A Casa do Vento filme 2026

‘A Casa do Vento’ e a dor silenciosa de quem fica

Foto: Celluloid Dreams / Divulgação
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Ao decidirmos deixar o lar dos pais, surge o dilema: como sustentar a autonomia sem o suporte familiar por um período prolongado? Essa questão é frequentemente dirigida aos que partem, mas raramente aos que permanecem.

Em A Casa do Vento, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Auguste Bernard Kouemo Yanghu propõe uma reflexão pertinente sobre o abandono involuntário.

A narrativa acompanha Josette, uma octogenária dos Camarões que busca preservar os laços com os filhos emigrados, estimulando a construção de moradias em sua terra natal. Contudo, ao se aproximar da jovem Sarah, suas convicções sobre família, solidão e pertencimento são profundamente questionadas.

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Crítica do filme A Casa do Vento

O bairrismo como força

Embora Josette pareça focada apenas nos filhos e na própria vida sem eles, sua postura revela uma crença na manutenção das raízes nacionais — o que remete à imigração imposta como alternativa para a busca de melhores condições de vida.

Logo no início, uma sequência mostra idosos do bairro em suas rotinas, envoltos em um vazio latente; essa composição introduz, de forma contida, o tema central do filme.

A cultura de diversos países é frequentemente celebrada, mas o que acontece com as tradições deixadas para trás? Em nações influenciadas por processos coloniais, as heranças familiares frequentemente transmitem a promessa de uma vida transformada, acabando por afastar famílias, ainda que de forma involuntária.

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Ao longo da narrativa, Josette demonstra entusiasmo com a construção da casa de seu filho mais velho, que lhe envia recursos para o projeto. Contudo, com o tempo, sua empolgação com o fortalecimento de suas raízes diminui ao perceber que o filho oculta algo e se recusa a compartilhar.

A obra retrata uma mãe disposta a tudo para viabilizar algo em que acredita: o possível retorno de seu filho à terra natal, que ela considera o melhor para a família.

filme A Casa do Vento 2026
Foto: Celluloid Dreams / Divulgação

A amizade como esperança

A trajetória de Josette transforma-se ao conhecer Sarah, jovem que comercializa produtos medicinais artesanais. A moça propõe que a senhora se passe por sua mãe perante um professor francês disposto a se casar com ela; por questões tradicionais, é necessário apresentar a genitora, mas Sarah foi expulsa da família por um motivo inicialmente desconhecido.

Embora amizades surjam de diversas formas, poucas são retratadas entre pessoas de idades tão avançadas. Solitária, inicialmente relutante e desconfiada, Josette aceita o convite com o intuito de auxiliar a jovem a alcançar seu objetivo.

É inevitável o surgimento de um vínculo afetivo, e o roteiro estabelece uma conexão com as personagens que transmite a sensação de acompanhar algo genuíno e brilhante.

À medida que o afeto se intensifica, Sarah passa a ser vista como uma filha por Josette, o que convida à reflexão sobre o desfecho da história — que, sem dúvida, não será decepcionante. Acredito que os elementos apresentados têm grande potencial para emocionar o público.

A Casa do Vento 2026 filme
Foto: Celluloid Dreams / Divulgação

O muro a ser rompido

A exposição a narrativas como esta, sem uma reflexão sobre a própria trajetória, pode ser interpretada como desperdício de tempo. Somos seres sociais, e o conceito de família apresenta grande variabilidade. Embora seja complexo introduzir novas ideias em idosos, certas verdades precisam ser expostas; o filme demonstra a resistência à mudança nessa faixa etária. A dificuldade de promover avanços em indivíduos fora do nosso alcance é considerável.

Atualmente, enfatiza-se a autonomia, o empreendedorismo e o progresso, mas cabe questionar o que se sacrifica para prosperar: seria correto abandonar a família, mesmo sem conflitos? A realidade de Camarões, retratada na obra, assemelha-se à brasileira em certos momentos; a barreira de uma nação voltada apenas para si mesma deveria ser superada para abordar o envelhecimento globalmente. Até que ponto a imigração é vantajosa? Além do ritmo pausado e da abordagem séria sobre a família, o filme convida à reflexão sobre a vida e a sociedade — e essa é a beleza de uma obra com sensibilidade.

Onde assistir e data de estreia do filme A Casa do Vento

A Casa do Vento integrou o catálogo da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme ainda não tem data de estreia prevista nos cinemas brasileiros.

Trailer do filme A Casa do Vento (2026)

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Ficha técnica

CategoriaDetalhes
Título OriginalA Casa do Vento
DireçãoAuguste Bernard Kouemo Yanghu
RoteiroAuguste Bernard Kouemo Yanghu
FotografiaEva Sehet
MontagemEwin Ryckaert, Geoffroy Cernaix
Design de ProduçãoRosine Nkem
MúsicaMichel Duprez, Blick Bassy
SomEmmanuel Bonnat, Lise Bouchez
ElencoJosette Kwanya, Moudjeu Pouadeu, Adrien Jolivet, Babetida Sadjo, Tatiana Rojo, Basseek Fils, Bienvenu Mvoé, Hervé Keedi
ProduçãoAuguste Bernard Kouemo Yanghu, Arthur Grec, John Engel, Faissol Gnonlonfin, Linda Natacha Kwanya Siakam
Produzido porHorizons d’Afrique, La Mansarde Cinéma, Steel Fish Pictures, Merveilles Production
CoproduçãoCanal+, Proximus, Be tv & Orange, BNP Paribas Fortis Film Finance, Red Sea Fund
Vendas InternacionaisCelluloid Dreams
Escrito por
Elros Rocha

Radialista, comunicador e editor de imagens. Um vampiro baiano que vive em São Paulo e ama cinema como nenhuma outra pessoa já amou. Gosto do simples quando se trata da sétima arte e não me contento em apenas gostar de Shrek 2, preciso defendê-lo com unhas e dentes, literalmente, se for preciso.

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