Há algo de profundamente perturbador e belo na maneira como o cinema austríaco encarcerado na tradição de diretores como Michael Haneke e Ulrich Seidl olha para o passado. Em Rose (2026), novo longa-metragem dirigido por Markus Schleinzer e estrelado pela fenomenal atriz alemã Sandra Hüller, essa herança estética se manifesta em uma narrativa austera, gravada em um preto e branco límpido e reluzente.
Longe de ser apenas uma reconstrução de época distante, a obra funciona como um espelho incisivo do presente ao discutir autonomia, gênero, poder e o preço da liberdade individual dentro de uma sociedade comunitária sufocante.
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A história e a busca desesperada por sobrevivência no pós-guerra
A trama de Rose se desenvolve na Alemanha do século XVII, logo após o encerramento da devastadora Guerra dos Trinta Anos (1618–1648). Em meio a um cenário rural arruinado e tomado pela pobreza, um soldado misterioso e silencioso surge em um isolado povoado protestante no Sacro Império Romano-Germânico. Com o rosto visivelmente desfigurado por uma cicatriz de projétil na bochecha e portando um documento oficial, o forasteiro reivindica a herança de uma propriedade agrícola há muito abandonada.
Apesar da inicial desconfiança dos aldeões, o estranho demonstra ser trabalhador, religioso e extremamente dedicado. O que a comunidade não imagina é que aquele homem é, na verdade, uma mulher disfarçada sob roupas masculinas e sob o nome roubado de um companheiro de armas falecido em combate. Tendo aprendido desde muito jovem que “há mais liberdade nas calças”, a protagonista assume a farsa não por capricho, mas como uma estratégia pragmática de emancipação e sobrevivência para ter acesso a direitos básicos como possuir terras e trabalhar com autoridade em um mundo dominado por homens.
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Da farsa ao casamento de conveniência
Acomodada na fazenda arruinada, a protagonista passa a reconstruir a propriedade com rigor e disciplina. Ela emprega trabalhadores locais, paga salários dignos e chega a ensinar os criados a ler e escrever para que não sejam enganados por terceiros. O respeito da comunidade se consolida definitivamente quando Rose abate um urso ameaçador que rondava a região, garantindo o status de figura heroica e honrada entre os moradores.
Contudo, a aceitação em uma comunidade patriarcal exige o cumprimento de obrigações sociais rígidas. Um próspero fazendeiro vizinho propõe o casamento do ex-soldado com sua filha, a jovem Suzanna (interpretada por Caro Braun). Recusar a oferta levantaria suspeitas de anormalidade; assim, a protagonista aceita o matrimônio arranjado.
Na noite de núpcias, para evitar revelar seu sexo biológico, ela inicialmente convence a esposa de que devem manter a pureza sexual. Mais tarde, para manter as aparências perante a cobrança comunitária por herdeiros, utiliza um artefato artesanal de madeira disfarçado na escuridão. Tempos depois, surpreendendo o próprio vilarejo, Suzanna surge grávida. A origem biológica do bebê permanece envolta em mistério, mas o fato estabiliza a posição social da família. Entre Rose e Suzanna, cria-se uma cumplicidade e um pacto secreto de proteção mútua diante da opressão masculina ao redor.
Crítica do filme Rose (2026)
Rigor estético e performance monumental de Sandra Hüller
Sob a direção precisa de Markus Schleinzer (que também assina o roteiro com Alexander Brom), Rose evita qualquer apelo ao melodrama fácil ou ao sentimentalismo de época. A fotografia assinada por Gerald Kerkletz constrói enquadramentos estáticos, compostos como gravuras e pinturas do século XVII, nos quais a luz natural sobre a neve e o barro ressalta a aspereza daquele cotidiano.
A condução do filme ganha um peso magnético graças à atuação monumental de Sandra Hüller. Vencedora do Urso de Prata de Melhor Atuação Principal no Festival de Berlim de 2026 por este papel, a atriz constrói uma personagem contida, rígida nos movimentos e de fala lacônica. Com metade do rosto imóvel devido às próteses da cicatriz de guerra, Sandra Hüller transmite medo, cálculo e determinação em microexpressões e pausas silenciosas, oferecendo um estudo psicológico fascinante.
Construção do gênero e sororidade nas frestas do patriarcado
Um dos pontos mais ricos do longa é a forma como ele aborda o gênero como uma performance social e burocrática. Rose não precisa mudar quem é internamente; precisa apenas adotar os códigos externos — as roupas, a postura, o tom de voz — para que a estrutura patriarcal lhe conceda autoridade e propriedade. O filme recusa rótulos simplistas e contemporâneos para a protagonista, tratando sua escolha como um ato bruto de autocriação e busca por liberdade em meio ao caos pós-guerra.
A relação com Suzanna (em ótima atuação de Caro Braun) enriquece o filme ao trazer uma dimensão de sororidade inesperada. Enquanto a comunidade enxerga o casamento como uma instituição de reprodução obrigatória, as duas mulheres constroem, nas margens dessa imposição, um espaço de afeto e aliança que desafia as regras morais do vilarejo.

Final explicado do filme Rose, com Sandra Hüller
A derrocada da farsa
A aparente estabilidade da fazenda ruí quando um acidente no apiário da propriedade culmina na descoberta do segredo da protagonista por uma funcionária. A farsa se desfaz rapidamente e o choque toma conta da vila protestante. O que antes era uma questão cível de fraude documental se transforma imediatamente em um espetáculo público de julgamento moral, religioso e jurídico.
Os homens que lideram o vilarejo e a justiça eclesiástica reúnem-se para punir a “transgressão contra a realidade” e contra a ordem divina. Rose e Suzanna são encarceradas e submetidas a interrogatórios severos. A comunidade, sentindo-se traída em suas certezas morais, exige uma purificação violenta.
A vitória da escrita sobre a barbárie
O terceiro ato expõe a futilidade e o fanatismo das estruturas de poder patriarcal. Diante do tribunal e da multidão enraivecida que a cerca como se estivesse diante de um “monstro”, Rose proferirá um discurso altivo: ela relembra a todos que, sob a sua gestão, a fazenda prosperou, empregos foram gerados, pessoas aprenderam a ler e a comunidade se beneficiou concretamente de sua presença. No entanto, o preconceito e o ressentimento dogmático se mostram irremovíveis.
Em uma das sequências mais simbólicas e marcantes do filme, as autoridades realizam um “ensaio” da execução de Rose. Em vez de uma espada de aço, o executor golpeia o ombro da protagonista com um manuscrito enrolado, em uma encenação de punição seca e ritualística.
No desfecho, reclusa em sua cela, a protagonista senta-se para redigir sua própria história em papel, exclusivamente para si mesma. A narração em off que acompanhou o espectador revela-se como o próprio texto escrito por ela para a posteridade. O final encerra a obra com uma nota de dignidade e altivez: embora a estrutura social possa destruir o corpo físico e revogar direitos, ela não consegue apagar o ato revolucionário da auto-invenção e a memória de quem ousou existir fora dos moldes impostos.
Como o filme ganhou vida
As filmagens de Rose ocorreram entre maio e dezembro de 2024. As locações principais incluíram o isolado vale de Glasebach, no distrito de Harz (Saxônia-Anhalt, Alemanha), além de paisagens rurais na Baixa Áustria. O diretor Markus Schleinzer, que trabalhou durante anos como diretor de elenco para mestres do cinema austríaco como Michael Haneke e Ulrich Seidl, utilizou sua vasta experiência para selecionar rostos figurantes e coadjuvantes que parecem ter saído diretamente de telas e gravuras do século XVII.
O trabalho de caracterização de Sandra Hüller exigiu próteses faciais minuciosas e maquiagem pesada para criar a cicatriz de arma de fogo na bochecha, sem contudo transformar a caracterização em algo caricato ou artificial. A trilha sonora composta por Tara Nome Doyle utiliza vocalizações pontuais e sutis, preservando os silêncios e os ruídos da natureza que pontuam a atmosfera claustrofóbica do filme.
O elenco do filme Rose: grandes talentos do cinema europeu
O longa-metragem reúne um elenco de destaque do cinema alemão e austríaco:
- Sandra Hüller como Rose / O Soldado
- Caro Braun como Suzanna
- Marisa Growaldt como a Narradora (voz)
- Godehard Giese como o Próspero Fazendeiro Vizinho
- Robert Gwisdek como o Oficial de Justiça / Mórmon Local
- Maria Dragus como a Esposa do Fazendeiro
- Sven-Eric Bechtolf como o Juiz
- Rainer Egger como o Médico da Vila
- Augustino Renken como o Criado Idoso
- Maurice Leonhard como o Criado Jovem
Rose é uma adaptação de história real ou livro?
Rose não é uma adaptação direta de um livro específico ou da biografia de uma única pessoa. Trata-se de um roteiro original escrito por Markus Schleinzer e Alexander Brom. No entanto, a obra foi construída a partir de uma extensa pesquisa histórica que mapeou mais de 300 relatos documentados de mulheres que se disfarçaram de homens na Europa entre os séculos XVI e XVIII por motivos que variavam desde o acesso ao trabalho e fuga da violência até o desejo de autonomia patrimonial.
Historiadores e críticos europeus notaram fortes paralelos entre a narrativa e a vida real de Catharina Margaretha Linck (que viveu sob o nome de Anastasius Lagrantinus Rosenstengel no século XVIII). O diretor Markus Schleinzer declarou ter se inspirado na história de uma mulher executada em Halberstadt por viver sob identidade masculina 250 anos antes de seu nascimento, usando esse contexto como base para criar uma parábola universal sobre poder e liberdade.
Onde assistir a Rose no streaming e nos cinemas?
Após sua aclamação no Festival de Berlim, os direitos de distribuição internacional de Rose foram adquiridos pela prestigiada distribuidora The Match Factory e pela plataforma MUBI para diversos territórios, incluindo a América Latina e o Brasil.
No Brasil, o longa-metragem teve suas primeiras exibições no circuito dos grandes festivais de cinema, integrando a seleção do Festival do Rio. O lançamento comercial nos cinemas brasileiros ocorre com distribuição conjunta da O2 Play e da MUBI, seguido de sua disponibilização exclusiva no catálogo de streaming da MUBI.
Trailer do filme Rose (2026)
Ficha técnica de Rose
| Informações | Detalhes |
|---|---|
| Título original | Rose |
| Ano de lançamento | 2026 |
| País de origem | Áustria e Alemanha |
| Duração | 93 minutos |
| Gênero | Drama histórico / Estudo de personagem |
| Direção | Markus Schleinzer |
| Roteiro | Markus Schleinzer e Alexander Brom |
| Elenco principal | Sandra Hüller, Caro Braun, Marisa Growaldt, Godehard Giese, Robert Gwisdek |
| Direção de fotografia | Gerald Kerkletz |
| Montagem | Hansjörg Weißbrich |
| Trilha sonora original | Tara Nome Doyle |
| Companhias produtoras | Schubert, ROW Pictures, Walker + Worm Film |
| Distribuição no Brasil | MUBI / O2 Play |
| Principais prêmios | Urso de Prata de Melhor Atuação (Sandra Hüller) no Festival de Berlim 2026; Representante da Áustria no Oscar 2027 |
















