Houve um tempo em que a glória se media em fichas. O ponto de encontro de uma geração inteira não era um servidor no Discord, mas sim um fliperama espremido num boteco sujo de bairro, cheio de fumaça e gente duvidosa. Era ali, roubando o troco do pão para garantir mais um “Continue”, que a cultura pop forjou um dos seus maiores ícones. E é exatamente com a molecada dessa época, que hoje já bate na casa dos 40 ou 50 anos, que o novo filme de Street Fighter dialoga.
Ao contrário de tentativas passadas que fracassaram ao tentar transformar a franquia em algo denso e sério, a obra dirigida por Kitao Sakurai escolhe o caminho oposto: abraça a galhofa de peito aberto. Colorido, absurdo e sem a menor vergonha de ser um filme de videogame, o longa entende perfeitamente o que quer ser — e é justamente por não se levar a sério que ele triunfa de maneira honesta.
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A história do novo filme do Street Fighter
A trama nos leva de volta a 1993. Seis anos após Ryu (Andrew Koji) derrotar Sagat no primeiro torneio — evento que despertou o poder de Akuma (Roman Reigns) e culminou na morte do mestre Gouken —, o ditador M. Bison (David Dastmalchian) resolve sediar o segundo Torneio Mundial de Guerreiros na cidade de Metrolao.
Chun-Li (Callina Liang), operando como agente disfarçada da Interpol, tenta recrutar lutadores ao redor do mundo para concluir sua vingança contra Bison. Ryu inicialmente recusa o chamado, mas decide viajar apenas para impedir que seu irmão adotivo e porradeiro inconsequente, Ken Masters (Noah Centineo), caia na armadilha. O que se segue é uma escalada frenética de lutas clandestinas, sequestros e um plano megalomaníaco para extrair a energia vital dos lutadores.
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Crítica do filme Street Fighter (2026)
A coragem de ser ridículo (no bom sentido)
A maldição das adaptações de Street Fighter é antiga. Tivemos o clássico controverso e trash com Jean-Claude Van Damme em 1994, o desastroso A Lenda de Chun-Li em 2009 e até a série Assassin’s Fist (2014), que seguiu uma rota mais respeitosa e dramática. Mas o novo filme coroa uma direção inédita, capitaneada pelo humor peculiar de Sakurai.
O longa faz reverências inteligentíssimas ao passado, como a sequência de abertura que resgata a estética e o confronto entre Ryu e Sagat vistos no aclamado longa animado Street Fighter II: The Animated Movie (1994). Aliás, os flashbacks não usam live-action; o filme aposta em animações 2D lindíssimas para contar o passado, integrando as memórias dos personagens diretamente à linguagem estética dos games clássicos.
E a porradaria, como era de se esperar, come solta. As sequências de ação são intensas, exageradas e entregam exatamente os golpes e o dinamismo que os fãs clamavam, com lutadores que parecem ter acabado de pular da tela de seleção de personagens.

Um elenco peculiar com uma musa definitiva
É visível que o elenco está se divertindo absurdamente. A dinâmica entre Andrew Koji e Noah Centineo carrega o núcleo emocional, brincando brilhantemente com o contraste entre o Ryu estoico (que ainda arranca boas risadas) e o Ken debochado. Jason Momoa entrega um Blanka monstruoso e carismático, enquanto Callina Liang brilha como Chun-Li. A câmera não esconde o fascínio pela personagem, celebrando-a como a musa nerd que pautou o imaginário de uma geração inteira — algo escancarado nas piadas sobre sua beleza e na reverenciada cena do banho.
David Dastmalchian merece um parágrafo à parte como M. Bison. O ator — que já havia brilhado no terror Entrevista com o Demônio (2024) — honra o legado do saudoso Raul Julia, entregando um vilão perigoso, megalomaníaco e maravilhosamente insano, calando quem duvidou de seu porte físico para o papel.
A escalação de apoio é uma loucura à parte que funciona perfeitamente dentro da proposta galhofa. Onde mais veríamos Cody Rhodes (Guile), 50 Cent (Balrog), o campeão do UFCAlexander Volkanovski (Joe) e influenciadores digitais dividindo a mesma tela? O filme ainda faz um carinho especial na comunidade de jogos de luta (FGC), incluindo lendas do cenário competitivo, como Justin Wong, IFC Yipes e Maximilian Dood, como prisioneiros de Bison. É uma celebração do ecossistema que manteve a franquia viva.
Final explicado do filme Street Fighter, de 2026
O desfecho do torneio é caótico e grandioso. Após conseguir fugir da máquina de extração de Bison disparando um Hadouken que acaba libertando Blanka, Ryu se junta a Ken e Chun-Li, que invade a base, derrota Vega e Juli, mas é apagada pelo icônico Psycho Crusher de Bison.
O grande embate interno explode quando Ryu, em um raro momento de vulnerabilidade, confessa ter inveja da atitude positiva de Ken e o acusa de tê-lo atrasado. Os irmãos adotivos caem na porrada, e Ryu vence. No entanto, o chefão final os aguarda: Akuma ressurge na arena, ataca e mata Joe. A brutalidade do confronto empurra Ryu para o abismo, fazendo-o despertar a famigerada persona “Evil Ryu“.
Ele derrota Akuma com facilidade, mas perde o controle. Cabe a Ken, acessando finalmente o seu próprio Hadouken, nocautear o amigo para salvá-lo de si mesmo. Aproveitando o caos, Bison foge roubando o corpo de Akuma, deixando nossos heróis para trás.
Mas é nos minutos finais que o longa coroa sua inteligência metalinguística. Após a fuga, Guile e Dhalsim oferecem carona na van. Emulando a clássica tela de vitória dos arcades, Ryu recusa de forma poética, coloca a mochila nas costas e decide seguir caminhando sozinho, descalço pelo mundo. Alguns passos depois, a poesia acaba: Ryu volta correndo para a van, admitindo que o asfalto é duro demais e o caminho é muito longo. Ken, aos risos, diz que já sabia. É uma bobagem deliciosa que resume o espírito do filme.

Street Fighter 2026 tem cena pós-créditos?
Sim, o filme conta com uma cena extra que também utiliza o formato de animação. Nela, vemos M. Bison recrutando o velho rival de Ryu, um Sagat coberto de cicatrizes.
Street Fighter 2: filme de 2026 vai ter continuação?
O roteiro deixa as portas escancaradas para o Round 2. Com Bison fugindo impune do torneio, o corpo de Akuma em sua posse e Sagat agora no radar da Shadaloo, material não falta. A produção constrói um terreno sólido para expandir a mitologia, dependendo apenas do sucesso nas bilheterias para ganhar luz verde.
Então, vale a pena assistir ao novo Street Fighter?
Se você busca um filme cabeça que reinvente as adaptações de videogame, passou longe. Street Fighter é uma celebração colorida, surtada e absurdamente divertida de um ícone da cultura pop.
Ao não levar a si mesmo a sério, o diretor Kitao Sakurai entrega um espetáculo com gosto de nostalgia, feito sob medida para quem sabe exatamente o que significa bater a mão na máquina de fliperama depois de uma vitória suada.
Trailer do filme Street Fighter (2026)
Ficha técnica
| Informação | Detalhe |
| Título | Street Fighter |
| Direção | Kitao Sakurai |
| Distribuição | Paramount Pictures |
| Produção / Associação | Paramount Pictures, Legendary Pictures e Capcom |
| Data de Estreia | 15 de outubro |
| Período de Ambientação | 1993 |
| Gênero | Ação / Luta / Adaptação de Videogame |
| Elenco Principal | Andrew Koji (Ryu) Noah Centineo (Ken Masters) Callina Liang (Chun-Li) Joe “Roman Reigns” Anoa’i (Akuma) David Dastmalchian (M. Bison) Cody Rhodes (Guile) Andrew Schulz (Dan Hibiki) Vidyut Jammwal (Dhalsim) Eric André (Don Sauvage) Curtis “50 Cent” Jackson (Balrog) Jason Momoa (Blanka) |












