Alejandro Amenábar não é estranho a mergulhos profundos na história. Depois de explorar a vida de figuras como Ramón Sampedro e Miguel de Unamuno, o diretor chileno-espanhol volta suas lentes para o maior gigante da literatura espanhola: Miguel de Cervantes. Mas se você espera ver aquele senhor barbudo e austero dos livros didáticos escrevendo em uma escrivaninha empoeirada, pode tirar o cavalinho da chuva.
“O Cativo”, que chega à Netflix, nos apresenta um Cervantes jovem, um soldado ferido e cheio de vida, cuja maior batalha não foi com moinhos de vento, mas sim pela própria sobrevivência em um cativeiro de cinco anos. O filme, que chegou recentemente ao streaming e aos cinemas, tenta equilibrar a aventura clássica com uma pitada de ousadia moderna, resultando em uma obra que enche os olhos, mesmo que às vezes tropece nas próprias pernas.
Sinopse
Estamos em 1575. O jovem soldado Miguel de Cervantes (Julio Peña), já ferido na mão esquerda após a Batalha de Lepanto, é capturado por corsários otomanos enquanto tentava voltar para a Espanha. O problema é que ele carregava cartas de recomendação assinadas por ninguém menos que Don Juan de Áustria, o que faz seus captores acreditarem que ele é um nobre riquíssimo.
O resgate pedido é astronômico, e a família de Miguel não tem um tostão furado para pagar. Preso em Argel e sob o domínio do temido e magnético governador Hassan Bajá (Alessandro Borghi), Miguel descobre uma moeda de troca mais valiosa que o ouro: a capacidade de contar histórias. Enquanto planeja fugas arriscadas e tenta manter a sanidade dos companheiros, ele começa a forjar a identidade do escritor que um dia criaria Dom Quixote.
➡️ Quer saber mais sobre filmes, séries e streamings? Então acompanhe o trabalho do Flixlândia nas redes sociais pelo INSTAGRAM, X, TIKTOK, YOUTUBE, WHATSAPP, e GOOGLE NOTÍCIAS, e não perca nenhuma informação sobre o melhor do mundo do audiovisual.
Resenha crítica do filme O Cativo
A arte de contar histórias como sobrevivência
O coração de “O Cativo” bate no ritmo das narrativas de Cervantes. Amenábar acerta em cheio ao mostrar que, para Miguel, a ficção não era apenas um passatempo, mas uma ferramenta vital, quase uma “Sherezade” masculina. Ele usa seus contos para acalmar os ânimos dos prisioneiros, negociar com os guardas e, principalmente, seduzir a atenção do perigoso Hassan.
É interessante ver como o filme planta as sementes do que viria a ser sua obra-prima, embora, às vezes, a mão do roteiro pese um pouco: os frades trinitários que aparecem para o resgate são visualmente idênticos a Dom Quixote e Sancho Pança, uma referência que beira o óbvio demais.

Química explosiva e polêmica histórica
Onde o filme realmente pega fogo — e onde mora a maior parte das discussões — é na relação entre Cervantes e seu captor, Hassan. Alessandro Borghi entrega uma atuação feroz e cheia de nuances como o Bajá, criando uma dinâmica de “gato e rato” com o protagonista que vai muito além do ódio.
O filme sugere uma tensão sexual e até romântica entre os dois, insinuando que Cervantes usava seu charme (e talvez algo mais) para ganhar favores e tempo. Enquanto alguns historiadores e críticos torcem o nariz para essa liberdade criativa, acusando-a de revisionismo, a química em tela funciona como um motor de tensão, transformando o cativeiro em um jogo de sedução e poder.
Um visual de encher os olhos, mas com ressalvas
Tecnicamente, o filme é irrepreensível em muitos pontos. A fotografia de Álex Catalán captura tanto a luz dura do Mediterrâneo quanto a escuridão claustrofóbica das prisões subterrâneas. As locações, que incluem castelos em Alicante e o Real Alcázar de Sevilha, dão um peso real à produção.
No entanto, essa perfeição estética às vezes joga contra. Tudo é tão polido, limpo e bem enquadrado que, em certos momentos, falta aquela sujeira e caos que esperamos de um drama de época visceral. Há quem diga que a produção, apesar do orçamento de 15 milhões de euros, às vezes passa uma sensação estática, lembrando mais uma série de TV de luxo do que um épico cinematográfico arrebatador.
O homem antes do mito
O grande trunfo do longa é a performance de Julio Peña. Ele foge da armadilha de interpretar um “gênio predestinado” e nos entrega um homem de 28 anos, vulnerável, que erra, teme e aprende na marra.
Ele não é o herói intocável; é um sobrevivente que usa a inteligência porque a força bruta não é uma opção. O elenco de apoio, especialmente o veterano Miguel Rellán como o padre Antonio de Sosa, ajuda a dar estofo emocional e credibilidade ao sofrimento dos cativos.
Conclusão
“O Cativo” pode não ser a obra-prima definitiva de Amenábar — falta-lhe talvez um pouco daquela energia crua e arrebatadora de seus primeiros filmes —, mas é uma peça de cinema sólida e envolvente. Ao humanizar um mito intocável e sugerir que suas maiores histórias nasceram da dor e da negociação pela vida, o filme nos convida a olhar para Cervantes com novos olhos.
Se você conseguir relevar algumas escolhas narrativas mais lentas e a polêmica histórica, encontrará uma bela homenagem ao poder da imaginação como a única liberdade que ninguém pode nos tirar. Vale o play, nem que seja para debater se aquele olhar entre o escritor e o Bajá era apenas diplomacia ou algo mais.
Onde assistir ao filme O Cativo?
Trailer de O Cativo (2026)
Elenco de O Cativo, da Netflix
- Julio Peña Fernández
- Alessandro Borghi
- Miguel Rellán
- Fernando Tejero
- Luis Callejo
- José Manuel Poga
- Roberto Álamo
- Albert Salazar
- Juanma Muniagurria
- César Sarachu















