íntimos da personagem.
Do lado oposto, Emílio Dantas consegue a proeza de tornar Doca Street ainda mais canalha (se é que é possível), um homem inseguro e irracional que tenta abater o “animal selvagem” que não pode ter por inteiro. A dinâmica entre os dois, um relacionamento tempestuoso que migra rapidamente para o cativeiro com vista para o mar, é feita de forma magistral pelo roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares.
O espelho do Brasil: 1976 não é longe
A grande força da minissérie é sua urgência e pertinência. O timing do lançamento, com casos recentes de feminicídio em alta (como o terrível aumento em São Paulo e o caso Tainara Souza Santos, arrastada pelo ex-namorado), transforma o drama de época em um comentário social direto. A provocação é clara: “o que mudou no Brasil desde então?”.
A série te faz encarar o espelho de um país que ainda insiste em ver vítimas como coadjuvantes da própria tragédia e feminicidas como “homens apaixonados”. Assistir a isso, como mulher, é doloroso, pois você percebe que a morte está sempre muito perto, e que o olhar de Doca Street — aquele de posse, de quem não aceita a alegria da parceira se não for por ele — ainda nos persegue.
Conclusão
Ângela Diniz: Assassinada e Condenada é uma das melhores séries brasileiras do ano. Com direção competente de Andrucha Waddington (que repete o apuro estético em figurino e direção de arte), a obra transcende a reconstituição histórica para se tornar um manifesto. A série incomoda do jeito certo e, por isso, precisa existir.
Como a própria série lembra: “a justiça chegou tarde, mas Ângela deixou um legado”. O protesto “quem ama não mata”, mesmo com o pouco tempo dedicado na tela, ressoa. É um trabalho doloroso, necessário e impecável que nos lembra que Ângela traçou um caminho para a liberdade que, infelizmente, continua sendo perigoso e condenado por uma masculinidade tóxica e impune. Ângela Diniz, presente.
Onde assistir à série Ângela Diniz: Assassinada e Condenada?
- HBO e HBO Max
Trailer de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada (2025)
Elenco de Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, da HBO
- Marjorie Estiano
- Emilio Dantas
- Antonio Fagundes
- Thiago Lacerda
- Camila Márdila
- Yara de Novaes
- Thelmo Fernandes
- Renata Gaspar
- Tóia Ferraz
- Carolina Ferman
- Joaquim Lopes
- Emílio de Mello
- Marina Provenzzano

















