Sabe quando você compra algo que parece de grife, tem a etiqueta certa, o visual impecável, mas quando você pega na mão, sente que falta aquele peso da qualidade real? Pois é, essa é a sensação que fica ao assistir O Falsário (2026), que acabou de chegar na Netflix.
Dirigido por Stefano Lodovichi, o filme tenta misturar o charme dos filmes de assalto com o peso histórico dos “Anos de Chumbo” italianos. A premissa é fascinante: um pintor frustrado que vira um mestre da falsificação e acaba se envolvendo em um dos momentos mais tensos da política italiana. Mas, apesar de todo o estilo, o filme parece sofrer do mesmo mal do seu protagonista: é uma bela cópia de grandes clássicos, mas sem a substância original.
Sinopse
A trama nos apresenta Antonio “Toni” Chichiarelli (interpretado por Pietro Castellitto), um aspirante a artista que sai de uma vida pacata na província italiana rumo a Roma, acompanhado de seus dois melhores amigos — um padre, Vittorio, e um operário militante, Fabione. Chegando na capital ao som de “The Passenger”, de Iggy Pop, Toni descobre que seu verdadeiro talento não é criar, mas copiar. Ele consegue reproduzir com perfeição obras de Modigliani e, logo, assinaturas em cheques.
Essa habilidade chama a atenção não só do mercado de arte (representado pela marchande Donata), mas também do submundo do crime e de figuras obscuras ligadas ao Estado. A coisa fica séria quando Toni é recrutado para forjar comunicados das Brigadas Vermelhas durante o sequestro do político Aldo Moro, em 1978. O que começa como um jogo de vaidade e dinheiro se transforma em uma espiral perigosa onde Toni precisa decidir de que lado está — ou se está apenas do seu próprio lado.
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Resenha crítica do filme O Falsário
O charme do exagero e a falta de empatia
O filme aposta todas as suas fichas no carisma de Pietro Castellitto. Ele entrega uma performance que os italianos chamariam de “gigione” — aquele tipo de atuação exagerada, cheia de trejeitos e autoconfiança, feita para roubar a cena. No começo, funciona. Toni é apresentado com uma aura de anti-herói fascinante, alguém que transita entre a elite artística e a criminalidade com um sorriso no rosto.
O problema é que o roteiro não nos dá motivos suficientes para torcer por ele. Toni é retratado como um “verme” moral, alguém que trai amigos e parceiros sem pestanejar. Quando lhe perguntam se ele é “vermelho ou preto” (em referência à política da época), ele responde com cinismo total: “sou a favor de quem me faz viver bem”.
Essa frieza, que deveria ser um estudo de personagem complexo, acaba criando um distanciamento. Você assiste às ações dele, inclusive golpes engenhosos que ele encara como “performance artística”, mas termina o filme querendo apenas dar de ombros para o destino dele.

Uma Roma impecável, mas um ritmo que engasga
Visualmente, o filme é um deleite. A reconstituição da Roma dos anos 70 é cuidadosa e a trilha sonora acerta em cheio nas “needle drops”. Lodovichi tenta emular o estilo dos filmes de assalto americanos, criando uma atmosfera que mistura glamour e perigo.
No entanto, essa embalagem bonita esconde um ritmo problemático. A primeira metade do filme flui bem, mostrando a ascensão de Toni. Mas a segunda metade, justamente quando a trama política envolvendo Aldo Moro deveria aumentar a tensão, o filme perde o fôlego.
Há muito diálogo explicativo em salas fechadas e pouca tensão real. A narrativa fica presa tentando explicar os conflitos históricos em vez de deixar o espectador senti-los. O filme promete um thriller político, mas entrega um drama morno que caminha em círculos.
A oportunidade perdida
Uma das frases recorrentes do filme, dita pelo amigo padre de Toni, é a expressão latina tertium non datur (não há terceira opção) — sugerindo que, em certas situações, é vida ou morte, preto ou branco. O filme tenta usar isso para dar profundidade filosófica à trama, sugerindo que a escolha de Toni de não escolher um lado já é, em si, uma escolha fatal.
Infelizmente, essa profundidade fica na superfície. O filme toca em temas pesados — a manipulação da verdade, o cinismo político, a traição — mas trata tudo com uma leveza que beira a irrelevância. Mesmo quando a trama pessoal aperta, com a gravidez de Donata, a resposta emocional de Toni (e do filme) é gelada.
A história real de Chichiarelli, um falsário que enganou um país inteiro, é incrivelmente rica, mas o filme parece mais interessado em mostrar como o ator principal fica bem em cena do que em explorar as consequências devastadoras dessas mentiras.
Conclusão
O Falsário é um filme que funciona melhor como uma vitrine de época do que como um drama humano. Ele entretém de forma leve, tem uma produção técnica invejável e um elenco que se esforça, mas falha em conectar o público com o coração da história.
Ao final, fica a impressão de que assistimos a uma falsificação bem feita de um grande filme: tem a aparência de cinema de qualidade, mas falta a autenticidade que nos faz lembrar da obra depois que os créditos sobem. Vale a pena pela curiosidade histórica e pelo visual, mas não espere sair transformado. Como o próprio Toni poderia dizer: é uma bela cópia, mas não é a obra-prima original.
Onde assistir ao filme O Falsário?
Trailer do filme O Falsário (2026)
Elenco de O Falsário, da Netflix
- Pietro Castellitto
- Giulia Michelini
- Andrea Arcangeli
- Edoardo Pesce
- Claudio Santamaria
- Pierluigi Gigante
- Aurora Giovinazzo
- Fabrizio Ferracane
- Mattia Carrano















