Todo filme ambientado na neve carrega a tentação de culpar o clima por tudo: a miséria, a violência, até o caráter duvidoso dos personagens. “Os Malditos” (2025) começa parecendo mais um desses dramas gelados em que o vento faz metade do trabalho emocional.
Mas, aos poucos, o longa revela algo mais desconfortável: o frio aqui não é vilão, é álibi. Quem decide o destino das pessoas são outras pessoas, e isso costuma ser bem mais assustador do que qualquer tempestade islandesa.
Contextualização da obra
Dirigido pelo islandês Þórður Pálsson, em coprodução entre Islândia, Reino Unido, Irlanda e Bélgica, o filme se insere nesse filão contemporâneo do terror de consciência pesada. Não há criaturas berrando em corredores, e sim comunidades acuadas pelo próprio instinto de sobrevivência.
Pálsson filma o século XIX como quem comenta o noticiário de hoje, mas com elegância suficiente para não transformar a tela em palanque. O resultado é um drama histórico que usa o horror como lente moral, não como parque de diversões.
Sinopse
Em uma vila de pescadores isolada, um navio naufraga durante um inverno impiedoso. Eva, viúva respeitada da comunidade, precisa decidir se acolhe os sobreviventes ou preserva os poucos mantimentos destinados aos moradores locais. A escolha divide a aldeia, desperta culpas antigas e abre espaço para presságios que parecem nascer tanto do mar quanto da consciência coletiva.

Resenha crítica do filme Os Malditos (2025)
Odessa Young: o coração tenso do filme
Se Os Malditos funciona, muito se deve à atuação de Odessa Young. Ela constrói Eva como uma mulher que aprende a comandar enquanto sangra por dentro. Não há heroísmo fácil em seu olhar: cada decisão parece arrancar um pedaço. Young domina a câmera com uma contenção rara, fala pouco, mas pensa alto. É o tipo de performance que segura o espectador pelo pulso e o obriga a dividir a culpa com a personagem.
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A ausência que dói
Aqui vai um ligeiro spoiler, mas que não compromete esta resenha: por isso mesmo é impossível não lamentar a saída precoce de Rory McCann da narrativa. Seu personagem vinha ganhando densidade e contraste com a liderança de Eva, e a interrupção abrupta deixa um vazio dramático difícil de ignorar.
McCann, eternamente lembrado como Sandor, O Cão de Caça, de Game of Thrones, traz aquela presença física imponente misturada a uma melancolia quase infantil. Quando ele desaparece de cena, o filme perde uma camada de tensão humana que prometia render frutos amargos, e bons.
Joe Cole e a herança da brutalidade
Do outro lado do tabuleiro está Joe Cole, que muita gente reconhece como o irmão impulsivo de Thomas Shelby em Peaky Blinders. Aqui ele repete a vocação para personagens que confundem lealdade com violência. Cole trabalha com gestos curtos e um temperamento que parece sempre a um argumento de virar motim. Sua interação com Odessa Young forma o eixo mais interessante do longa: razão ferida contra pragmatismo nervoso.
O horror como matemática social
Pálsson filma a escassez como quem filma um crime em câmera lenta. Cada peixe dividido, cada porta fechada, cada voto sussurrado vira um tijolo no edifício da tragédia. O sobrenatural surge quase como comentário sarcástico da própria comunidade: um jeito confortável de chamar de maldição aquilo que tem nome e CPF.
Estética do desconforto
A fotografia gelada, o som do mar mastigando pedras, o ritmo que respeita o tempo da culpa, tudo trabalha para que o espectador não tenha onde se esconder. Não é filme de susto; é filme de digestão lenta. Daqueles que continuam conversando com a gente no caminho de casa, mesmo quando a gente preferia mudar de assunto.
Conclusão
Os Malditos retoma a tese anunciada desde o primeiro minuto: nenhuma maldição é mais eficiente que uma decisão coletiva mal resolvida. O longa fala de um passado distante para iluminar um presente que ainda discute quem merece abrigo quando o inverno chega. Sem panfletos e sem catecismos, o filme prefere a dúvida ao sermão, e faz do espectador cúmplice silencioso do veredito.
Onde assistir ao filme Os Malditos?
Trailer de Os Malditos (2025)
Elenco do filme Os Malditos
- Odessa Young
- Joe Cole
- Rory McCann















