Há um ritual que só a Cinelândia é capaz de orquestrar quando o cinema brasileiro decide se olhar no espelho sem vernizes e sem pudores. Ao longo de onze dias intensos, entre 1 e 11 de outubro de 2026, mais de 150 mil espectadores cruzaram as salas de exibição cariocas para testemunhar a força expressiva de 101 produções nacionais, das quais 45 disputavam lugar de honra nas mostras competitivas. Sob o teto clássico e acolhedor do Cine Odeon, na noite de encerramento da 28ª edição do Festival do Rio, o anúncio dos troféus revelou um painel cinematográfico que recusa a acomodação estética e elege a coragem como sua principal matéria-prima.
A cerimônia de premiação, conduzida com equilíbrio e elegância pela dupla de atores Vanessa Giácomo e Rafael Infante, selou a entrega do cobiçado Troféu Redentor e dos títulos das mostras paralelas, da crítica e dos júris internacionais. Sob a liderança da produtora espanhola Esther García na presidência do júri oficial da Première Brasil, o festival reconheceu narrativas que desenterram feridas sociais e erguem monumentos à imaginação.
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A soberania poética de A Margem do Rio e o vigor da Première Brasil
O grande protagonista da noite foi A Margem do Rio, ficção vigorosa dirigida por Enock Carvalho e Matheus Farias e realizada pela Gatopardo Filmes, que conquistou o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Ficção e também arrematou o prestigioso Prêmio Felix de Melhor Filme Brasileiro. A força visceral da obra ressoou nas decisões técnicas e artísticas do júri: o trabalho rendeu o prêmio de Melhor Fotografia a Luciana Baseggio, a estatueta de Melhor Som para a equipe formada por Moabe Filho, Guma Farias, Daniel Turini e João Victor Coura, além do troféu coletivo de Melhor Atriz Coadjuvante para Renna Costa, Artia e Ísis Broken.
Na vertente do cinema documental, a reverência à memória sonora e cultural do país consagrou Elza, dirigido por Eryk Rocha e produzido pela parceria entre Aruac Filmes e Maria Farinha Filmes, laureado como Melhor Longa-Metragem Documentário.
Outro polo magnético da competição foi Vicentina Pede Desculpas, obra que carimbou a sensibilidade do cineasta Gabriel Martins, vencedor do prêmio de Melhor Direção de Ficção e de Melhor Roteiro, além de conquistar o carinho irrestrito do público ao arrematar o Troféu de Melhor Longa-Metragem de Ficção no Voto Popular. Nos documentários, a voz das ruas foi unânime em apontar Fui Olhar Você Dormir, de Anna Azevedo, como a obra predileta pelo júri popular.
A direção documental premiada pelo júri oficial coube a Camila Valença, pelo impacto plástico de Cão Sem Plumas, enquanto nos curtas-metragens da Première Brasil o troféu maior foi conferido a Santo, produção da UFO sob a direção de Maria Luísa Alves.
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O talento interpretativo e os caminhos da sensibilidade
No campo das atuações, o festival desenhou momentos de pura generosidade artística. O júri oficial optou por uma consagração compartilhada ao conceder o prêmio de Melhor Atriz ex aequo para duas forças dramáticas singulares: Isabel Teixeira, pela densidade arrebatadora de sua atuação em Diário do Fogo, e Grace Passô, que domina a tela com precisão cortante em A Professora de Francês. O longa estrelado por Grace Passô também foi laureado pela Trilha Sonora Original de Florencia Di Concilio e pelo trabalho de Pedro Goifman, eleito Melhor Ator Coadjuvante.
A interpretação masculina principal celebrou o talento de Victor di Marco pelo contundente LONDON, filme realizado em parceria com Márcio Picoli que também saiu vitorioso nas categorias de Melhor Figurino, assinado por Samy Sill, e Melhor Filme Brasileiro segundo a FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).
O rigor da montagem também dividiu honras em um empate ex aequo entre a equipe de Cristina Amaral, Fabio Meira e Juliano Castro, por A Extraordinária Vida de Vera Valdez, e as montadoras Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos, por Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira. O visual urbano e rítmico de Funk garantiu a Ana Paula Cardoso o troféu de Melhor Direção de Arte, enquanto o Prêmio Especial do Júri foi outorgado a O Filho da Puta, assinado por Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite.
O frescor inquieto da Mostra Novos Rumos
Sob a presidência da montadora e diretora Karen Harley, o júri da Mostra Novos Rumos buscou sintonizar as vozes que desestabilizam certezas. O grande vencedor de Melhor Longa-Metragem foi Não Estamos Sonhando, do realizador Ulisses Arthur e da produtora Céu Vermelho Fogo Filmes, título que também rendeu o prêmio de Melhor Ator para Pedro Leão.
A delicadeza e a maturidade cênica de Nina Prado no drama O Deserto de Luiza garantiram a ela a estatueta de Melhor Atriz da mostra. O mesmo O Deserto de Luiza, conduzido por Alan Minas, conquistou a acolhida calorosa das plateias e levou o Troféu de Melhor Longa no Voto Popular.
A melhor direção foi atribuída a Thais Fujinaga por seu olhar em Talismã, enquanto entre os curtas-metragens brilhou Ondas de Silêncio, de Caio J. Bonfim (C-Bonfim Filmes). O júri ainda reservou um Prêmio Especial para saudar o elenco do curta Um Domingo, concebido por Maíra Bühler e Rô Albuquerque.
A diversidade do Prêmio Felix e os olhares da crítica
O cinema de temática LGBTQIA+ e direitos humanos encontrou no Prêmio Felix, presidido por Ericka Gavinho, uma vitrine de alcance global. Além da coroação de A Margem do Rio na seara nacional, o festival consagrou a produção internacional Em Segredo (À voix basse), da diretora Leyla Bouzid, e o pungente documentário Pai e Pai (Father, Father), de Jake Witzenfeld.
O Prêmio Especial do Júri coube à inventividade de Morfeu e Caronte, de Jocimar Dias Jr e Luiz Ulian, com menção honrosa conferida a Elefantes na Névoa (Tinīharū), de Abinash Bikram Shah. O troféu Suzy Capó, que anualmente homenageia a Personalidade do Ano, celebrou a trajetória de Rita Von Hunty / Guilherme Terreri.
O olhar da crítica estrangeira e as votações populares ampliaram as janelas de circulação internacional e televisiva. Na Mostra Expectativa, o voto popular premiou Maria Vitória, de Mário Patrocínio, que garantiu o Prêmio Aquisição TV Globo. Já na Première Latina, o favorito do público foi Seis Meses no Prédio Rosa e Azul (Seis Meses en el Edificio Rosa con Azul), de Bruno Santamaría Razo, que assegurou distribuição com o Prêmio Aquisição Telecine e levou também a distinção de Melhor Filme Latino pela FIPRESCI.
Por sua vez, a Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira premiou o longa Me deixa ser (Let Us Be), de Viviane D’Avilla, destinando menção honrosa a 144 – Apocalipse Não, de João Paulo Cuenca.

Relação completa dos vencedores do Festival do Rio 2026
Première Brasil – Júri oficial
- Melhor longa-metragem de ficção: A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias (Gatopardo Filmes)
- Melhor longa-metragem documentário: Elza, de Eryk Rocha (Aruac Filmes e Maria Farinha Filmes)
- Melhor curta-metragem: Santo, de Maria Luísa Alves (Produtora UFO)
- Melhor direção de ficção: Gabriel Martins, por Vicentina Pede Desculpas
- Melhor direção de documentário: Camila Valença, por Cão Sem Plumas
- Melhor ator: Victor di Marco, por LONDON
- Melhor atriz (ex aequo): Isabel Teixeira, por Diário do Fogo, e Grace Passô, por A Professora de Francês
- Melhor ator coadjuvante: Pedro Goifman, por A Professora de Francês
- Melhor atriz coadjuvante: Renna Costa, Artia e Ísis Broken, por A Margem do Rio
- Melhor roteiro: Gabriel Martins, por Vicentina Pede Desculpas
- Melhor montagem (ex aequo): Cristina Amaral, Fabio Meira e Juliano Castro, por A Extraordinária Vida de Vera Valdez, e Cristiane Oliveira e Tula Anagnostopoulos, por Ela Foi Ali Guardar o Coração na Geladeira
- Melhor fotografia: Luciana Baseggio, por A Margem do Rio
- Melhor direção de arte: Ana Paula Cardoso, por Funk
- Melhor figurino: Samy Sill, por LONDON
- Melhor som: Moabe Filho, Guma Farias, Daniel Turini e João Victor Coura, por A Margem do Rio
- Melhor trilha sonora original: Florencia Di Concilio, por A Professora de Francês
- Prêmio especial do júri: O Filho da Puta, de Erica Maradona, Tania Anaya, Otto Guerra e Sávio Leite
Première Brasil – Voto popular
- Melhor longa-metragem de ficção: Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins
- Melhor longa-metragem documentário: Fui Olhar Você Dormir, de Anna Azevedo
Mostra Novos Rumos
- Melhor longa-metragem: Não Estamos Sonhando, de Ulisses Arthur (Céu Vermelho Fogo Filmes)
- Melhor curta-metragem: Ondas de Silêncio, de Caio J. Bonfim (C-Bonfim Filmes)
- Melhor direção: Thais Fujinaga, por Talismã
- Melhor atriz: Nina Prado, por O Deserto de Luiza
- Melhor ator: Pedro Leão, por Não Estamos Sonhando
- Prêmio especial do júri: Elenco do curta Um Domingo, de Maíra Bühler e Rô Albuquerque
- Melhor longa (voto popular): O Deserto de Luiza, de Alan Minas
Prêmio Felix
- Melhor filme brasileiro: A Margem do Rio, de Enock Carvalho e Matheus Farias
- Melhor filme internacional: Em Segredo (À voix basse), de Leyla Bouzid
- Melhor documentário: Pai e Pai (Father, Father), de Jake Witzenfeld
- Prêmio especial do júri: Morfeu e Caronte, de Jocimar Dias Jr e Luiz Ulian
- Menção honrosa: Elefantes na Névoa (Tinīharū), de Abinash Bikram Shah
- Prêmio Suzy Capó (Personalidade do Ano): Rita Von Hunty / Guilherme Terreri
Mostras paralelas e prêmios da crítica
- Mostra Expectativa (Prêmio Aquisição TV Globo – Voto do Público): Maria Vitória, de Mário Patrocínio
- Mostra Première Latina (Prêmio Aquisição Telecine – Voto do Público): Seis Meses no Prédio Rosa e Azul (Seis Meses en el Edificio Rosa con Azul), de Bruno Santamaría Razo
- Prêmio FIPRESCI (Melhor Filme Brasileiro): LONDON, de Victor di Marco e Márcio Picoli
- Prêmio FIPRESCI (Melhor Filme Latino): Seis Meses no Prédio Rosa e Azul (Seis Meses en el Edificio Rosa con Azul), de Bruno Santamaría Razo
- Prêmio Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira (Melhor Filme): Me deixa ser (Let Us Be), de Viviane D’Avilla
- Prêmio Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira (Menção Honrosa): 144 – Apocalipse Não, de João Paulo Cuenca















