O cinema brasileiro contemporâneo encontra no interior do país um terreno fértil para desarmar as aparências e examinar as rachaduras da sociedade patriarcal. Em Ao Sabor das Cinzas, o cineasta Taciano Valério lança mão da atmosfera do Agreste pernambucano para construir um relato provocador sobre a morte, a incomunicabilidade e as fachadas morais que sustentam as estruturas familiares. Exibido na Mostra Olhos Livres da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, o longa-metragem transita por uma fronteira tênue entre o melodrama, o suspense policial e o realismo fantástico.
Com um tom analítico que evoca a crítica cultural e literária, o filme expõe como o luto pode deixar de ser apenas um rito de dor para se transformar em uma devassa inevitável dos segredos mais sombrios mantidos sob o tapete da tradição.
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A história e a teia de mistérios familiares
Um reencontro marcado pelo luto e a busca pelo corpo
A trama de Ao Sabor das Cinzas parte de um acontecimento cotidiano que rapidamente descamba para o absurdo. Duas irmãs com visões de mundo antagônicas, Bethânia e Laura, precisam se reencontrar após a morte do pai, o patriarca Seu Lauro. Bethânia carrega um perfil conservador e apegado às aparências morais, mantendo uma postura velada de desprezo e homofobia em relação a Laura, que vive um relacionamento com outra mulher.
O reencontro familiar, que deveria culminar no sepultamento e na escolha do local de descanso do patriarca, ganha contornos de pesadelo e mistério quando as irmãs descobrem que o corpo de Seu Lauro desapareceu do necrotério do hospital. A partir desse sumiço inexplicável, a busca pelo cadáver transforma a rodovia do Agreste pernambucano em um road movie existencial e sombrio.
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A revelação dos segredos e o colapso da imagem familiar
Enquanto as irmãs percorrem as estradas em busca do pai, uma segunda camada narrativa se desenvolve no ambiente doméstico. Isadora, filha de Bethânia, decide subverter o controle da mãe: ela não apenas antecipa a liberação do corpo no hospital como passa a editar vídeos de arquivos caseiros deixados pelo avô.
Através dessas montagens digitais, a imagem comercial de família perfeita se desfaz. O espectador descobre que o respeitado Seu Lauro e o genro advogado mantinham negócios ilícitos extremamente graves, envolvendo traições e o tráfico de pessoas. Os vídeos de Isadora operam como uma ponte entre os vivos e os mortos, transmitindo a verdade em tempo real e colocando em xeque a herança moral deixada pelo falecido.

Crítica do filme brasileiro Ao Sabor das Cinzas
Atuações de destaque e inventividade técnica
No aspecto interpretativo, o grande destaque de Ao Sabor das Cinzas é a atuação do veterano Everaldo Pontes. Encarnando Seu Lauro, o ator transita com enorme desembaraço entre a rigidez de um cadáver e a vitalidade de um morto-vivo hedonista que levanta do caixão para pedir café, acender cigarros e flertar com as funcionárias da funerária. Essa dimensão fantástica proporciona momentos de um humor macabro refinado, nos quais o absurdo da morte ganha contornos quase poéticos.
As atuações de Verônica Cavalcanti e Maria Lima também entregam a densidade necessária ao conflito fraterno, amparadas por coadjuvantes de peso como Buda Lira e Rita Assis. Na direção, Taciano Valério demonstra audácia estética ao encenar ligações telefônicas colocando os interlocutores no mesmo enquadramento físico, com um dos personagens desfocado ao fundo em vez de utilizar o recurso tradicional de tela dividida. Essa solução visual acentua a sensação de proximidade desconfortável e isolamento entre os envolvidos.
O descompasso de tom e as fragilidades de roteiro
Apesar da premissa instigante e das boas intenções alegóricas, Ao Sabor das Cinzas enfrenta oscilações severas em sua estrutura dramática. O filme oscila de maneira brusca entre a paródia cômica, a denúncia social grave e o tom de melodrama novelesco. Diálogos explicativos e excessivamente artificiais prejudicam a fluidez de certas sequências centrais.
A crítica especializada destacou a falta de aprofundamento na relação entre as duas irmãs protagonistas, cujo tempo em tela acaba obscurecido por cenas secundárias mais longas do que o necessário, como o percurso dos motoristas da funerária. Além disso, a fotografia de Breno César, embora crie ambientes sombrios que dialogam com a podridão da família, sofre com cômodos excessivamente escuros e uma direção de arte com recursos visivelmente limitados, gerando um descompasso entre a ambição narrativa e a realização técnica final.

Detalhes de bastidores e a gênese da produção
A semente de Ao Sabor das Cinzas começou a germinar entre 2015 e 2016. Durante as gravações de uma série ao lado do saudoso crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet, Taciano Valério teve o estalo inicial da história. O diretor concebeu o impasse entre duas irmãs — uma moradora do Recife e a outra residente em Caruaru — que divergiam sobre onde o pai falecido deveria ser sepultado, se na capital ou no interior.
Anos mais tarde, o roteiro foi expandido em parceria com Vanderson Santos e Carla Francine, incorporando as camadas de suspense policial, chantagem tecnológica e realismo fantástico. As filmagens foram realizadas no Agreste de Pernambuco, com locações em Caruaru e trechos na estrada rumo a Campina Grande, na Paraíba. A produção contou predominantemente com talentos do teatro do interior pernambucano, o que conferiu forte cumplicidade ao elenco em cena.
Conheça o elenco do filme Ao Sabor das Cinzas
O longa reúne um elenco representativo do audiovisual nordestino:
- Everaldo Pontes como Seu Lauro (o patriarca cujo falecimento desencadeia a crise).
- Verônica Cavalcanti no papel de Bethânia (a irmã conservadora).
- Maria Lima como Laura (a irmã progressista).
- Isadora Gibson interpreta Isadora (a neta que revela os segredos familiares).
Buda Lira, Bruno Goya, Geyson Luiz, Rizonir Silva, Guilherme Milleron, Rita Assis, Rosberg Adonay, Clécio Vila Nova, Adélio Lima, Aretha Luna e Maria das Nuvens completam o time de atores.
Ao Sabor das Cinzas é um roteiro original ou adaptação?
Ao Sabor das Cinzas não é uma adaptação literária ou teatral. Trata-se de um roteiro totalmente original concebido por Taciano Valério, desenvolvido conjuntamente com Vanderson Santos e Carla Francine. O texto nasceu de observações do diretor sobre as estruturas do patriarcado e a falsa moralidade das elites regionais.
Onde assistir do filme Ao Sabor das Cinzas?
O filme teve sua pré-estreia mundial na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes e cumpre circuito de festivais nacionais. O lançamento comercial nos cinemas de todo o Brasil ocorre em 22 de outubro de 2026, sob a distribuição da Embaúba Filmes.
Trailer do filme brasileiro Ao Sabor das Cinzas (2026)
Ficha técnica
| Parâmetro | Detalhes |
|---|---|
| Título Original | Ao Sabor das Cinzas |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| País de Origem | Brasil |
| Duração | 85 minutos |
| Gênero | Drama, Suspense, Realismo Fantástico |
| Direção | Taciano Valério |
| Roteiro | Taciano Valério, Vanderson Santos, Carla Francine |
| Produção | Carla Francine |
| Fotografia | Breno César |
| Montagem | João Maria (ACC) |
| Direção de Arte | Carla Sarmento |
| Desenho de Som | Giancarlo Galdino |
| Empresa Produtora | Autorias Filmes |
| Coprodução | Casa de Cinema de Olinda |
| Distribuição | Embaúba Filmes |
| Classificação | 16 anos |
















