Em 2003, um algoritmo foi criado em um dormitório de Harvard com o único propósito de ranquear a aparência de universitárias. Era um projeto imaturo, inconsequente e que não possuía qualquer tipo de freio moral. Quase duas décadas depois, essa mesma recusa em impor limites éticos a um código de computador ajudou a colocar extremistas dentro do Capitólio dos Estados Unidos.
É essa escalada sombria e devastadora que pauta o filme O Outro Lado das Redes (2026), longa que funciona como uma sequência não oficial e madura de A Rede Social (2010), trazendo o então roteirista Aaron Sorkin de volta aos corredores de poder do império fundado por Mark Zuckerberg agora na cadeira de diretor.
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A história de O Outro Lado das Redes
O filme abandona o drama de tribunal sobre direitos autorais de seu predecessor para mergulhar em um denso thriller investigativo. A trama acompanha a verdadeira queda de braço entre o jornalista do The Wall Street Journal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), e a engenheira de dados e delatora Frances Haugen (vencedora do Oscar, Mikey Madison).
Juntos, eles reúnem as peças para expor ao mundo os chamados Facebook Papers: milhares de documentos internos provando que a Meta (antigo Facebook) sabia que seus algoritmos impulsionavam discurso de ódio, desinformação e danos psicológicos a adolescentes, mas optou conscientemente por não aplicar freios para não prejudicar suas margens astronômicas de lucro.
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Um ‘Spotlight’ da Era Digital
A dinâmica entre Horwitz e Haugen evoca imediatamente o peso do jornalismo investigativo clássico visto em obras como Spotlight: Segredos Revelados (2015). Sorkin constrói uma narrativa densa, afogada em documentos, reuniões a portas fechadas e embates éticos. Embora O Outro Lado das Redes talvez não atinja a mesma força catártica imediata daquele vencedor do Oscar — em parte porque o vilão aqui é um código invisível amparado por uma lei antiga —, ele compensa com uma urgência paralisante.
Este não é um filme que precisa ser revisto exaustivamente na semana de estreia para ser apreciado; pelo contrário, é uma obra que vai maturar e ser compreendida com muito mais profundidade ao longo dos anos, à medida que a sociedade continua colhendo os frutos da desregulamentação digital.

O Imperador de Vidro e um elenco afiado
A química entre Jeremy Allen White e Mikey Madison é o motor emocional do longa. Madison traz uma coragem palpável à sua Frances Haugen, enquanto White entrega a obsessão obstinada de um repórter diante da maior história de sua vida.
No entanto, é Jeremy Strong quem rouba o oxigênio da sala. Se o Zuckerberg de 2010 era um universitário irônico e ressentido, o de Strong é um verdadeiro imperador de vidro. Sua atuação é assustadora justamente pela frieza: ele retrata um homem alienado da própria humanidade, isolado em escritórios de design minimalista, que prefere focar em gráficos de engajamento a olhar para o incêndio que ajudou a acender no mundo real. É uma performance forte, contida e que certamente deve render discussões na temporada de premiações.
O clímax e o espelho do mundo
A tese do filme ganha sua forma mais assustadora no clímax, ambientado durante a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Sem precisar apelar para o excesso de violência gráfica, o longa mostra as consequências literais da omissão deliberada da plataforma. O momento em que a tática de “não limitar nada” encontra a barbárie no mundo físico é um verdadeiro soco no estômago.
Para o público, a mensagem reverbera de forma aterrorizante e próxima. Em tempos onde o Brasil vivencia a polarização extrema de um segundo turno presidencial e o extremismo ganha terreno globalmente, O Outro Lado das Redes deixa de ser apenas uma cinebiografia corporativa.
É um alerta vermelho sobre a urgência de contermos o avanço irrestrito dessas plataformas para protegermos não apenas a saúde mental de nossas crianças, mas a sanidade da sociedade como um todo.
Vale a pena assistir ao filme O Outro Lado das Redes?
Com absoluta certeza. O Outro Lado das Redes se consolida como um dos thrillers mais essenciais e inquietantes do ano justamente por não precisar recorrer à ficção para gerar terror. É uma obra que exige estômago não por conter violência física, mas por expor com clareza clínica o custo humano de um modelo de negócios focado inteiramente no lucro e no engajamento a qualquer preço.
Amparado por atuações brilhantes e um texto cortante, o filme entrega uma experiência que continuará ecoando na mente do público muito tempo após os créditos subirem. Uma sessão obrigatória para quem deseja entender as engrenagens ocultas que movem as crises da nossa atualidade.
Trailer do filme O Outro Lado das Redes (2026)
Ficha Técnica
| Informação | Detalhes |
| Título | O Outro Lado das Redes |
| Direção e Roteiro | Aaron Sorkin |
| Produção | Todd Black, p.g.a., Peter Rice, p.g.a., Aaron Sorkin, p.g.a., Stuart Besser, p.g.a. |
| Produção Executiva | Lauren Lohman, Roger McNamee, Ellen Goldsmith-Vein, Broderick Johnson, Andrew A. Kosove |
| Elenco Principal | Mikey Madison, Jeremy Allen White, Wunmi Mosaku, Betty Gilpin, Billy Magnussen, Bill Burr, Jeremy Strong |














