Se você der o play na nova minissérie de sete episódios da Netflix, Mal de Amores, esperando apenas mais um romance de época água com açúcar para passar o tempo, prepare-se para ser surpreendido. O que está em jogo aqui não é apenas qual dos dois homens bonitos vai ganhar o coração da mocinha, mas sim o nascimento de uma mulher que exige o direito de não ter que escolher entre sua profissão, sua liberdade e sua capacidade de amar sem limites.
Trinta anos após a publicação do aclamado livro de Ángeles Mastretta — vencedor do prestigiado Prêmio Rómulo Gallegos em 1997 —, a adaptação finalmente ganha as telas. E o maior trunfo dessa produção é o seu DNA: a série é capitaneada por Catalina Aguilar Mastretta, filha da escritora, que herdou o comando da história que amava desde os doze anos de idade. Esse carinho e intimidade familiar transbordam em cada cena, entregando um retrato que é, ao mesmo tempo, um tributo de época impecável e uma narrativa dolorosamente atual.
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O despertar sob a pressão da história
A trama se estabelece em Puebla, às vésperas de explodir a Revolução Mexicana de 1910 contra a ditadura porfirista. É nesse cenário de conspirações, reuniões intelectuais secretas e herbolária que conhecemos Emilia Sauri (interpretada com uma presença magnética por Renata Vaca). Criada por pais excepcionalmente liberais para o período — o boticário Diego Sauri (Miguel Rodarte) e Josefa Veytia (Diana Bovio) —, Emilia cresce com a convicção de que seu destino não deve ser limitado pelas paredes de um lar conjugal. Ela quer estudar medicina.
Mas o mundo lá fora não é a botica acolhedora e cúmplice de sua família. Na faculdade, Emilia enfrenta o machismo escancarado da época: professores que a proíbem de tocar nos livros e colegas que a vaiam. Para viver esse papel de forma visceral, a atriz Renata Vaca mergulhou em uma preparação intensa de três meses, que incluiu aulas de medicina teórica, uso de plantas medicinais, violoncelo e dança de época. E o resultado é formidável. Emilia não é retratada como uma “heroína moderna” anacrônica enfiada à força no passado; sua força vem da persistência física e mental, sentindo a opressão daquele tempo em sua pele.
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Um triângulo amoroso que é, na verdade, um espelho de caminhos
No centro do drama romântico, Emilia vê seu coração dividido entre dois homens que representam forças elementares opostas na transformação do México. De um lado, temos Daniel Cuenca (Juan Pablo Fuentes), o amigo de infância, impetuoso, que carrega as feridas do abandono materno e a herança anarquista do pai, o prestigiado Doutor Octavio Cuenca (Humberto Zurita). Daniel é o vento da revolução: ele quer incendiar o velho mundo de Porfirio Díaz, mesmo que isso signifique abandonar as pessoas que ama e arrastar tudo consigo.
Do outro lado, surge o Doutor Antonio Zavalza (Iván Amozurrutia), um médico que estudou no exterior e retorna à Puebla porque sente que seu povo precisará de sua ajuda na iminência da guerra. Zavalza representa a cura, a razão e a paz. Ele não apenas apoia as ambições intelectuais de Emilia, como também se torna seu parceiro científico na medicina.
O grande acerto de roteiro de Catalina Aguilar Mastretta, Fernanda Eguiarte e Daniela Gómez é que o triângulo amoroso não cai no clichê da disputa barata. Daniel e Antonio amam Emilia e, cada um à sua maneira, compreendem que tentar engaiolar seu espírito livre seria destruí-la. Em vez de ser paralisada por essa dualidade romântica, Emilia utiliza a dor do “mal de amores” como combustível para sua própria emancipação sexual e existencial. Como a própria autora Ángeles Mastretta apontou em entrevistas, a fidelidade de Emilia não é dedicada a nenhum dos dois homens, mas sim a si mesma.

O charme do “slow burn”
Visualmente, a série é um deslumbre. O trabalho da diretora de fotografia Carmen Cabana e da designer de produção Sandra Cabriada constrói uma Puebla que parece palpável, com poeira, luz dourada e texturas que nos transportam diretamente para 1910. A trilha sonora traz um destaque arrepiante: a música “Cuando nos vemos”, uma parceria inédita entre Vivir Quintana e Lila Downs, além de interpretações clássicas como “Paloma Negra” na voz da própria protagonista Renata Vaca.
No entanto, é preciso fazer um alerta de ritmo para quem está acostumado com séries de ação frenética. Mal de Amores é um legítimo “slow burn”. A narrativa se desenvolve sem pressa, focando nas conversas de sobremesa, nas trocas de cartas, nas trocas de olhares silenciosos e na lenta construção dramática das paixões. Alguns espectadores mais impacientes — como apontaram algumas análises críticas de canais especializados no YouTube — podem achar o ritmo inicial arrastado ou se incomodar com a falta de sequências de batalha dinâmicas. O foco aqui é a revolução que acontece por dentro, não por fora.
Além disso, a produção não economiza na sensualidade e nos momentos de paixão ardente. Com uma classificação indicativa estritamente recomendada para maiores de 18 anos devido ao teor de várias cenas adultas e íntimas, o romance é retratado de maneira carnal, livre e intensa, fugindo do puritanismo comum aos dramas históricos tradicionais.
E para os fãs órfãos de Outlander, a comparação que vem circulando faz muito sentido. Embora Mal de Amores dispense os elementos de viagem no tempo e fantasia, ela herda a mesma essência de um amor arrebatador que colide frontalmente com a turbulência de uma guerra histórica civil.
Vale a pena assistir Mal de Amores na Netflix?
No final das contas, Mal de Amores prova que a medicina, a herbolária e a teimosia podem ser ferramentas tão revolucionárias quanto as armas de Francisco I. Madero. Conforme a história se desenrola, o elenco de apoio de peso — incluindo a brilhante atuação de Cassandra Ciangherotti como a autônoma e intrigante tia Milagros Veytia, e Juan Pablo Medina como o poeta Manuel Rivadeneira — sustenta as subtramas com elegância. A série é um sopro de prestígio literário na era do streaming.
Se você souber apreciar uma boa história contada com calma, que prefere a densidade emocional ao choque fácil, a produção mexicana é imperdível. Uma obra tocante que nos lembra que, quando o mundo ao redor desaba, amar sob as nossas próprias regras continua sendo a forma mais visceral de resistência.
Ficha técnica
- Título Original: Mal de Amores
- Ano de Lançamento: 2026 (2 de setembro)
- Plataforma: Netflix
- Número de Episódios: 7 episódios (média de 50 a 60 minutos cada)
- Direção: Catalina Aguilar Mastretta e Humberto Hinojosa Ozcariz
- Roteiro: Catalina Aguilar Mastretta, Fernanda Eguiarte e Daniela Gómez
- Baseado em: Romance homônimo de Ángeles Mastretta (vencedor do Prêmio Rómulo Gallegos de 1997)
- Direção de Fotografia: Carmen Cabana
- Desenho de Produção: Sandra Cabriada
- Figurino: Adela Cortázar
- Maquiagem: Thalía Echeveste
- Produção: Filmadora (José Nacif e Ramiro Ruiz)
Elenco da série Mal de Amores, da Netflix
- Renata Vaca (Emilia Sauri)
- Juan Pablo Fuentes (Daniel Cuenca)
- Iván Amozurrutia (Antonio Zavalza)
- Humberto Zurita (Doutor Octavio Cuenca)
- Miguel Rodarte (Diego Sauri)
- Diana Bovio (Josefa Veytia)
- Cassandra Ciangherotti (Milagros Veytia)
- Juan Pablo Medina (Manuel Rivadeneira)
- Alejandro Puente (Salvador Cuenca)
- Sofía Carrera (Sol García)

















