Protagonista da série da Caríssima da Netflix com um microfone na mão ao lado de outras duas coadjuvantes (1)

Crítica | O caos de ‘Caríssima’: genialidade incompreendida ou apenas uma comédia ruim da Netflix?

Foto: Divulgação / Netflix
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A Netflix resolveu testar os limites do seu próprio catálogo com Caríssima, uma comédia argentina que está dando o que falar – para o bem e para o mal. Chegando com uma proposta de episódios curtinhos e uma protagonista que é o puro suco do exagero, a série é um retrato caótico do mundo dos influenciadores digitais e da busca incessante por relevância.

Mas será que esse mergulho no absurdo funciona como entretenimento ou é apenas uma tentativa frustrada de fazer humor? A resposta depende muito do seu nível de paciência para personagens propositalmente insuportáveis e bizarros.

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Sinopse

A história gira em torno de Caro Pardíaco (interpretada por Julián Kartun), uma influenciadora digital riquíssima, herdeira e dona de uma vida noturna badalada na Argentina, que parece viver em uma bolha completamente descolada do mundo real. O problema começa quando ela se aproxima do seu aniversário de 30 anos e entra em uma crise existencial pesada pelo fato de ser solteira.

É nesse momento de desespero e vulnerabilidade que ela conhece Leo Papandrea (interpretado por Alex Pelao), um fotógrafo charmoso. Caro se apaixona perdidamente e de forma rápida, ignorando uma série de alertas vermelhos – incluindo o fato de sua leal amiga e gerente, Ana, desconfiar profundamente do rapaz.

O que Caro não imagina é que Leo esconde múltiplas identidades e é, na verdade, um psicopata manipulador com um plano bizarro de vingança contra ela, motivado por um mal-entendido trágico e ridículo da época do colégio. Enquanto organiza a festa mais importante de sua vida, que acaba virando um casamento precipitado, a influenciadora também é alvo de um stalker misterioso, que mais tarde descobrimos ser Ramiro, o irmão gêmeo de Leo, tentando avisá-la do perigo.

Crítica da série Caríssima, da Netflix

O formato caótico para uma mente caótica

Uma das decisões mais acertadas (ou arriscadas, dependendo do ponto de vista) de Caríssima é o seu formato. Com 10 episódios que duram entre 10 e 15 minutos, a série emula a própria velocidade fragmentada das redes sociais. Esse tempo de tela reduzido impede que a protagonista se torne cansativa demais, respeitando a lógica de uma personagem que nasceu e se criou na internet.

Por outro lado, para quem prefere narrativas mais densas, essa estrutura pode dar a sensação de que a série é um tanto vazia ou apressada. De qualquer forma, é o tipo de formato “rápido de maratonar”, que você assiste em pouco mais de uma hora e meia sem sentir que perdeu seu dia inteiro.

Protagonista da série da Caríssima da Netflix de mãos dadas com o namorado na rua usando uma blusa verde e uma saia bege (1)
Foto: Divulgação / Netflix

A origem de Caro e a sátira de classe

Se você caiu de paraquedas, pode achar que Caro Pardíaco é só uma doida qualquer inventada para a Netflix, mas o buraco é mais embaixo. O ator e músico Julián Kartun já interpreta essa personagem há impressionantes 14 anos. Ela rodou pelo YouTube, canais de streaming argentinos (como o Olga) e teatros antes de chegar à gigante do streaming.

A personagem é um estudo de classe finíssimo: ela representa a elite rica e alienada do norte de Buenos Aires, que sobrevive ilesa às crises econômicas do país enquanto derrama suas futilidades online. A festa de 30 anos que dita o tom da série não é só uma festa; é um atestado desesperado de relevância em um mundo onde a fama é descartável.

Humor genial ou apenas problemático?

É aqui que a série racha o público no meio. Há quem possa ver a produção como uma paródia afiadíssima e genial, rindo alto das atitudes absurdamente estúpidas de Caro. No entanto, a série passa longe de ser uma unanimidade. Uma parcela do público e da crítica enxerga o show como um besteirol sem graça e de mau gosto.

O estilo de comédia, focado em um homem barbado vestido de mulher, pode incomodar por ser visto como uma caricatura machista, feita apenas para ridicularizar e inferiorizar o comportamento feminino de forma superficial. As atuações propositalmente forçadas também não agradam todo mundo, deixando a sensação de que pegaram pessoas aleatórias na rua para atuar.

O suspense absurdo e o namorado psicopata

A trama de suspense envolvendo Leo é onde Caríssima atinge seu ápice de loucura. O cara arquitetou um plano de vingança digno de vilão de novela porque, no ensino médio, Caro falou que estava “chocada” com a aparência dele usando uma gíria em inglês (“gagged”), mas ele – complexado com a própria careca – entendeu que ela o chamou de “cabeça de ovo”.

Essa motivação ridícula guia um arco surpreendentemente sombrio de manipulação psicológica. Leo corta os laços de Caro com Ana, a força a mudar o visual para o próprio casamento e até coloca partes de corpos humanos na geladeira, coisas que a protagonista ignora cegamente na sua ânsia por desencalhar antes dos 30. O arco serve para mostrar que por trás da diva intocável do streaming, existe uma pessoa solitária e extremamente vulnerável à toxicidade.

Conclusão: Caríssima é boa?

No fim das contas, Caríssima não tenta abraçar todo mundo e, definitivamente, não é uma série universal. Ela exige que você compre o bilhete para o parque de diversões bizarro de Julián Kartun e aceite o exagero como regra do jogo.

Se você curte um humor nonsense, paródias caricatas e o formato dinâmico que não toma muito do seu tempo, é uma maratona que pode arrancar umas boas risadas ou, no mínimo, te deixar chocado com as reviravoltas ridículas.

Agora, se você procura sutileza ou desenvolvimento profundo de personagens, é melhor passar longe dessa festa. Certa ou errada, a Netflix entregou um produto com identidade de sobra, provando que às vezes aceitar o desconforto é a única forma de contar a história de uma mente caótica.

Onde assistir à série Caríssima?

  • Netflix

Trailer de Caríssima (2026)

YouTube player

Elenco de Caríssima, da Netflix

  • Julián Kartún
  • Alex Pelao
  • Iara Portillo
  • Julián Doregger
  • Anita B Queen
  • Evitta Luna
  • Dario Sztajnszrajber
  • Gastón Pauls
  • Julián Lucero
  • Charo López
Escrito por
Taynna Gripp

Formada em Letras e pós-graduada em Roteiro, tem na paixão pela escrita sua essência e trabalha isso falando sobre Literatura, Cinema e Esportes. Atual CEO do Flixlândia e redatora do site Ultraverso.

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