filme Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte de 2026 (6)

‘Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte’: quando o filme começa a assistir a si mesmo

Foto: Retrato Filmes / Divulgação
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Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte é um daqueles filmes que parecem estar constantemente prestes a se transformar em outra coisa. No começo, Jane Schoenbrun apresenta uma história que parece relativamente familiar: uma jovem cineasta queer recebe a missão de ressuscitar uma decadente franquia de terror dos anos 1980 e precisa descobrir como transformar um velho slasher em algo que faça sentido para uma nova geração.

É uma premissa que poderia facilmente resultar em uma sátira sobre remakes, nostalgia e Hollywood. Só que Acampamento Miasma não parece interessado em permanecer nesse lugar por muito tempo.

A grande surpresa está justamente na maneira como o filme muda de natureza diante dos nossos olhos. Em determinado momento, aquilo que parecia ser a história de uma diretora tentando fazer um filme passa a se confundir com o próprio filme que ela está tentando fazer.

A metalinguagem deixa de ser apenas um recurso narrativo e passa a dominar a experiência. É quase como assistir a dois filmes diferentes que, aos poucos, descobrem que pertencem um ao outro. O resultado é estranho, sensual, perturbador e, principalmente, muito bonito em sua disposição de não explicar tudo.

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Crítica do filme Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

Um filme dentro do outro

A primeira metade funciona como uma espécie de preparação para essa transformação. Kris, interpretada por Hannah Einbinder, é uma cineasta queer encarregada de revitalizar a franquia Camp Miasma. Para encontrar um novo caminho para a produção, ela procura Billy Presley, a atriz que interpretou a icônica “final girl” do filme original e que agora vive afastada dos holofotes. A aproximação entre as duas começa como uma relação profissional, mas rapidamente adquire uma intensidade que ultrapassa os limites entre admiração, desejo, curiosidade e obsessão.

E é aí que o filme começa a ficar realmente interessante. Kris não está apenas tentando entender quem foi Billy; ela está tentando entender o que aquela personagem significou para ela, para o gênero e para a própria relação que construiu com o cinema de terror. Billy, por sua vez, parece carregar as marcas de ter sido transformada em objeto por uma indústria que construiu sua imagem a partir do sofrimento, do medo e da sexualização. A relação entre as duas passa a funcionar como uma espécie de espelho: Kris olha para Billy através do cinema, enquanto Billy olha para Kris como alguém que pode finalmente enxergar a pessoa por trás da personagem.

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Quando a ficção começa a respirar

A sensação de que existem dois filmes dentro de Acampamento Miasma é, para mim, uma das maiores forças da obra. O primeiro parece ser sobre fazer um filme; o segundo parece ser o próprio filme que nasceu desse processo. Quando as fronteiras começam a desaparecer, o espectador deixa de acompanhar apenas uma história e passa a acompanhar a transformação da própria linguagem cinematográfica. O que antes era roteiro vira realidade; o que parecia realidade começa a adquirir a lógica exagerada de um slasher. A metalinguagem deixa de ser uma brincadeira intelectual e se torna parte da atmosfera.

Isso também explica por que o longa consegue ser tão estranho sem parecer simplesmente aleatório. Schoenbrun utiliza o horror como uma linguagem para falar de desejo, trauma, vergonha, fantasia e identidade. O assassino, a violência e os elementos do slasher não estão ali apenas para provocar sustos: eles fazem parte de um imaginário cinematográfico que os personagens carregam dentro de si. O filme parece perguntar o que acontece quando passamos tanto tempo consumindo histórias de terror que elas começam a influenciar a maneira como entendemos nossos próprios desejos e medos. Essa ideia está no centro da proposta de Schoenbrun de desconstruir o gênero a partir de uma perspectiva queer.

filme Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte de 2026 (4)
Foto: Retrato Filmes / Divulgação

Desejo, medo e duas mulheres perdidas no mesmo filme

E talvez seja justamente por isso que a relação entre Kris e Billy funcione tão bem. O romance não parece colocado na história apenas para cumprir uma expectativa de representatividade. Existe algo mais complicado acontecendo entre elas. Kris sente fascínio por Billy, mas esse fascínio também tem algo de projeção: ela enxerga naquela mulher uma personagem, um passado, uma fantasia e talvez uma possibilidade de compreender a si mesma. Billy, ao mesmo tempo, parece perceber que Kris não consegue separar completamente a atriz da personagem que ela interpretou décadas antes. O desejo entre as duas nasce justamente nesse espaço confuso entre pessoa e imagem.

A sexualidade também está intimamente ligada ao horror. O filme entende que desejo e medo podem ocupar lugares muito próximos e que fantasias consideradas estranhas ou perturbadoras não precisam necessariamente ser tratadas apenas como algo monstruoso. Existe uma tentativa de transformar aquilo que assusta em algo que possa ser compreendido, explorado e ressignificado. Por isso, mesmo quando Acampamento Miasma fica grotesco, exagerado ou completamente insano, existe uma sensibilidade por trás da loucura. E é provavelmente isso que faz com que o filme seja tão bonito apesar de toda a violência: no fundo, ele está falando sobre duas pessoas tentando encontrar alguma forma de existir dentro das histórias que aprenderam a contar sobre si mesmas.

Acampamento Miasma é um bom filme?

Acampamento Miasma é, portanto, um filme difícil de definir — e acho que essa dificuldade faz parte do seu charme. Ele começa como um slasher, passa por uma sátira da indústria cinematográfica, vira um filme sobre obsessão e desejo e termina em um território quase onírico, no qual realidade, fantasia e cinema deixam de ser coisas separadas. Não é necessariamente um filme interessado em entregar respostas claras para tudo o que apresenta. Ele quer mais que o espectador aceite a experiência e embarque naquela lógica cada vez mais estranha.

No fim, o que mais fica é justamente a sensação de ter assistido a dois filmes que foram se fundindo até virar um só. Acampamento Miasma é esquisito, exagerado, sensual, sangrento e profundamente queer, mas também é uma declaração de amor ao próprio ato de criar e consumir cinema. É sobre o que acontece quando uma história deixa de estar apenas na tela e passa a ocupar a cabeça de quem a assiste. E talvez seja essa a maior qualidade do filme: ele não apenas conta uma história sobre personagens que são transformados em personagens — ele transforma o próprio espectador em parte desse jogo.

Trailer do filme Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte

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Elenco de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026)

  • Hannah Einbinder (Kris)
  • Gillian Anderson (Billy Presley)
  • Amanda Fix
  • Arthur Conti
  • Eva Victor
  • Zach Cherry
  • Sarah Sherman
  • Patrick Fischler
  • Dylan Baker
  • Jasmin Savoy Brown
  • Kevin McDonald
  • Quintessa Swindell
  • Jack Haven

📋 Ficha técnica

InformaçãoDetalhes
Título OriginalCamp Miasma (ou Camp Miasma: Adolescence, Sex and Death)
Título no BrasilAcampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte
DireçãoJane Schoenbrun
RoteiroJane Schoenbrun
Empresa ProdutoraPlan B Entertainment
GêneroTerror / Slasher / Meta-horror / Drama Queer
País de OrigemEstados Unidos
Escrito por
Juliana Cunha

Editora na ESPN Brasil e fã de cultura pop, Juliana se classifica como uma nerd saudosa dos grandes feitos da Marvel.

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