Ao decidirmos deixar o lar dos pais, surge o dilema: como sustentar a autonomia sem o suporte familiar por um período prolongado? Essa questão é frequentemente dirigida aos que partem, mas raramente aos que permanecem.
Em A Casa do Vento, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Auguste Bernard Kouemo Yanghu propõe uma reflexão pertinente sobre o abandono involuntário.
A narrativa acompanha Josette, uma octogenária dos Camarões que busca preservar os laços com os filhos emigrados, estimulando a construção de moradias em sua terra natal. Contudo, ao se aproximar da jovem Sarah, suas convicções sobre família, solidão e pertencimento são profundamente questionadas.
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Crítica do filme A Casa do Vento
O bairrismo como força
Embora Josette pareça focada apenas nos filhos e na própria vida sem eles, sua postura revela uma crença na manutenção das raízes nacionais — o que remete à imigração imposta como alternativa para a busca de melhores condições de vida.
Logo no início, uma sequência mostra idosos do bairro em suas rotinas, envoltos em um vazio latente; essa composição introduz, de forma contida, o tema central do filme.
A cultura de diversos países é frequentemente celebrada, mas o que acontece com as tradições deixadas para trás? Em nações influenciadas por processos coloniais, as heranças familiares frequentemente transmitem a promessa de uma vida transformada, acabando por afastar famílias, ainda que de forma involuntária.
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Ao longo da narrativa, Josette demonstra entusiasmo com a construção da casa de seu filho mais velho, que lhe envia recursos para o projeto. Contudo, com o tempo, sua empolgação com o fortalecimento de suas raízes diminui ao perceber que o filho oculta algo e se recusa a compartilhar.
A obra retrata uma mãe disposta a tudo para viabilizar algo em que acredita: o possível retorno de seu filho à terra natal, que ela considera o melhor para a família.

A amizade como esperança
A trajetória de Josette transforma-se ao conhecer Sarah, jovem que comercializa produtos medicinais artesanais. A moça propõe que a senhora se passe por sua mãe perante um professor francês disposto a se casar com ela; por questões tradicionais, é necessário apresentar a genitora, mas Sarah foi expulsa da família por um motivo inicialmente desconhecido.
Embora amizades surjam de diversas formas, poucas são retratadas entre pessoas de idades tão avançadas. Solitária, inicialmente relutante e desconfiada, Josette aceita o convite com o intuito de auxiliar a jovem a alcançar seu objetivo.
É inevitável o surgimento de um vínculo afetivo, e o roteiro estabelece uma conexão com as personagens que transmite a sensação de acompanhar algo genuíno e brilhante.
À medida que o afeto se intensifica, Sarah passa a ser vista como uma filha por Josette, o que convida à reflexão sobre o desfecho da história — que, sem dúvida, não será decepcionante. Acredito que os elementos apresentados têm grande potencial para emocionar o público.

O muro a ser rompido
A exposição a narrativas como esta, sem uma reflexão sobre a própria trajetória, pode ser interpretada como desperdício de tempo. Somos seres sociais, e o conceito de família apresenta grande variabilidade. Embora seja complexo introduzir novas ideias em idosos, certas verdades precisam ser expostas; o filme demonstra a resistência à mudança nessa faixa etária. A dificuldade de promover avanços em indivíduos fora do nosso alcance é considerável.
Atualmente, enfatiza-se a autonomia, o empreendedorismo e o progresso, mas cabe questionar o que se sacrifica para prosperar: seria correto abandonar a família, mesmo sem conflitos? A realidade de Camarões, retratada na obra, assemelha-se à brasileira em certos momentos; a barreira de uma nação voltada apenas para si mesma deveria ser superada para abordar o envelhecimento globalmente. Até que ponto a imigração é vantajosa? Além do ritmo pausado e da abordagem séria sobre a família, o filme convida à reflexão sobre a vida e a sociedade — e essa é a beleza de uma obra com sensibilidade.
Onde assistir e data de estreia do filme A Casa do Vento
A Casa do Vento integrou o catálogo da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme ainda não tem data de estreia prevista nos cinemas brasileiros.
Trailer do filme A Casa do Vento (2026)
Ficha técnica
| Categoria | Detalhes |
| Título Original | A Casa do Vento |
| Direção | Auguste Bernard Kouemo Yanghu |
| Roteiro | Auguste Bernard Kouemo Yanghu |
| Fotografia | Eva Sehet |
| Montagem | Ewin Ryckaert, Geoffroy Cernaix |
| Design de Produção | Rosine Nkem |
| Música | Michel Duprez, Blick Bassy |
| Som | Emmanuel Bonnat, Lise Bouchez |
| Elenco | Josette Kwanya, Moudjeu Pouadeu, Adrien Jolivet, Babetida Sadjo, Tatiana Rojo, Basseek Fils, Bienvenu Mvoé, Hervé Keedi |
| Produção | Auguste Bernard Kouemo Yanghu, Arthur Grec, John Engel, Faissol Gnonlonfin, Linda Natacha Kwanya Siakam |
| Produzido por | Horizons d’Afrique, La Mansarde Cinéma, Steel Fish Pictures, Merveilles Production |
| Coprodução | Canal+, Proximus, Be tv & Orange, BNP Paribas Fortis Film Finance, Red Sea Fund |
| Vendas Internacionais | Celluloid Dreams |













