A ideia de deixar o nosso destino nas mãos de uma Inteligência Artificial já não é mais exclusividade de livros empoeirados de ficção científica; é o debate da vez na mesa do bar e nos noticiários. Chegando aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (22), Justiça Artificial (no original, Mercy) pega esse medo coletivo e o transforma em um thriller de ação frenético.
Dirigido por Timur Bekmambetov, um cineasta que adora brincar com telas e tecnologia (vide O Procurado e Buscando…), o filme tenta misturar a claustrofobia de um julgamento virtual com a adrenalina de uma corrida contra o tempo, resultando em uma experiência que entretém, mas que talvez te deixe com a pulga atrás da orelha pelos motivos errados.
Sinopse
Em um futuro próximo, o sistema judiciário de Los Angeles foi “atualizado” para algo mais… eficiente. Esqueça jurados humanos e longos processos; aqui quem manda é a IA. Chris Raven (Chris Pratt), um detetive que ironicamente sempre defendeu esse novo modelo, acorda de ressaca e preso a uma cadeira, acusado de assassinar brutalmente sua própria esposa, Nicole (Annabelle Wallis).
O cenário é de pesadelo: ele está diante da juíza Maddox (Rebecca Ferguson), uma entidade digital fria que calcula uma probabilidade de 92,5% de culpa para o detetive. Sem advogados e sem misericórdia, Raven tem apenas 90 minutos — contados em tempo real na tela — para provar sua inocência antes que a sentença de morte seja executada ali mesmo. Para se salvar, ele precisa usar o próprio sistema de vigilância que o condenou, acessando câmeras e dados para encontrar o verdadeiro culpado.
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Resenha crítica do filme Justiça Artificial
A estética “screenlife” e o ritmo frenético
Se você já assistiu a filmes como Buscando… ou Desaparecida, sabe que Bekmambetov é o mestre do formato “Screenlife”, onde a história se desenrola através de telas de computadores e celulares. Em Justiça Artificial, ele expande isso para um cinema de ação mais robusto. A montagem é ágil, jogando na nossa cara imagens de câmeras corporais (bodycams), drones e interfaces digitais, lembrando muito a estética de programas policiais sensacionalistas como Cops ou até a linguagem visual de videogames.
Esse recurso funciona muito bem para criar ansiedade. O cronômetro no canto da tela não é apenas um enfeite; ele dita o ritmo cardíaco do filme, gerando uma urgência real enquanto vemos o protagonista revirar a vida digital de todos ao seu redor. É um quebra-cabeça investigativo que, visualmente, nos coloca na pele do personagem, transformando o espectador em um “voyeur” daquela distopia.

O dilema moral vs. o espetáculo de ação
O filme flerta o tempo todo com grandes questões éticas. A premissa lembra imediatamente o clássico Minority Report, questionando se podemos confiar cegamente na tecnologia para definir justiça e o perigo de transformar probabilidades matemáticas em sentenças de morte. No entanto, Justiça Artificial parece ter medo de mergulhar fundo nessa filosofia.
Embora levante a bola sobre a vigilância excessiva e o controle social — algo que remete ao monitoramento estatal visto em lugares como a China —, o roteiro de Marco van Belle prefere seguir o caminho do “cinemão pipoca”. A crítica social acaba ficando em segundo plano para dar lugar a sequências de luta e perseguição.
Há quem diga que o filme até soa como uma propaganda involuntária (ou não) do estado de vigilância, já que a solução para o crime depende justamente da invasão total de privacidade, usando tecnologias de empresas reais como a Amazon. No fim, a discussão sobre a IA substituir o julgamento humano é tocada, mas de forma um tanto superficial, servindo mais como pano de fundo para a ação do que como tese central.
Atuações: entre o carisma e o exagero
Chris Pratt entrega uma performance que vai dividir opiniões certamente. Longe de seus papéis mais leves na Marvel, aqui ele tenta encarnar um homem desesperado e quebrado, um alcoólatra em recuperação no limite da sanidade.
Para alguns, ele vai consolidar seu nome como herói de ação capaz de carregar o filme nas costas, mesmo preso a uma cadeira na maior parte do tempo. Para outros, a atuação pode soar um pouco forçada, destoando do tom sério que a trama exige, ou até meio “estúpida” em comparação ao resto do elenco.
Quem brilha sem fazer força é Rebecca Ferguson. Mesmo interpretando um avatar digital, ela impõe respeito e uma ameaça serena como a juíza Maddox. Outro destaque é Kali Reis (de True Detective), que traz uma fisicalidade impressionante e convence muito bem no papel da parceira policial de Raven, especialmente nas cenas de ação mais intensas.
Roteiro e previsibilidade
Apesar da “roupagem” tecnológica moderna, a estrutura do roteiro é velha guarda. O filme cai na armadilha de certos clichês do gênero. A identidade do verdadeiro vilão, por exemplo, pode ser descoberta cedo demais por espectadores mais atentos, seguindo aquela velha regra de que “o personagem que parece inútil na história provavelmente é o culpado”.
Além disso, a lógica interna exige uma suspensão de descrença gigantesca: o sistema judiciário permite que um réu acusado de homicídio tenha acesso irrestrito a e-mails, mensagens e câmeras de terceiros para se defender, o que é, no mínimo, absurdo do ponto de vista da privacidade. O final também opta por ser barulhento e caótico, trocando a inteligência da investigação por explosões, o que pode frustrar quem esperava um desfecho mais cerebral.
Conclusão
Se você procura um entretenimento ágil para desligar o cérebro e comer pipoca, Justiça Artificial entrega o que promete: 100 minutos de tensão, reviravoltas e tecnologia de ponta. Funciona bem como aquele filme de “Sessão da Tarde” futurista ou para puxar papo no bar sobre os perigos da IA.
Mas, se você espera uma reflexão profunda sobre ética e tecnologia no nível de Black Mirror, pode sair da sala sentindo que faltou algo mais humano nessa equação digital.
Onde assistir ao filme Justiça Artificial?
O filme estreia nesta quinta-feira, dia 22 de janeiro de 2026, exclusivamente nos cinemas brasileiros.
Trailer de Justiça Artificial (2026)
Elenco do filme Justiça Artificial
- Rebecca Ferguson
- Annabelle Wallis
- Chris Pratt
- Kali Reis
- Chris Sullivan
- Kylie Rogers
- Jeff Pierre
- Rafi Gavron














