Há profissionais cuja biografia se funde de maneira tão visceral com a história de um país que contar suas trajetórias torna-se um exercício indispensável de memória coletiva. Zuenir Ventura (1931–2026) foi, sem sombra de dúvida, uma dessas figuras ímpares. Ao longo de sete décadas dedicadas à escrita, o jornalista, escritor, professor e membro da Academia Brasileira de Letras transformou o texto das redações em uma potente ferramenta de interpretação da sociedade brasileira.
Exatamente um mês após o seu falecimento, aos 95 anos, chega aos cinemas o documentário Mestre Zu, dirigido por Zelito Viana e codirigido por Luciana Savaget, uma homenagem afetuosa e profundamente necessária a um dos maiores nomes da imprensa nacional.
Com o lirismo humanista e o olhar atento, o longa-metragem não apenas passa em revista os marcos profissionais de um mestre do New Journalism caboclo, mas captura a essência de um homem marcado pela generosidade, pela escuta atenta e pelo amor incondicional à democracia.
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Quem foi Zuenir Ventura: da pintura de paredes à imortalidade na ABL
A jornada de Zuenir Carlos Ventura carrega a força dos grandes romances de formação. Nascido em Além Paraíba (MG) e criado em Nova Friburgo (RJ), ele conheceu cedo as dificuldades da vida simples. Filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, trabalhou na adolescência como ajudante de pintura, office-boy de banco, caixeiro de loja e atendente para custear os seus estudos. A mãe lavava batinas de padres salesianos para garantir a bolsa escolar do filho, um sacrifício que ele jamais esqueceu e que moldou seu compromisso com a justiça social.
Ao transferir-se para o Rio de Janeiro para cursar Letras Neolatinas na Universidade do Brasil (atual UFRJ), teve aulas com mestres ilustres como Manuel Bandeira, Cleonice Berardinelli e Alceu Amoroso Lima. O ingresso no jornalismo deu-se por mero acaso em 1956, no arquivo da Tribuna da Imprensa. Ao se voluntariar para escrever um artigo sobre a morte do filósofo francês Albert Camus, chamou a atenção de Carlos Lacerda e conquistou seu espaço definitivo na redação.
Nas décadas seguintes, Zuenir Ventura conduziu as redações de veículos emblemáticos como Correio da Manhã, Jornal do Brasil, O Globo, O Cruzeiro, Veja, IstoÉ, Época e Visão. Vivenciou episódios históricos de perto: foi intérprete informal do presidente João Goulart em Paris e, após a decretação do AI-5 em 1968, viveu o cárcere da ditadura militar durante três meses, dividindo cela com o psicanalista Hélio Pellegrino e o cartunista Ziraldo.
Sua produção literária revolucionou o livro-reportagem no Brasil. Em 1968: O Ano Que Não Terminou (1989), reconstruiu o ano que abalou o país com o rigor da apuração e o ritmo de uma grande narrativa. Em Cidade Partida (1994) — obra vencedora do Prêmio Jabuti —, imergiu por dez meses na rotina de Vigário Geral após a chacina de 1993, cunhando a expressão que até hoje conceitua a divisão social carioca.
Na cobertura do assassinato do líder ambientalista Chico Mendes, no Acre, em 1989, assinou reportagens premiadas com os prêmios Esso e Vladimir Herzog que deram origem ao livro Chico Mendes: Crime e Castigo. Foi nesse episódio que Zuenir Ventura cometeu sua mais célebre “transgressão” ética: ao perceber que a testemunha-chave do crime, o adolescente Genésio Ferreira da Silva (de 13 anos), corria risco iminente de morte, decidiu trazê-lo para morar com sua própria família no Rio de Janeiro até a maioridade. Diante do dilema entre a distância profissional e a preservação da vida, o repórter resumiu com a lucidez de sempre: “Era reportar uma morte ou evitá-la”.
Reconhecido pela ONU em 2008 como um dos cinco jornalistas brasileiros que mais defenderam os direitos humanos nas últimas décadas, ele foi eleito em 2014 para a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Ariano Suassuna.
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A história do documentário: um tributo urgente à memória
A ideia do documentário nasceu no seio da própria família Ventura. Foi a filha do jornalista, a livreira e produtora Elisa Ventura, quem provocou o cineasta Zelito Viana a tirar do papel um registro audiovisual em vida sobre a trajetória do seu pai. A Mapa Filmes do Brasil assumiu a produção em parceria com a GloboNews, com coprodução da RioFilme e da Prefeitura de Niterói.
O filme teve sua exibição inicial de prestígio no festival É Tudo Verdade em abril de 2026. A estreia comercial nos cinemas em 22 de outubro de 2026 acabou ganhando contornos de homenagem póstuma e celebração coletiva, ocorrendo exatamente um mês após a passagem do jornalista, que faleceu em 22 de setembro de 2026 decorrente de uma pneumonia.

Detalhes de bastidores: conversas na sala e afetos de família
Os bastidores de Mestre Zu revelam a intimidade e o carinho com que o projeto foi confeccionado. A espinha dorsal do longa-metragem foi gravada na casa do próprio diretor Zelito Viana, no Rio de Janeiro. O espaço transformou-se em um ponto de encontro onde antigos companheiros de redação, familiares e amigos de longa data se reuniram em torno de uma mesa para reavivar memórias e causos afetivos.
O jornalista e escritor Mauro Ventura, filho de Zuenir, atou como consultor de roteiro, unindo-se aos roteiristas Ana Madureira, Tereza Karabtchevsky e Ivan de Angelis. O próprio Zuenir Ventura chegou a conceder duas longas e lúcidas entrevistas à equipe antes que uma queda acidental e desdobramentos de saúde interrompessem suas gravações diretas para a câmera.
A estética visual traz a assinatura do consagrado diretor de fotografia Walter Carvalho, que utilizou planos intimistas para registrar os depoimentos das diversas gerações formadas pelo mestre.
Crítica do documentário Mestre Zu
Narrativamente, Mestre Zu aposta na clássica estrutura documental de “cabeças falantes” aliada a um precioso acervo fotográfico e audiovisual de época. Longe de parecer engessado, o formato ganha vivacidade devido ao carisma e ao brilho intelectual dos entrevistados. Nomes centrais da cultura e do jornalismo brasileiro — como Míriam Leitão, Ancelmo Gois, Fernando Gabeira, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Cacá Diegues, Gerson Camarotti, Joaquim Ferreira dos Santos, Arthur Dapieve, Ana Maria Machado, Heloísa Teixeira e a juíza Andréa Pachá — compartilham episódios que variam do humor sutil às mais densas reflexões políticas.
A condução do filme expõe a capacidade de Zuenir Ventura em cultivar laços afetivos profundos, revelando que a sua figura acolhedora e modesta era o segredo de seu sucesso como entrevistador e mestre de redação.
Dilemas éticos e o peso humano da notícia
O ponto mais alto e provocativo do filme reside nas discussões éticas sobre a prática jornalística. O documentário resgata episódios em que Zuenir Ventura se viu diante da fronteira tênue entre o interesse público e a dor humana. O longa expõe, por exemplo, dois casos emblemáticos: o suicídio do escritor Pedro Nava — chantageado na ocasião —, fato que o jornalista optou por manter em sigilo respeitoso; e a morte do cineasta Leon Hirszman por complicações da AIDS, que ele decidiu noticiar, gerando mágoas da viúva do cineasta.
Essas passagens tensionam a visão romantizada da profissão e colocam em xeque a pressa e a busca por cliques que marcam a era digital contemporânea. Mestre Zu lembra ao espectador que o jornalismo de excelência exige apuração paciente, respeito ao outro e, acima de tudo, discernimento sobre as consequências das palavras.
Potência e limitações de um retrato afetuoso
Se o filme apresenta uma limitação estilística, ela reside no seu tom predominantemente festivo e hagiográfico. Quando convidados a citar eventuais defeitos do biografado, os amigos acabam multiplicando elogios. Há pouco espaço para contradições internas ou revisões críticas sobre algumas guinadas editoriais vividas pela imprensa ao longo das décadas.
Contudo, essa escolha pelo afeto se justifica plenamente diante do contexto. Em tempos de constante ataque ao livre exercício da imprensa e de proliferação de fake news, homenagear a figura luminosa de Zuenir Ventura funciona como um manifesto em defesa do jornalismo sério, ético e comprometido com os direitos humanos.
Onde assistir ao documentário Mestre Zu?
O documentário Mestre Zu possui 70 minutos de duração e classificação indicativa de 12 anos. A distribuição comercial é realizada pela Bretz Filmes em parceria com a Mapa Filmes do Brasil.
Confira o calendário de estreia nos cinemas por cidade:
- 22 de outubro de 2026: Rio de Janeiro, Porto Alegre, Niterói, Florianópolis e Salvador.
- 29 de outubro de 2026: São Paulo.
- 05 de novembro de 2026: Belo Horizonte.
Trailer do documentário Mestre Zu (2026)
Ficha técnica
| Parâmetro | Detalhe |
|---|---|
| Título Original | Mestre Zu |
| Ano de Lançamento | 2026 |
| Gênero | Documentário |
| Duração | 70 minutos |
| País de Origem | Brasil |
| Direção | Zelito Viana |
| Codireção | Luciana Savaget |
| Roteiro | Ana Madureira, Tereza Karabtchevsky e Ivan de Angelis |
| Consultoria de Roteiro | Mauro Ventura |
| Direção de Fotografia | Walter Carvalho |
| Produção Executiva | Vera de Paula |
| Produtora Associada | Elisa Ventura |
| Trilha Sonora Original | Igor Lazier |
| Empresa Produtora | Mapa Filmes do Brasil |
| Coprodução | GloboNews, RioFilme / Prefeitura do Rio e Prefeitura de Niterói |
| Distribuição | Bretz Filmes e Mapa Filmes do Brasil |
| Elenco / Depoimentos | Zuenir Ventura, Ancelmo Gois, Míriam Leitão, Fernando Gabeira, Nelson Motta, Paulinho da Viola, Cacá Diegues, Gerson Camarotti, Arthur Dapieve, Joaquim Ferreira dos Santos, Mauro Ventura, Elisa Ventura, Andréa Pachá, DJ Marlboro, Heloísa Teixeira, Cleonice Berardinelli, Genésio Ferreira da Silva, entre outros. |














