O cinema brasileiro contemporâneo tem provado cada vez mais que não precisa se limitar ao eixo Rio-São Paulo para entregar histórias potentes e bem produzidas. Um ótimo exemplo disso é o telefilme catarinense “Um Dia Extraordinário” (2026), dirigido e roteirizado por Cíntia Domit Bittar.
Com cerca de 52 minutos de duração, a obra surpreende por usar uma premissa clássica da ficção científica não para falar de seres de outro planeta, mas como uma desculpa elegante para escancarar as complexidades das relações familiares, o abandono e o envelhecimento.
Sinopse
A trama acompanha a rotina de Moira (Alana Bortolini), uma jovem agricultora que dedica seus dias ao trabalho no campo e ao cuidado de sua mãe octogenária, Dona Ivete (Margarida Baird), que já começa a dar os primeiros sinais de Alzheimer. A vida pacata e isolada delas no interior de Santa Catarina sofre um abalo repentino quando um enorme agroglifo — aqueles círculos misteriosos em plantações — aparece misteriosamente na propriedade.
Ivete, que nutre um fascínio quase lúdico por extraterrestres, vê a marca como um sinal cósmico. No entanto, o fenômeno acaba tendo um impacto muito mais terreno: atrai de volta para a fazenda os irmãos de Moira, Cecília (Paula Braun) e Maurício (Valdir Grillo). A partir desse reencontro inesperado, a família é forçada a confrontar a distância emocional que os separou ao longo dos anos e a finitude da matriarca.
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Crítica do filme Um Dia Extraordinário
A força do realismo mágico e o protagonismo feminino
O grande mérito da produção é não tentar ser um suspense sobre o desconhecido. A diretora usa o mistério do agroglifo, que inclusive foi construído fisicamente de forma realística na plantação, como um verdadeiro catalisador para chacoalhar a rotina dos personagens. O filme brilha ao focar no contato humano, abordando de forma sensível o peso da “mulher cuidadora” e o abandono na terceira idade.
Alana Bortolini entrega uma Moira com a força silenciosa de quem sustenta a casa e as emoções da mãe. Já Margarida Baird ancora o peso emocional do filme; sua personagem foge da caricatura médica e usa a curiosidade sobre ETs como uma metáfora linda para a própria desconexão com a realidade. A química entre o elenco feminino — que se completa com a excelente Paula Braun — é palpável nos silêncios e nos pequenos gestos.

A estética da solidão
Visualmente, o filme manda muito bem e aproveita as paisagens de cidades como Abelardo Luz e Bom Retiro. Os primeiros minutos são geniais ao flertar quase com o terror, mostrando a imensidão da lavoura e a solidão daquelas mulheres. Há um plano de drone específico, que sobe revelando a protagonista cada vez menor no meio dos círculos na fazenda gigantesca, que é uma representação visual perfeita do isolamento que ela e a mãe sentem.
Outro ponto que merece palmas é a valorização da cultura local. Ouvir o sotaque forte e autêntico do Meio-Oeste catarinense de forma tão natural na tela é um refresco e mostra a beleza da pluralidade do nosso cinema fora dos grandes centros.
O excesso de didatismo e os tropeços
Mas nem tudo são flores, e é na execução que o filme dá algumas derrapadas. O maior problema de “Um Dia Extraordinário” é que a direção parece não confiar na capacidade do público de entender a mensagem. Se o começo apostava na sutileza e na imersão silenciosa, a segunda metade abraça diálogos extremamente expositivos. O roteiro decide “mastigar” para o espectador todas as lições sobre ingratidão filial e a pressa da vida moderna, tirando o espaço para a ambiguidade e deixando a mensagem didática demais.
A trilha sonora também peca ao tentar pontuar e ditar quase todas as emoções que o público deve sentir, quebrando o clima imersivo. Além disso, embora o elenco brilhe em grande parte, há momentos que soam artificiais, como o sotaque um tanto forçado de Valdir Grillo, e certas cenas em que até mesmo a experiente Margarida Baird é levada pela direção a fazer caretas e expressões um pouco exageradas na cama, buscando uma simpatia forçada que não combinava muito com o tom do filme.
Conclusão
Mesmo com roteiro tropeçando no excesso de explicações, “Um Dia Extraordinário” é uma obra indispensável e que cumpre lindamente o seu papel. Trata-se de um drama agridoce que consegue equilibrar o lúdico com questões profundamente viscerais e reais da vida adulta. A coprodução da Novelo Filmes com a Globo Filmes deixa um legado importante de empatia.
É um lembrete tocante de que, por mais que a gente procure o extraordinário nas estrelas, as maiores complexidades e os encontros mais bonitos ainda estão bem debaixo do nosso teto, no convívio com a nossa família. Vale muito a pena o play!
Onde assistir online ao filme Um Dia Extraordinário?
Trailer de Um Dia Extraordinário (2026)
Elenco de Um Dia Extraordinário, do Globoplay
- Alana Bortolini
- Margarida Baird
- Paula Braun
- Valdir Grillo
- Sarah Motta
- Emilly Vicente
- Andres Freitas

















