Quem acompanhou a série colombiana A Primeira Vez na Netflix provavelmente se lembra de Martín Salcedo, um personagem secundário que ganhou os holofotes na estreia da quarta temporada da série original. Agora, a plataforma decidiu apostar alto (e de um jeito bem peculiar) expandindo o universo daquele grupo de amigos.
O resultado é A Salsa de Salcedo, uma produção que abandona a inocência do drama juvenil e joga o espectador direto no submundo dos bares de salsa da Colômbia dos anos 70 e 80.
A série não tenta ser uma continuação exata de A Primeira Vez, mas sim uma história paralela sobre como as más decisões, a vida noturna e os excessos moldaram um cara que não tem nada de herói tradicional. É um experimento de formato curtíssimo que diverte, mas que cobra seu preço na profundidade.
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Sinopse
O enredo acompanha Martín Salcedo, um cliente assíduo do famoso clube de salsa Quiebra Canto. É lá que ele fica fascinado por Verónica Pinilla, uma garçonete durona e pé no chão. Verónica se recusa a misturar negócios com prazer e não dá a menor bola para ele romanticamente, mas ela tem um segredo: é traficante de cocaína para uma chefe conhecida como “Vandalia”.
Depois de proteger Verónica em uma briga e bater em clientes problemáticos (como os irmãos Clavijo), Martín ganha a confiança dela e consegue um emprego de segurança com o gerente, Ismael. Em pouco tempo, ele começa a ajudar Verónica nas vendas e sobe de cargo até virar DJ do clube.
O problema? Salcedo passa a consumir do próprio produto, desenvolve um vício pesado e, na tentativa de não perder dinheiro, decide batizar a cocaína com pó de tijolo. A partir daí, suas atitudes impulsivas geram uma bola de neve de encrencas envolvendo gangsters locais (como o endinheirado Ganso), agressões e dívidas, ameaçando não só a sua vida, mas a de toda a equipe do bar.
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Crítica da série A Salsa de Salcedo, da Netflix
O risco (e o preço) do formato
O que mais chama a atenção de cara em A Salsa de Salcedo é o formato. São 12 episódios curtíssimos, variando entre 6 e 12 minutos (com uma boa parte engolida pelos créditos finais). A diretora Laura Tatiana Bohórquez filmou a obra na horizontal, pensada para a TV, mas a estrutura narrativa parece uma playlist frenética do TikTok.
Por um lado, isso cria um ritmo alucinante e impossível de largar. Você assiste tudo quase como se fosse um único filme. Por outro, o tempo escasso não deixa as tramas respirarem. Roteirizada por Dago García, a série entrega conflitos complexos — uso de drogas duras, abusos, violência, exploração — que são resolvidos depressa demais para que o espectador sinta o verdadeiro peso emocional ou o custo psicológico na pele do protagonista.

O melhor personagem
Onde o roteiro perde em desenvolvimento, a direção de arte e a trilha sonora ganham de goleada. A ambientação retrô e as batidas da salsa brava e do boogaloo não estão ali só para enfeitar, elas guiam as cenas. O clube Quiebra Canto é um ambiente vibrante, suado e realista (inclusive, o próprio Dago García trabalhou como DJ no Quiebra Canto real, e dá pra sentir que essas memórias sustentam a trama). É aquele tipo de lugar onde a pista de dança serve de palco para negócios obscuros, lealdades são compradas e as aparências enganam o tempo todo.
Atuações que seguram a pista de dança
Sergio Palau consegue um feito difícil: ele nos faz torcer por Martín Salcedo mesmo quando o personagem age como um moleque impulsivo, egoísta e completamente inconsequente. Ele não é vilão nem mocinho, é só um cara humano tomando decisões péssimas.
Mas quem rouba a cena mesmo é Paola González, como Verónica. Ela é quem conserta a bagunça de todo mundo, muito mais inteligente e realista que Martín. Inclusive, é ótimo que a série escape do clichê do romance óbvio; a relação dos dois se desenvolve em cima de confiança, tensão no trabalho e coleguismo bruto, deixando de lado a atração inicial.
O elenco de apoio também funciona super bem, como Ramiro Meneses no papel do turvo gerente Ismael, e as aparições menores de Sara Pinzón (como Luisa, irmã de Martín) e Laura Taylor (como a golpista Daniela).
Tons inconstantes
Um detalhe curioso e divertido que compensa alguns furos do roteiro é descobrir que estamos assistindo a tudo pela perspectiva de Verónica, que narra a história. Em vários momentos, como na briga final contra os arruaceiros Clavijo, Martín nem sequer participa porque está doente em casa (impedido de sair por sua irmã), embora ele adore fingir que estava lá. Ou seja, toda a história pode ser apenas uma lenda urbana ou um causo exagerado de bar.
O maior defeito da série é não saber equilibrar as transições de humor. Num minuto estamos rindo de esquemas idiotas de Martín vendendo rum barato no bar, e logo em seguida a trama desce para lugares muito sombrios envolvendo o ego masculino, dependência química e violência. Essa montanha-russa de tons, sem tempo para assimilar o trauma, pode frustrar quem esperava um drama policial com mais sustância.
Série A Salsa de Salcedo é boa?
No fim das contas, A Salsa de Salcedo é uma viagem rápida e cheia de estilo. Se você está esperando um suspense criminal super denso, melhor procurar no catálogo. Mas se você gosta do universo de A Primeira Vez, curte uma estética setentista com música excelente e quer saber o que aconteceu com Martín Salcedo sem precisar comprometer o seu final de semana inteiro, vale muito a pena apertar o play.
A série tem falhas e esbarra nas limitações do seu próprio formato curtinho, mas compensa o espectador entregando uma energia caótica, contagiante e com a dose certa de malícia.
Ficha Técnica
- Título: Salcedo, cuero y boogaloo
- Roteiro / Criação: Dago García
- Direção: Laura Tatiana Bohórquez
- Elenco Principal: Sergio Palau (Martín Salcedo), Paola González (Verónica Pinilla), Ramiro Meneses (Ismael / Dono do Quiebra Canto), Laura Taylor (Daniela), Sara Pinzón (Luisa Salcedo), Carlos Mariño (Ganso)
- Formato: Microssérie em 12 episódios (curta duração)














